TODAS AS GLÓRIAS A SRI SRI GURU E GAURANGA
Sua Divina Graça
A. C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupada
FUNDADOR ACARYA DA SOCIEDADE INTERNACIONAL PARA A CONCIENCIA DE KRISHNA
Prólogo
Desde o começo, eu senti que Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada era a pessoa mais extraordinária que eu já havia encontrado. O primeiro encontro ocorreu no verão de 1966, na cidade de Nova Iorque. Um amigo tinha me convidado para ouvir uma palestra de “um velho swami indiano” na parte baixa do Bowery em Manhattan. Tomado de curiosidade por um swami que dava palestras em meia a tremenda confusão, fui até lá, onde tive que enfrentar uma escadaria muito escura. Um som rítmico semelhante ao de um sino tornava-se cada vez mais alto à medida que eu subia as escadas. Finalmente, cheguei ao quarto andar. Abri a porta, e lá estava ele.
A cerca de cinco metros de onde eu estava, na outra extremidade de um quarto estreito e escuro, ele estava sentado sobre um pequeno estrado, com o rosto e a veste açafroada radiantes sob uma luz tênue. Ele era idoso, por volta de sessenta anos, pensei eu, e sentava-se com as pernas cruzadas numa postura erecta e solene. Tinha a cabeça raspada, e seu rosto vigoroso e avermelhados óculos de aro de cláxon davam-lhe a aparência de um monge que passara a maior parte da vida absorto em estudos. Mantinha os olhos cerrados e cantava suavemente uma simples oração em sânscrito enquanto tocava um tambor de mão. A pequena audiência o acompanhava a intervalos, respondendo a seu canto. Alguns tocavam címbalos de mão, os quais reconheci pelos sons semelhantes aos de sino que ouvira. Fascinado, fiquei sentado quieto, atrás; tentei participar no canto e esperei.
Após alguns instantes, o swami começou a dar sua palestra em inglês, aparentemente baseado em um imenso volume em sânscrito que se encontrava à sua frente. Ocasionalmente, ele citava alguma passagem do livro, mas a maior parte das vezes citava de memória. O som do idioma era belo, e ele seguia cada passagem com explicações meticulosamente detalhadas.
Ele parecia um erudito, seu vocabulário intricadamente ornamentado com termos e frases filosóficas. Os elegantes gestos com as mãos e as animadas expressões faciais adicionavam um considerável impacto a seu discurso. O Assunto foi o mais sério que eu jamais tinha ouvido: “Eu não sou este corpo. Não sou um indiano... vocês não são americanos... todos nós somos almas espirituais...”
Após a palestra, alguém deu-me um panfleto impresso na Índia. Uma foto mostrava o swami dando três de seus livros ao Primeiro Ministro indiano, Lal Bahadur Shastri. A legenda citava o Sr. Shastri dizendo que todas as bibliotecas do governo indiano deviam encomendar os livros: “Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada está fazendo um trabalho grandioso,” dizia o Primeiro Ministro em outro trecho, “e seus livros são contribuições significativas para a salvação da humanidade.” Eu adquiri cópias dos livros, que, como fiquei sabendo, o swami havia trazido consigo da Índia. Após ler as orelhas da capa dos livros, o pequeno panfleto e vários outros textos, comecei a compreender que acabara de me encontrar com um dos mais respeitados líderes espirituais da Índia.
Mas não podia entender por que um cavalheiro tão distinto estava morando e dando palestras no Bowery, o pior dos piores lugares. Ele era certamente bem educado e, a julgar pelas aparências, havia nascido em aristocrática família indiana. Por que estava vivendo em tal pobreza? O que no mundo o havia trazido ali? Uma tarde, alguns dias depois, voltei para visitá-lo e descobrir os porquês.
Para minha surpresa, Srila Prabhupada (como posteriormente vim a chamá-lo) não estava muito atarefado para conversar comigo. De fato, ele parecia estar disposto a conversar o dia todo. Ele foi caloroso e amigável, e explicou-me que havia aceitado a ordem de vida renunciada na Índia em 1959, e que não lhe era permitido carregar ou ganhar dinheiro para suas necessidades pessoais. Ele tinha completado seus estudos na Universidade de Calcutá muitos anos atrás e tinha tido família, e depois deixara seus filhos mais velhos encarregados da família e dos assuntos financeiros, como prescreve a antiga cultura védica. Após aceitar a ordem renunciada, ele conseguira uma passagem de graça em cargueiro indiano (o Jaladuta da Companhia de Navegação Scindia) através de um velho amigo da família. Em setembro de 1965, ele acabara de atravessar por mar de Bombaim a Boston, equipado com apenas o equivalente a sete dólares em rúpias, um baú de livros e algumas roupas. Seu mestre espiritual, Sua Divina Graça Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, incumbira-o de transmitir os ensinamentos védicos ao mundo ocidental. E foi por isso que, aos sessenta e nove anos de idade, ele viera para a América. Disse-me que queria ensinar aos americanos a música, culinária, idiomas e diversas outras artes da Índia. Sem querer exagerar, eu estava espantado.
Vi que Srila Prabhupada dormia sobre um pequeno colchão e que suas roupas estavam penduradas em cordas na parte de trás do quarto, onde secavam ao calor da tarde de verão. Ele próprio as lavava e cozinhava sua própria comida em um engenhoso utensílio que ele fabricara com suas próprias mãos na Índia. Neste aparato de quatro níveis ele cozinhava quatro preparações de uma vez só. Amontoados por toda a sua volta, havia uma quantidade aparentemente ilimitada de manuscritos. Ele passava quase todo o tempo em que estava acordado – cerca de vinte horas em vinte e quatro, como fiquei sabendo – datilografando em sua antiquada máquina portátil a continuação dos três volumes que eu adquirira. Era uma obra projetada em sessenta volumes chamada Srimad-Bhagavatam, e era, por assim dizer, a enciclopédia da vida espiritual. Desejei-lhe boa sorte na publicação, e ele me convidou a voltar para as aulas de sânscrito aos sábados e para suas palestras noturnas às segundas, quartas e sextas. Eu aceitei o convite, agradeci-lhe, e saí, maravilhado com sua incrível determinação.
Algumas semanas mais tarde – era julho de 1966 – tive o privilégio de ajudar Srila Prabhupada a mudar-se para uma vizinhança um tanto respeitável, na Segunda Avenida. Alguns amigos e eu nos juntamos e alugamos uma loja de andar térreo e um apartamento de segundo andar, o qual dava para os fundos de um pátio, tudo no mesmo prédio. As palestras e cantos continuaram, e dentro de duas semanas uma congregação que crescia rapidamente cuidava da loja (que agora se transformara em templo) e do apartamento. Por essa época, Srila Prabhupada estava ensinando seus seguidores a imprimir e distribuir panfletos, e o proprietário de uma gravadora de discos o havia convidado a gravar um LP do canto Hare Krishna. Ele o fez, e foi um grande sucesso. Em seu novo endereço, ele ensinava canto, filosofia védica, música, meditação com japa, belas artes e culinária. A princípio, ele próprio cozinhava – ele sempre ensinou pelo exemplo. O resultado era as mais admiráveis refeições vegetarianas que eu jamais experimentei. (O próprio Srila Prabhupada era quem servia tudo que preparava!) Geralmente, as refeições consistiam de um tipo de arroz, um prato de legumes, capatis (pães achatados feitos de farinha integral) e dal (uma sopa bem temperada de feijão mung ou ervilha). A condimentação, o elemento básico para cozinhar – ghi, ou manteiga clarificada – e a concentrada atenção na temperatura apropriada para cozinhar e outros detalhes – tudo isso combinava-se para produzir deleites de paladar totalmente desconhecidos para mim. A opinião de outras pessoas sobre a comida, chamada prasada (“a misericórdia do Senhor”), concordava enfaticamente com a minha. Um assistente social que também era erudito em língua chinesa estava aprendendo com Srila Prabhupada a pintar no estilo clássico indiano. Fiquei impressionado com a alta qualidade de suas primeiras telas.
Em debates filosóficos e lógica, Srila Prabhupada era inderrotável e infatigável. Ele interrompia seu trabalho de tradução para ter discussões que às vezes chegavam a durar oito horas. Às vezes sete ou oito pessoas comprimiam-se no pequeno e imaculadamente limpo cômodo onde ele trabalhava, comia e dormia sobre uma almofada de espuma de duas polegadas de espessura. Srila Prabhupada constantemente enfatizava e exemplificava o que chamava de “vida simples com pensamento elevado.” Ele enfatizava que a vida espiritual era ciência provável através da razão e da lógica, e não mera questão de sentimentalismo ou fé cega. Ele deu início a uma revista mensal, e no outono de 1966 o New York Times publicou um artigo com foto favorável sobre ele e seus seguidores. Pouco tempo depois, um canal de televisão fez uma reportagem sobre eles.
Srila Prabhupada era uma pessoa emocionante de ser conhecida. Quer fosse por meu desejo de obter benefícios pessoais da yoga e do canto, quer fosse apenas por mera fascinação, eu sabia que queria acompanhar seu progresso a cada passo do seu caminho. Seus planos de expansão eram ousados e imprevisíveis, exceto pelo fato de que sempre pareciam suceder gloriosamente. Ele tinha os seus setenta anos e era um estranho para a América, e havia chegado praticamente sem nada; todavia, agora, após poucos meses, já havia, sozinho, dado início a um movimento! Era algo desconcertante.
Certa manhã de agosto no templo da loja da Segunda Avenida, Srila Prabhupada nos disse: “hoje é o dia do aparecimento do Senhor Krishna.” Observaríamos jejum por vinte e quatro horas e permaneceríamos dentro do templo. Naquela noite alguns visitantes da Índia também compareceram à reunião. Um deles – praticamente em lágrimas – descreveu sua infinita felicidade de ter encontrado este pedacinho da Índia autêntica no outro lado do mundo. Jamais em seus sonhos mais audaciosos poderia ele ter imaginado tal coisa. Ele ofereceu a Srila Prabhupada eloqüentes louvores e profundos agradecimentos, deixou uma doação e prostrou-se a seus pés. Todos ficaram profundamente comovidos. Mais tarde, Srila Prabhupada conversou com os cavalheiros em hindi, e, uma vez que eu não podia entender o que ele dizia, pude apenas observar como sua própria expressão e gestos tocavam o âmago da alma humana.
Posteriormente naquele ano, enquanto estive em San Francisco, enviei a Srila Prabhupada sua primeira passagem de avião, e ele voou de Nova Iorque para San Francisco. Um grupo bastante grande de nós saudou-o no aeroporto cantando o mantra Hare Krishna. Depois nós o levamos de carro à orla oriental do Golden Gate Park para um apartamento recém-alugado e um templo em loja de frente – um arranjo muito semelhante ao de Nova Iorque. Havíamos estabelecido um padrão. Srila Prabhupada estava extático.
Algumas semanas depois a primeira mrdanga (tambor feito de barro com duas extremidades para batuque) chegou a San Francisco, proveniente da Índia. Quando subi ao apartamento de Srila Prabhupada e lhe dei a notícia, ele arregalou os olhos e, com voz extasiada, mandou que eu descesse rapidamente e abrisse o engradado. Peguei o elevador, saltei no andar térreo e estava andando em direção à porta da frente quando Srila Prabhupada apareceu. Ele estava tão ávido de ver a mrdanga que desceu pela escada chegando primeiro que o elevador. Ele nos pediu para abrir o engradado, rasgou um pedaço da roupa açafroada que estava usando, e deixando apenas as extremidades para batuque expostas, envolveu toda a mrdanga com o pano. Então disse: “Isto nunca deve ser tirado,” e começou a dar instruções detalhadas sobre como tocar e cuidar do instrumento.
Ainda em San Francisco, em 1967, Srila Prabhupada inaugurou o Ratha-yatra, o Festival dos Carros, um dos vários festivais que, graças a ele, as pessoas podem assistir hoje em dia em todo o mundo. O Ratha-yatra acontece na cidade de Jagannatha Puri na Índia, ano após ano, desde há dois mil anos, e em 1975 o festival já tinha se tornado tão popular entre os San Franciscanos que o prefeito declarou este dia feriado na cidade – “Dia do Ratha-yatra em San Francisco.”
Em meados de 1966 Srila Prabhupada começara a aceitar discípulos. Ele era rápido em chamar a atenção das pessoas para o fato de que todos deviam considerá-lo, não como Deus, mas como servo de Deus, e criticava os gurus da moda que deixavam seus discípulos adorá-los como Deus. “Esses ‘deuses’ são muito baratos,” costumava dizer. Certo dia, depois que alguém perguntou, “O senhor é Deus?”, Srila Prabhupada respondeu: “Não, eu não sou Deus – sou servo de Deus.” Então ele refletiu por um momento e prosseguiu. “Na verdade, eu não sou servo de Deus. Estou tentando ser servo de Deus. Um servo de Deus não é algo comum.”
Em meados dos anos 70 o trabalho de tradução e publicação de Srila Prabhupada intensificou dramaticamente. Intelectuais em todo mundo fizeram comentários favoráveis sobre seus livros, e praticamente todas as universidades e faculdades dos Estados Unidos aceitaram-nos como texto padrão. Ao todo, ele produziu cerca de oitenta livros, os quais seus discípulos têm traduzido para vinte e cinco idiomas e dos quais já distribuíram cerca de vinte e cinco milhões de cópias. Ele estabeleceu cento e oito templos em todo o mundo, e tem cerca de dez mil discípulos iniciados e uma congregação de milhões de seguidores. Srila Prabhupada escreveu e traduziu até os últimos dias de sua estada de oitenta e um anos na Terra.
Srila Prabhupada não foi apenas outro erudito, guru, místico, professor de yoga ou instrutor de meditação oriental. Ele foi a corporificação de toda uma cultura, a qual implantou no Ocidente. Para mim e para muitos outros, ele foi, antes de mais nada, alguém que realmente se preocupou conosco, que sacrificou completamente o seu próprio conforto para trabalhar para o bem estar dos outros. Ele não tinha vida privada, senão que vivia apenas para os outros. Ensinou ciência espiritual, filosofia, bom senso, belas artes, idiomas, o modo védico de vida – higiene, nutrição, medicina, etiqueta, vida familiar, agricultura, organização social, educação escolar, economia – e muitas coisas mais a muitas pessoas. Para mim, ele foi u mestre, um pai e meu mais querido amigo.
Estou profundamente endividado com Srila Prabhupada, e é um dívida que jamais serei capaz de liquidar. Mas posso ao menos mostrar alguma gratidão, juntando-me a seus outros seguidores para satisfazer seu desejo mais íntimo – publicar e distribuir seus livros.
“Jamais morrerei,” disse Srila Prabhupada certa vez. “Viverei para sempre em meus livros.” Ele se foi deste mundo no dia 14 de novembro de 1977, mas sem dúvida ele viverá para sempre.
Michael Grant
(Mukunda dasa)
Introdução
“Quem é Srila Prabhupada?”, as pessoas perguntam freqüentemente, e é sempre uma pergunta difícil de se responder. Pois Srila Prabhupada sempre eclipsou designações convencionais. Várias vezes as pessoas o têm chamado de erudito, filósofo, embaixador cultural, autor prolífico, líder religioso, mestre espiritual, crítico social e homem santo. Na verdade, ele foi tudo isso junto e mais. Decerto ninguém poderia tê-lo confundido com os modernos “gurus” empresariados que vêm para o Ocidente com versões habilidosamente empacotadas e água-com-açúcar de espiritualidade oriental (para satisfazer nossa premente necessidade de bem-estar instantâneo e explorar nossa bem-documentada ingenuidade espiritual). Srila Prabhupada foi, antes, um verdadeiro homem santo (sadhu) de profunda sensibilidade intelectual e espiritual – ele teve profunda preocupação e compaixão por uma sociedade que, em proporções muito salientes, carece de verdadeira dimensão espiritual.
Para a iluminação da sociedade humana, Srila Prabhupada produziu cerca de oitenta volumes de traduções e estudos sumários dos grandes clássicos espirituais da Índia, e sua obra tem sido impressa em muitas línguas em todos os continentes. Além disso, em 1944 Srila Prabhupada, sozinho, lançou uma revista chamada De Volta ao Supremo, que hoje em dia tem uma circulação mensal de mais de meio milhão de cópias apenas em inglês. Praticamente todas as entrevistas, palestras, ensaios e cartas escolhidas para o Ciência da Auto-realização apareceram primeiramente em De Volta ao Supremo.
Nessas páginas Srila Prabhupada apresenta a mesma mensagem que o grande sábio Vyasadeva registrou milhares de anos atrás, a mensagem dos textos védicos da Índia milenar. Como veremos, ele faz citações freqüentes do Bhagavad-gita, do Srimad-Bhagavatam e de outros clássicos textos védicos. Ele transmite em inglês moderno o mesmo conhecimento intemporal que outros grandes mestres auto-realizados têm falado desde há milênios – conhecimento que revela os segredos do eu dentro de nós, da natureza e do universo, e do Eu Supremo dentro e fora de nós. Srila Prabhupada fala com uma clareza admirável e uma espécie de eloqüência simples e convincente, provando quão relevante é a ciência da auto-realização para nosso mundo moderno e nossas próprias vidas.
Entre as dezenove seleções escolhidas para a primeira parte desta obra especial, ouvimos o comovente discurso de Srila Prabhupada em homenagem a seu mestre espiritual, seu intercâmbio com um renomado cardiologista sobre a “investigação da alma”, suas revelações à London Broadcasting Company sobre reencarnação, seus agudos comentários ao London Times dobre gurus falsos e verdadeiros, seu diálogo com um monge beneditino da Alemanha acerca de Krishna e Cristo, suas realizações sobre a superconsciência e a lei do karma e seu notável comentário ao profundo poema de Sripada Sankaracarya, a maior autoridade em filosofia impersonalista na Índia.
Leia as seleções em ordem, se quiser, ou comece com aqueles que de início despertarem seu interesse. (O glossário no final do livro explicará palavras e nomes pouco familiares.) A Ciência da Auto-realização desafiá-lo-á e dar-lhe-á inspiração e iluminação.
-Os Editores
I.
Aprendendo
A ciência da
alma
Considerando o objetivo
Da vida humana
Quem é você? Acaso você é seu corpo? Ou sua mente? Ou será você algo superior? Você sabe quem é você, ou você apenas acha que sabe? E isso é realmente importante? Nossa sociedade materialista, com sua liderança obscura, tem transformado em verdadeiro tabu a indagação acerca de nosso eu verdadeiro, superior. Ao invés, nós usamos nosso tempo valioso, mantendo, decorando e saciando o corpo para seu próprio benefício. Acaso há uma alternativa?
Este importantíssimo movimento para a consciência de Krishna destina-se a salvar a sociedade humana da morte espiritual. Atualmente, a sociedade humana está sendo desencaminhada por líderes cegos, pois eles não conhecem a meta e objetivo da vida humana, que é a auto-realização e o restabelecimento de nossa relação perdida com a suprema personalidade de Deus. É isto que está faltando. O movimento para a consciência de Krishna está tentando esclarecer a sociedade humana sobre este importante assunto.
Segundo a civilização védica, a perfeição da vida é compreendermos nosso relacionamento com Krishna, ou Deus. No Bhagavad-gita, que é aceito por todas as autoridades em ciência transcendental como a base de todo o conhecimento védico, aprendemos que não só os seres humanos mas também todas as entidades vivas são partes integrantes de Deus. A função das partes é servir ao todo, assim como as pernas, mãos, dedos e ouvidos destinam-se a servir ao corpo inteiro. Nós, entidades vivas, sendo partes integrantes de Deus, temos a obrigação de servi-lO.
Na verdade, nossa posição é que sempre estamos prestando serviço a alguém, seja nossa família, país ou sociedade. Se não temos ninguém a quem servir, às vezes criamos um cão ou um gato de estimação e prestamos-lhe serviço. Todos estes fatores provam que estamos constitucionalmente destinados a prestar serviço; porém, apesar de servirmos da melhor maneira possível, não ficamos satisfeitos. Tampouco a pessoa a quem prestamos o serviço fica satisfeita. Na plataforma material, todos estão frustrados. O motivo disso é que o serviço que está sendo prestado não está corretamente orientado. Por exemplo, se quisermos servir a uma árvore, teremos que molhar-lhe a raiz. Se molharmos as folhas, ramos e galhos, ela não vai aproveitar muito. Se a Suprema Personalidade de Deus é servida, todas as outras partes integrantes ficarão automaticamente satisfeitas. Conseqüentemente, todas as atividades beneficentes, bem como o serviço à sociedade, à família e à nação são realizados quando servimos à Suprema Personalidade de Deus.
É dever de todo ser humano entender sua posição constitucional em relação com Deus e agir de acordo com essa posição. Logo que isto for possível, nossas vidas vão ser bem sucedidas. Às vezes, entretanto, manifestamos um espírito desafiador e dizemos: “Deus não existe”, ou “Eu sou Deus”, ou mesmo “Não me importo com Deus.” Mas o fato é que este espírito desafiador não nos salvará. Deus existe e podemos vê-lO a cada momento. Se nos negarmos a ver Deus durante nossa vida, então Ele Se apresentará ante nós como a morte cruel. Se optamos por não vê-lO sob um aspecto, vê-lO-emos sob outro aspecto. Há diferentes aspectos da Suprema Personalidade de Deus porque Ele é a raiz original de toda a manifestação cósmica. Neste sentido, não é possível escaparmos dEle.
Este movimento para a consciência de Krishna não é um movimento de cego fanatismo religioso, nem é um movimento de revoltados criado por algum novo-rico atual; muito pelo contrário, é um movimento que aborda autorizada e cientificamente a questão de nossa necessidade eterna em relação com a Personalidade de Deus Absoluta, o Desfrutador Supremo. A Consciência de Krishna trata simplesmente de nosso relacionamento eterno com Ele e do processo de cumprir nossos deveres relativos a Ele. Deste modo, a consciência de Krishna capacita-nos a atingir a perfeição máxima da vida, obtenível na atual forma de existência humana.
Devemo-nos lembrar sempre de que esta forma particular de vida humana é alcançada após uma evolução de muito milhões de anos no ciclo transmigratório da alma espiritual. Nesta forma de vida em particular, a questão econômica é mais facilmente resolvida do que nas formas animais inferiores. Há suínos, cães, camelos, asnos e assim por diante cujas necessidades econômicas são tão importantes quanto as nossas, mas os problemas econômicos desses animais e outros são resolvidos sob condições primitivas, ao passo que o ser humano recebe das leis da natureza todas as oportunidades para levar uma vida confortável.
Por que o homem recebe melhores oportunidades para viver do que os suínos ou outros animais? Por que um alto funcionário do governo recebe melhores facilidades para uma vida confortável do que um funcionário comum? A resposta é muito simples: o funcionário importante tem que cumprir deveres de maior responsabilidade do que o funcionário comum. De modo semelhante, o ser humano tem que cumprir deveres superiores aos dos animais, que estão sempre atarefados enchendo seus estômagos famintos. Mas, devido às leis da natureza, o moderno padrão animalesco de civilização tem apenas aumentado os problemas de encher o estômago. Quando nos aproximamos de algum desses animais polidos propondo-lhes a vida espiritual, eles dizem que só querem trabalhar para a satisfação de seus estômagos e que não há necessidade de indagar sobre o Supremo. Não obstante, a despeito de sua avidez de trabalhar arduamente, há sempre o problema do desemprego e tantas outras contrariedades infligidas pelas leis da natureza. Apesar disso, eles ainda rejeitam a necessidade de reconhecer o Supremo.
Recebemos esta forma humana de vida não apenas para trabalhar arduamente como o suíno e o cão, mas também para alcançar a perfeição máxima da vida. Se não quisermos esta perfeição, teremos que trabalhar arduamente, pois seremos forçados a isso pelas leis da natureza. Nos últimos dias de Kali-yuga (esta era atual) os homens terão que trabalhar arduamente como asnos em troca de uma mísera migalha de pão. Este processo já começou, e a cada ano a necessidade de trabalhar mais arduamente em troca de remunerações sempre menores aumentará. Contudo, os seres humanos não estão destinados a trabalhar arduamente como animais, e, se um homem deixa de cumprir seus deveres como ser humano, ele é forçado a transmigrar para as espécies inferiores de vida pelas leis da natureza. O Bhagavad-gita descreve muito vividamente como a alma espiritual, de acordo com as leis da natureza, nasce e obtém um corpo e órgãos sensoriais adequados para desfrutar da matéria no mundo material.
No Bhagavad-gita também se afirma que aqueles que começam mas não prosseguem no caminho de se aproximar de Deus – em outras palavras, aqueles que não conseguem atingir o sucesso completo na consciência de Krishna – recebem a oportunidade de aparecer em famílias dos espiritualmente avançados ou em famílias de comerciantes financeiramente prósperos. Se aos mal sucedidos aspirantes espirituais são oferecidas tais oportunidades de parentesco nobre, o que se dizer daqueles que tenham realmente alcançado o sucesso esperado? Portanto, uma tentativa de voltar ao Supremo, mesmo que inacabada, garante um bom nascimento na próxima vida. Tanto a família espiritual quanto a financeiramente próspera são benéficas para o avanço espiritual, porque em ambas essas famílias pode-se obter uma boa oportunidade de progredir mais do ponto onde se parou em nascimento anterior. Na realização espiritual, a atmosfera gerada por uma boa família é favorável para o cultivo de conhecimento espiritual. O Bhagavad-gita lembra a tais pessoas afortunadas, nascidas em boas famílias, que sua boa sorte é devida a suas atividades devocionais passadas. Infelizmente, os filhos dessas famílias não consultam o Bhagavad-gita, sendo desencaminhados por maya (ilusão).
O nascimento em uma família próspera resolve o problema de ter alimentação suficiente desde o começo da vida, e, posteriormente, pode-se ter um modo de vida relativamente mais fácil e mais confortável. Estando nessa situação, uma pessoa tem uma boa oportunidade de avançar no caminho da realização espiritual, mas por uma questão de má sorte, devido à influência da atual era de ferro (que é cheia de máquinas e pessoas mecânicas) os filhos dos abastados são desencaminhados para o desfrute dos sentidos, e se esquecem da boa oportunidade que têm para a iluminação espiritual. Portanto, a natureza, através de suas leis, está deitando fogo a tais lares de ouro. Assim aconteceu à dourada cidade de Lanka, sob o regime do demoníaco Ravana, que foi reduzida a cinzas. Esta é a lei da natureza.
O Bhagavad-gita é o estudo preliminar da transcendental ciência da consciência de Krishna, e é dever de todos os chefes de estado responsáveis planejar seus projetos econômicos e outros projetos, recorrendo ao Bhagavad-gita. Não estamos destinados a resolver apenas os problemas econômicos da vida, equilibrando-nos em uma plataforma vacilante; ao contrário, nosso objetivo é resolver os problemas fundamentais da vida que surgem devido às leis da natureza. A civilização permanece estática a menos que haja movimento espiritual. A alma movimenta o corpo, e o corpo vivo movimenta o mundo. Estamos preocupados com o corpo, mas não temos conhecimento do espírito que está movimentando esse corpo. Sem o espírito, o corpo permanece imóvel, ou morto.
O corpo humano é um excelente veículo através do qual podemos alcançar a vida eterna. É um barco raro e muito importante para atravessar o oceano da ignorância que é a existência material. Neste barco, há o serviço a um hábil barqueiro, o mestre espiritual. Pela divina graça, o barqueiro singra o oceano com vento favorável. Com todos esses fatores auspiciosos, quem não aproveitaria a oportunidade para atravessar o oceano da ignorância? Se uma pessoa negligencia esta boa oportunidade, pode-se considera-la como alguém que está simplesmente cometendo suicídio.
Há sem dúvida bastante conforto no vagão de primeira classe de um trem, mas se o trem não anda em direção a seu destino, qual a vantagem de se ter um compartimento com ar condicionado? A civilização contemporânea está demasiadamente interessada em dar conforto ao corpo material, mas ninguém tem informação do verdadeiro destino da vida, que é voltar ao Supremo. Não devemos ficar apenas sentados em um compartimento confortável; devemos examinar se nosso veículo está indo ou não para o seu verdadeiro destino. Não há vantagem alguma em dar conforto ao corpo material às custas do esquecimento da principal necessidade da vida, que é recuperar nossa identidade espiritual perdida. O barco da vida humana é construído de tal maneira que deve dirigir-se a um destino espiritual. Infelizmente, este corpo está ancorado na consciência mundana através de cinco fortes correntes, que são: (1) apego ao corpo material devido à ignorância de fatos espirituais, (2) apego a parentes devido a relações corpóreas, (3) apego à terra natal e a posses materiais tais como casa, móveis, bens, propriedades, documentos, etc., (4) apego à ciência material, que sempre permanece obscura por falta de luz espiritual, e (5) apego a formas religiosas e rituais sagrados sem conhecimento da Personalidade de Deus ou Seus devotos, que os tornam sagrados. Esses apegos, que ancoram o barco do corpo humano, são explicados detalhadamente no Décimo Quinto Capítulo do Bhagavad-gita. Eles são comparados a uma figueira-de-bengala de raízes profundas que está constantemente aumentando sua aderência à terra. È muito difícil desenraizar essa forte figueira-de-bengala, mas o Senhor recomenda o seguinte processo: “A forma real desta árvore não pode ser percebida neste mundo. Ninguém pode entender onde ela termina, onde começa ou onde está sua base. Porém, com determinação, deve-se buscar aquele local do qual, uma vez lá chegando, nunca se retorna, e ali render-se àquela Suprema Personalidade de Deus de quem tudo começou e em quem tudo está apoiado desde tempos imemoriais.” [Bg. 15.3-4] Até agora, nem os cientistas nem os filósofos especulativos chegaram a conclusão alguma relativa à situação cósmica. Tudo o que eles têm feito é apresentar diferentes teorias sobre a situação cósmica. Alguns deles dizem que o mundo material é real, outros dizem que é um sonho, e há outros ainda que dizem que ele existe eternamente. Dessa maneira, os eruditos mundanos mantêm diferentes pontos de vista, mas o fato é que nenhum cientista mundano ou filosofo especulativo conseguiu jamais descobrir o começo do cosmo ou seus limites. Ninguém pode dizer quando ele começou ou como ele flutua no espaço. Eles teoricamente propõem algumas leis, como a lei da gravitação, mas na verdade eles não podem pôr esta lei em prática. Por falta de conhecimento real da verdade, todos estão ansiosos em promover sua própria teoria para conseguir alguma fama, mas o fato verdadeiro é que este mundo material é cheio de misérias e que ninguém pode supera-las simplesmente por promover algumas teorias sobre o assunto. A Personalidade de Deus, que é plenamente conhecedora de tudo em Sua criação, informa-nos que é para o nosso próprio benefício que desejemos livrar-nos desta existência miserável. Para fazermos o melhor uso de um mau negócio, nossa existência material deve ser cem por cento espiritualizada. O ferro não é fogo, mas pode ser convertido em fogo pelo contato constante com o fogo. Analogamente, o desapego das atividades materiais pode ser efetuado através de atividades espirituais, e não pela inércia material. A inércia material é o lado negativo da ação material, mas a atividade espiritual é não apenas a negação da ação material, como também a ativação de nossa vida verdadeira. Devemos estar ansiosos por buscar a vida eterna, ou a existência espiritual em Brahman, O Absoluto. O reino eterno de Brahman é descrito no Bhagavad-gita como aquele país eterno do qual não se regressa. Este é o reino de Deus.
Não é possível remontarmos ao começo de nossa atual vida material, nem é necessário que saibamos como nos tornamos condicionados na existência material. Temos que nos satisfazer com o entendimento de que de alguma forma esta vida material tem acontecido desde tempos imemoriais e agora nosso dever é render-nos ao Senhor Supremo, que é a causa original de todas as causas. A qualificação preliminar para se voltar ao Supremo é dada no Bhagavad-gita [15.5]: “Aquele que é livre da ilusão, do falso prestígio e da falsa associação, que entende o eterno, que acabou com a luxúria material e está livre da dualidade de felicidade e tristeza, e que sabe como se render à Pessoa Suprema atinge esse reino eterno.”
Aquele que está convencido de sua identidade espiritual e está livre da concepção material de existência, que está livre da ilusão e é transcendental aos modos da natureza material, que se ocupa constantemente em entender o conhecimento espiritual e que se afastou completamente do gozo dos sentidos pode voltar ao Supremo. Uma pessoa assim chama-se amudha, em contraposição com o mudha, ou o tolo e ignorante, pois ela está livre da dualidade de felicidade e tristeza.
E qual é a natureza do reino de Deus? Ele é descrito no Bhagavad-gita [15.6] da seguinte maneira: “Essa Minha morada não é iluminada pelo sol ou pela lua, nem por eletricidade. Aquele que a alcança jamais retorna a este mundo material.”
Embora todos os locais na criação estejam dentro do reino de Deus, porque o Senhor é o proprietário supremo de todos os planetas, há ainda a morada pessoal do Senhor, que é completamente diferente do universo em que estamos vivendo agora. E essa morada chama-se paramam, ou a morada suprema. Mesmo na Terra há países onde o padrão de vida é elevado e países onde o padrão de vida é baixo. Além da Terra, há inumeráveis outros planetas distribuídos por todo o universo, e alguns são considerados locais superiores e outros, locais inferiores. De qualquer maneira, todos os planetas dentro da jurisdição da energia externa, natureza material, precisa dos raios de um sol ou da luz do fogo para manter sua existência, porque o universo material é uma região de escuridão. Além dessa região, contudo, está o reino espiritual, que, como se descreve, funciona sob a natureza superior de Deus. Esse reino é descrito nos Upanisads desse modo: “Lá não há necessidade de sol, lua ou estrelas, nem essa morada é iluminada pela eletricidade ou qualquer outra forma de fogo. Todos esses universos materiais são iluminados por um reflexo dessa luz espiritual, e, porque essa natureza superior é sempre auto-luminosa, podemos experimentar um brilho de luz mesmo na mais densa escuridão da noite.” No Hari-vamsa, a natureza espiritual é explicada pelo próprio Senhor Supremo da seguinte maneira: “A resplandecente refulgência do Brahman impessoal [o Absoluto impessoal] ilumina todas as existências, tanto as materiais quanto as espirituais. Mas, ó Bharata, deves entender que esta iluminação Brahman é a refulgência de Meu corpo.” No Brahma-samhita também se confirma esta conclusão. Não devemos pensar que podemos atingir essa morada por algum meio material, como naves espaciais, por exemplo, mas devemos ter a certeza de que aquele que pode atingir essa morada espiritual de Krishna pode desfrutar de bem-aventurança e conhecimento. Na existência material, somos governados pela concepção material do corpo e da mente, mas, na existência espiritual podemos sempre saborear o contato feliz e transcendental com a Personalidade de Deus. Na existência espiritual, nunca nos perdemos do Senhor.
O movimento para a consciência de Krishna está tentando trazer essa existência espiritual para a humanidade em geral. Em nossa atual consciência material, estamos apegados à concepção material sensorial de vida, mas esta concepção pode ser eliminada imediatamente através do serviço devocional a Krishna, ou consciência de Krishna. Se adotarmos os princípios do serviço devocional, poderemos nos tornar transcendentais às concepções materiais de vida e nos libertarmos dos modos de bondade, paixão e ignorância, mesmo em meio a várias ocupações materiais. Todos que estão ocupados em afazeres materiais podem obter o mais elevado benefício das páginas da revista De Volta ao Supremo e das outras obras deste movimento para a consciência de Krishna. Essas obras ajudarão todas as pessoas a cortar as raízes da infatigável figueira-de-bengala da existência material. Essas obras são autorizadas para nos treinar a renunciar a tudo que esteja relacionado com a concepção material de vida e a saborear néctar espiritual em todos os objetos. Este estágio só pode ser obtido através do serviço devocional, e nada mais. Prestando tal serviço, pode-se imediatamente obter liberação (mukti) mesmo durante a vida atual. A maioria dos esforços espirituais são matizados com as cores do materialismo, mas o serviço devocional puro é transcendental a toda contaminação material. Aqueles que desejam voltar ao Supremo necessitam apenas adotar os princípios deste movimento para a consciência de Krishna e simplesmente voltar sua consciência para os pés de lótus do Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, Krishna.
”Sua consciência original é a consciência de Krishna”
A seguinte entrevista com a repórter free-lance Sandy Nixon ocorreu em julho de 1975, nos aposentos de Srila Prabhupada no centro da ISKCON de Filadélfia. Esta discussão serve como magnífica introdução à consciência de Krishna e cobre temas básicos, tais como o mantra Hare Krishna, a relação entre o mestre espiritual e Deus, a diferença entre gurus genuínos e farsantes, o papel da mulher na consciência de Krishna, o sistema de castas indiano, e a relação entre consciência de Cristo e consciência de Krishna.
Srta. Nixon: Minha primeira pergunta é muito básica. Que é a consciência de Krishna?
Srila Prabhupada: “Krishna” significa Deus. Todos nós estamos intimamente relacionados com Ele porque Ele é nosso pai original. Mas nos esquecemos dessa ligação. Quando nos interessamos em saber: “Qual é minha relação com Deus? Qual é o objetivo da vida?”, então podemos ser chamados de conscientes de Krishna.
Srta. Nixon: Como a consciência de Krishna se desenvolve no praticante?
Srila Prabhupada: A consciência de Krishna já existe no âmago do coração de todos. Mas, por causa de nossa vida materialmente condicionada, esquecemo-nos dela. O processo de cantar o maha-mantra Hare Krishna – Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare – revive a consciência de Krishna que nós já temos. Por exemplo, há alguns meses atrás esses rapazes e moças americanos e europeus não conheciam Krishna, mas ontem mesmo nós os vimos cantando Hare Krishna e dançando em êxtase durante toda a procissão Ratha-yatra [um festival anual patrocinado pelo movimento para a consciência de Krishna em cidades de todo o mundo]. Você acha que aquilo foi artificial? Não. Artificialmente, ninguém pode cantar e dançar por horas a fio. Eles realmente despertaram sua consciência de Krishna por terem seguido um processo genuíno. Isto é explicado no Caitanya-caritamrta [Madhya 22.107]:
nitya-siddha krsna-prema ‘sadhya’ kabhu naya
sravanadi-suddha-citte karaye udaya
A consciência de Krishna está adormecida no coração de todos, e, quando uma pessoa entra em contato com devotos, ela é desperta. A consciência de Krishna não é algo artificial. Assim como um rapaz desperta sua atração natural por uma moça na companhia dela, de modo semelhante, se alguém ouve a respeito de Krishna na companhia de devotos, ele desperta sua consciência de Krishna adormecida.
Srta. Nixon: Qual é a diferença entre consciência de Krishna e consciência de Cristo?
Srila Prabhupada: Consciência de Cristo também é consciência de Krishna, mas, porque atualmente as pessoas não seguem as regras e regulações do cristianismo – os mandamentos de Jesus Cristo – elas não chegam ao padrão de consciência de Deus.
Srta. Nixon: O que é comum sobre o tema consciência de Krishna entre todas as religiões?
Srila Prabhupada: Primeiramente, religião significa conhecer Deus e amá-lO. Isto é religião. Hoje em dia, por falta de treinamento, ninguém conhece Deus, isto para não falar de amá-lO. As pessoas se contentam apenas com ir à igreja e orar: “Ó Deus! Dai-nos o pão de cada dia.” No Srimad-Bhagavatam isto se chama religião enganadora, porque o objetivo não é conhecer e amar a Deus, mas sim obter alguma vantagem pessoal. Em outras palavras, se eu ingresso numa religião, mas não sei quem é Deus nem como amá-lO, estou praticando uma religião enganadora. Quanto à religião cristã, ela concede boa oportunidade de conhecer Deus, mas ninguém está tirando proveito dessa oportunidade. Por exemplo, a Bíblia contém o mandamento “Não matarás”, mas os cristãos têm construído os melhores matadouros do mundo. Como eles podem se tornar conscientes de Deus se desobedecem aos mandamentos do Senhor Jesus Cristo? E isto está acontecendo não só na religião cristã, mas também em todas as religiões. O título “hindu”, “muçulmano” ou “cristão” é um mero rótulo. Nenhum deles sabe quem é Deus e como amá-lO.
Srta. Nixon: Como podemos diferenciar um mestre espiritual fidedigno de um trapaceiro?
Srila Prabhupada: Quem quer que ensine como conhecer Deus e como amá-lO é um mestre espiritual. Às vezes patifes falsos desencaminham o povo. “Eu sou Deus”, afirmam eles, e as pessoas que não sabem o que é Deus acreditam neles. Você tem que estudar seriamente para entender quem é Deus e como amá-lO. Caso contrário, vai simplesmente perder seu tempo. Então, a diferença entre os outros e nós é que somos o único movimento que pode realmente ensinar como conhecer Deus e como amá-lO. Estamos apresentando a ciência de como uma pessoa pode conhecer Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, praticando os ensinamentos do Bhagavad-gita e do Srimad-Bhagavatam. Esses livros nos ensinam que nosso único dever é amar a Deus. Nossa missão não é pedir nossas provisões a Deus. Deus dá recursos a todos – mesmo a quem não tem religião. Por exemplo, os cães e gatos não têm religião, todavia Krishna lhes fornece os recursos da vida. Por que, então molestaríamos Krishna com pedidos do pão nosso de cada dia? Ele já o está fornecendo. Verdadeira religião significa aprender como amá-lO. O Srimad-Bhagavatam [1.2.6] diz:
sa vai pumsam paro dharma
yato bhaktir adhoksaje
ahaituky apratihata
yayatma suprasidati
A religião de primeira classe ensina-nos como amar a Deus sem nenhum interesse. Se eu sirvo a Deus em troca de algum lucro, isto é comércio – e não amor. O verdadeiro amor a Deus é ahaituky apratihata: não pode ser impedido por nenhuma causa material. É incondicional. Para aquele que quer realmente amar a Deus não há obstáculos. Podemos amá-lO, quer sejamos pobres ou ricos, jovens ou idosos, negros ou brancos.
Srta. Nixon: Todos os caminhos levam ao mesmo fim?
Srila Prabhupada: Não. Há quatro tipos de homens – os karmis, os jnanis, os yogis, e os bhaktas – e cada um deles atinge uma meta diferente. Os karmis trabalham em troca de algum lucro material. Por exemplo, na cidade, muitas pessoas trabalham arduamente dia e noite com o objetivo de obter algum dinheiro. Deste modo, eles são trabalhadores fruitivos, ou karmis. O jnani é a pessoa que pensa: “Por que estou trabalhando tão arduamente? As aves, as abelhas, elefantes e outras criaturas não tem profissão, porém também estão comendo. Por que, então, deveria eu desnecessariamente trabalhar dessa maneira? Deixe-me, antes, tentar resolver os problemas da vida – nascimento, morte, velhice e doença.” Os jnanis tentam tornar-se imortais. Eles pensam que se submergirem na existência de Deus, então tornar-se-ão imunes ao nascimento, morte, velhice e doença. E os yogis tentam adquirir algum poder místico para exibir um show maravilhoso. Por exemplo, um yogi pode tornar-se muito pequeno: se você o coloca em um cômodo fechado, ele pode sair por algum espaço minúsculo. Demonstrando este tipo de mágica, o yogi é imediatamente aceito como um homem muito admirável. Evidentemente, os yogis modernos mostram simplesmente algumas ginásticas – poder mesmo eles não têm. O yogi verdadeiro tem poder, porém este não é espiritual, mas material. De modo que o yogi busca poder místico, o jnani busca salvação das misérias da vida e o karmi busca lucro material. Mas o bhakta – o devoto – não busca nada para si mesmo. Ele apenas quer servir a Deus por amor, assim como a mãe serve ao filho. Está fora de cogitação o lucro no serviço que a mãe presta ao filho. Por pura afeição e amor, é que ela cuida dele.
Quando você chega ao estágio de amor a Deus, você chega à perfeição. Nem o karmi, nem o jnani, nem o yogi podem conhecer a Deus – somente o bhakta. Como Krishna diz no Bhagavad-gita [18.55], bhaktya mam abhijanati: “Somente através do processo de bhakti pode alguém entender Deus.” Krishna nunca diz que alguém pode entendê-lO mediante outros processos. Não. Somente através de bhakti. Se você está interessada em conhecer Deus e amá-lO, então tem que aceitar o processo devocional. Nenhum outro processo vai ajudá-la.
Srta. Nixon: A que transformação temos que nos submeter no caminho...
Srila Prabhupada: Nenhuma transformação – sua consciência original é a consciência de Krishna. Agora sua consciência está coberta com muitas imundícies. Você tem que limpá-la, e surgirá a consciência de Krishna. Nossa consciência é como a água. A água é por natureza clara e transparente, mas às vezes ela se torna lamacenta. Se você filtra toda a lama da água, ela volta outra vez a seu estado original, claro e transparente.
Srta. Nixon: Uma pessoa pode servir melhor à sociedade tornando-se consciente de Krishna?
Srila Prabhupada: Sim, você pode ver que meus discípulos não são beberrões nem comedores de carne, e do ponto de vista filosófico eles são muito limpos – eles nunca serão atacados por doenças sérias. Na verdade, abandonar o comer de carne não é uma questão de consciência de Krishna, mas sim de vida humana civilizada. Deus deu à sociedade humana muitas coisas para comer – boas frutas, legumes, cereais e o leite de primeira classe. Com o leite, pode-se preparar centenas de alimentos nutritivos, mas ninguém conhece essa arte. Ao invés disso, as pessoas mantêm grandes matadouros e comem carne. Elas não são nem sequer civilizadas. Quando o homem é incivilizado, ele mata os pobres animais e os come.
Os homens civilizados conhecem a arte de preparar alimentos nutritivos com o leite. Por exemplo, em nossa fazenda New Vrndavana na Virgínia Ocidental, fazemos centenas de preparações de primeira classe com o leite. Sempre que vêm visitantes, eles ficam admirados de que todos esses alimentos podem ser preparados com o leite. O sangue da vaca é muito nutritivo, mas os homens civilizados utilizam-no sob a forma do leite. O leite nada mais é do que o sangue da vaca transformado. Você pode transformar o leite em muitas coisas – iogurte, coalhada, ghee (manteiga clarificada) e assim por diante – e, combinando esses produtos lácteos com cereais, frutas e vegetais, você pode fazer centenas de preparações. Isto é vida civilizada – não diretamente matar um animal e comer sua carne. A vaca inocente está simplesmente comendo o capim dado por Deus e fornecendo o leite, com o qual você pode manter-se. Você acha que cortar a garganta da vaca e comer sua carne é civilizado?
Srta. Nixon: Não, eu concordo com o senhor cem por cento. Uma coisa que me desperta muita curiosidade: os Vedas podem ser interpretados simbolicamente, bem como literalmente?
Srila Prabhupada: Não. Eles devem ser considerados tais como são, e não simbolicamente. É por isso que estamos apresentando o Bhagavad-gita Como Ele É.
Srta. Nixon: O senhor está tentando reviver o antigo sistema de castas indiano no Ocidente? O Gita menciona o sistema de castas...
Srila Prabhupada: Em que parte do Bhagavad-gita se menciona o sistema de castas? Krishna diz: catur-varnyam maya srstam guna-karma-vibhagasah: “Eu criei quatro divisões de homens de acordo com sua qualidade e trabalho.” [Bg. 4.13] Por exemplo, você pode entender que há engenheiros, como também há médicos na sociedade. Você diz que eles pertencem a diferentes castas – que um é da casta dos engenheiros e o outro é da casta dos médicos? Não. Se um homem se qualifica na escola de medicina, você o aceita como médico; e se outro homem tem um diploma de engenharia, você o aceita como engenheiro. Analogamente, o Bhagavad-gita define quatro classes de homens na sociedade: uma classe de homens altamente inteligentes, uma classe de administradores, uma classe de produtores e os trabalhadores comuns. Essas divisões são naturais. Por exemplo, uma classe de homens é muito inteligente. Mas, para realmente preencherem os requisitos de homens de primeira classe, como se descreve no Bhagavad-gita, eles precisam ser treinados, assim como um rapaz inteligente precisa ser treinado em uma faculdade para tornar-se um médico qualificado. Da mesma forma, no movimento para a consciência de Krishna estamos treinando os homens inteligentes como devem controlar suas mentes, como controlar seus sentidos, como tornar-se verazes, como tornar-se limpos interna e externamente, como tornar-se sábios, como aplicar seu conhecimento na vida prática e como tornar-se conscientes de Deus. Todos esses rapazes [aponta para os discípulos presentes] têm inteligência de primeira classe, e agora nós os estamos treinando em usá-la adequadamente.
Não estamos introduzindo o sistema de castas, em que qualquer patife nascido em família de brahmanas é automaticamente um brahmana. Ele pode ter os hábitos de um homem de quinta classe, mas é aceito como um de primeira classe por causa de seu nascimento em família de brahmanas. Nós não aceitamos isto. Reconhecemos que um homem é de primeira classe se ele é treinado como um brahmana. Não importa que ele seja indiano, europeu ou americano; de nascimento humilde ou de nascimento nobre – isto não importa. Qualquer homem inteligente pode ser treinado na aquisição de hábitos de primeira classe. Queremos refutar a idéia disparatada de que estamos impondo o sistema de castas indiano a nossos discípulos. Estamos simplesmente recrutando homens com inteligência de primeira classe e treinando-os na arte de serem de primeira classe sob todos os aspectos.
Srta. Nixon: O que o senhor pensa sobre a liberação feminina?
Srila Prabhupada: Os ditos direitos de igualdade para as mulheres significam que os homens enganam as mulheres. Suponha que um homem e uma mulher se encontram, tornam-se amantes, fazem sexo, a mulher fica grávida e o homem vai embora. A mulher tem que cuidar do filho e pedir esmolas ao governo, ou então ela mata a criança fazendo aborto. Esta é a independência da mulher. Na Índia, mesmo que uma mulher seja muito pobre, ela se mantém sob os cuidados do esposo, e ele se responsabiliza por ela. Quando ela fica grávida, ela não é forçada a matar a criança ou mantê-la pedindo esmolas. Então, qual é a verdadeira independência – permanecer sob os cuidados do esposo ou ser desfrutada por todos?
Srta. Nixon: E quanto à vida espiritual – as mulheres também podem ter sucesso na consciência de Krishna?
Srila Prabhupada: Não fazemos distinção quanto ao sexo. Damos a consciência de Krishna tanto aos homens quanto às mulheres, igualmente. Damos nossas boas-vindas às mulheres, aos homens, aos pobres, aos ricos – a todos. Krishna diz no Bhagavad-gita [5.18]:
vidya-vinaya-sampane
brahmane gavi hastini
suni caiva svapake ca
panditah sama-darsinah
“O sábio humilde, em virtude do conhecimento verdadeiro, considera em pé de igualdade um brahmana erudito e nobre, uma vaca, um elefante, um cachorro e um comedor de cachorro.”
Srta. Nixon: O senhor poderia explicar o significado do mantra Hare Krishna?
Srila Prabhupada: É muito simples. Hare significa “ó energia do Senhor”, e Krishna significa “ó Senhor Krishna.” Assim como há machos e fêmeas no mundo material, de modo semelhante, Deus é o macho original (purusa), e Sua energia (prakrti) é a fêmea original. Assim, quando cantamos Hare Krishna, estamos dizendo: “Ó Senhor Krishna, ó energia de Krishna, por favor, ocupai-me em Vosso serviço.”
Srta. Nixon: O senhor poderia me falar um pouco sobre sua vida e como o senhor soube que era o mestre espiritual do movimento para a consciência de Krishna?
Srila Prabhupada: Minha vida é simples. Eu era pai de família com esposa e filhos – agora tenho netos – quando meu mestre espiritual mandou que eu viesse aos países ocidentais e pregasse o culto da consciência de Krishna. Então, eu deixei tudo por ordem de meu mestre espiritual, e agora estou tentando executar suas ordens e as ordens de Krishna.
Srta. Nixon: Quantos anos o senhor tinha quando lhe disse que viesse para o Ocidente?
Srila Prabhupada: Em nosso primeiro encontro, ele mandou que eu pregasse a consciência de Krishna no Ocidente. Naquela época eu tinha vinte e cinco anos, era casado e tinha dois filhos. Tentei o melhor que pude executar suas ordens e comecei a publicar a revista De Volta ao Supremo em 1944, quando ainda era casado. Comecei a escrever livros em 1959 após retirar-me da vida familiar, e em 1965 vim para os Estados Unidos.
Srta. Nixon: O senhor disse que não é Deus, e mesmo assim a mim me parece, como uma leiga, que seus devotos o tratam como se o senhor fosse Deus.
Srila Prabhupada: Sim, este é o dever deles. Porque o mestre espiritual está executando a ordem de Deus, ele deve se respeitado tanto quanto Deus, assim como um funcionário do governo deve ser respeitado tanto quanto o governo porque ele executa a ordem do governo. Mesmo um policial comum, você tem que respeitá-lo porque ele é um homem do governo. Sakasad-dharitvena samasta-sastrair/ uktas tatha bhavyata eva sadbhih: “O mestre espiritual deve ser honrado tanto quanto o Senhor Supremo porque ele é o servo mais confidencial do Senhor. Isto é reconhecido em todas as escrituras reveladas e seguido por todas as autoridades.”
Srta. Nixon: Também me pergunto sobre as muitas e belas coisas materiais que os devotos lhe trazem. Por exemplo, o senhor saiu do aeroporto em um belo carro último tipo. Eu me pergunto sobre isso porque...
Srila Prabhupada: Isso ensina os discípulos a como considerar o mestre no mesmo nível que Deus. Se você respeita o representante do governo tanto quanto respeita o governo, então você tem que trata-lo opulentamente. Se você respeita o mestre espiritual tanto quanto Deus, então você tem que lhe oferecer as mesmas facilidades que ofereceria a Deus. Deus viaja em um carro de ouro. Se os discípulos oferecem um carro comum ao mestre espiritual, isto não seria suficiente porque o mestre espiritual tem que ser tratado como Deus. Se Deus viesse a sua casa, você O traria em um carro comum – ou providenciaria um carro de ouro?
Srta. Nixon: Um dos aspectos mais difíceis da consciência de Krishna para um leigo aceitar é a Deidade no templo – como ela representa Krishna. O senhor poderia falar um pouco sobre isso?
Srila Prabhupada: Sim. Atualmente, porque você não está treinada para ver Krishna, Ele bondosamente aparece perante você para que você possa vê-lO. Você pode ver madeira e pedra, mas não pode ver o que é espiritual. Suponha que seu pai está no hospital e morre. Você fica chorando no leito de morte: “Ah! meu pai se foi!” Mas por que você diz que ele se foi? Que coisa é essa de se foi?
Srta. Nixon: Bem, seu espírito foi embora.
Srila Prabhupada: E você viu o espírito?
Srta. Nixon: Não.
Srila Prabhupada: Então você não pode ver o espírito, e Deus é o Espírito Supremo. Na realidade, Ele é tudo – espírito e matéria – mas você não pode vê-lO em Sua identidade espiritual. Por isso, para mostrar bondade para com você, Ele aparece por Sua ilimitada misericórdia sob a forma de uma Deidade de madeira ou de pedra para que você possa vê-lO.
Srta. Nixon: Muito obrigada.
Srila Prabhupada: Hare Krishna!
”Avanço verdadeiro
significa conhecer a Deus”
Os conceitos sobre Deus do homem moderno são muitos e variados. As crianças têm a tendência a imaginar que Deus é um velhinho de barbas brancas. Muitos adultos consideram Deus uma força invisível, ou um conceito mental, ou toda a humanidade, ou o universo, ou mesmo eles mesmos. Nesta palestra, Srila Prabhupada descreve em detalhes o conceito consciência de Krishna – uma visão surpreendentemente íntima de Deus.
Senhoras e senhores, agradeço a todos por estarem gentilmente participando deste movimento para a consciência de Krishna. Quando esta sociedade foi registrada em Nova Iorque no ano de 1966, um amigo sugeriu que eu a chamasse de Sociedade para a Consciência de Deus. Ele achava que o nome Krishna era sectário. O dicionário também diz que Krishna é o nome de um deus hindu. Mas, na verdade, se podemos atribuir algum nome a Deus, este nome é “Krishna”.
Na verdade, Deus não tem um nome particular. Ao dizermos que Ele não tem nome, queremos dizer que ninguém sabe quantos nomes Ele tem. Uma vez que Deus é ilimitado, Seus nomes também têm que ser ilimitados. Portanto, não podemos nos basear em um único nome. Por exemplo, Krishna às vezes é chamado de Yasoda-nandana, o filho de mãe Yasoda; ou Devaki-nandana, o filho de Devaki; ou Vasudeva-nandana, o filho de Vasudeva; ou Nanda-nandana, o filho de Nanda. Às vezes Ele é chamado de Partha-sarathi, indicando que Ele agiu como o quadrigário de Arjuna, o qual às vezes é chamado de Partha, o filho de Prtha.
Deus tem muitos entretenimentos com Seus muitos devotos, e , de acordo com esses entretenimentos, Ele é chamado por determinados nomes. Uma vez que ele tem inumeráveis devotos e inumeráveis relações com eles, Ele também tem nomes inumeráveis. Não podemos considerar apenas um nome. Mas o nome Krishna significa “todo atrativo.” Deus atrai a todos; está é a definição de “Deus.” Temos visto muitos quadros de Krishna, e percebemos que Ele atrai as vacas, os bezerros, as aves, as bestas, as árvores, as plantas e até mesmo a água de Vrndavana. Ele é atrativo para os vaqueirinhos, para as gopis, para Nanda Maharaja, para os Pandavas e para toda a sociedade humana. Por isso, se algum nome particular pode ser dado a Deus, esse nome é “Krishna.”
Parasara Muni, um grande sábio e o pai de Vyasadeva, o qual compilou todas as literaturas védicas, deu a seguinte definição de Deus:
aisvaryasya samagrasya
viryasya yasasah sriyah
jnana-vairagyayos caiva
sannam bhaga itingana
Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, é assim definido por Parasara Muni como aquele que é pleno de seis opulências – que tem toda a força, toda a fama, toda riqueza, todo conhecimento, toda beleza e toda renúncia.
Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, é o proprietário de todas as riquezas. Há muitos homens ricos no mundo, mas ninguém pode afirmar que possui toda a riqueza. Tampouco pode alguém afirmar que ninguém é mais rico que ele. Aprendemos no Srimad-Bhagavatam, entretanto, que quando Krishna esteve presente na Terra Ele teve 16.108 esposas, e cada esposa vivia em um palácio feito de mármore e ornado com jóias. Os cômodos eram cheios de móveis feitos de marfim e ouro, e havia grande opulência em toda a parte. Essas descrições são dadas vividamente no Srimad-Bhagavatam. Na história da sociedade humana, não podemos encontrar ninguém que tivesse dezesseis mil esposas ou dezesseis mil palácios. Tampouco Krishna passava um dia com uma esposa e outro dia com outra. Não, Ele estava pessoalmente presente em todos os palácios ao mesmo tempo. Isso significa que Ele Se expandiu em 16.108 formas. Isso é impossível para um homem comum, mas não é muito difícil para Deus. Se Deus é ilimitado, Ele pode Se expandir em formas ilimitadas, senão o termo “ilimitado” não teria sentido. Deus é onipotente; Ele pode manter não somente dezesseis mil esposas, mas também dezesseis milhões e mesmo assim não encontrar dificuldade em manter toda a manifestação cósmica, senão o termo “onipotente” não teria sentido. Quão belo Ele deve ser – Ele que criou toda a beleza.
Todos esses aspectos são atrativos. Concordamos que, neste mundo material, se um homem é muito rico, ele é atrativo. Na América, por exemplo, Rockfeller e Ford são muito atrativos por causa de suas riquezas. Eles são atrativos apesar de não possuírem toda a riqueza do mundo. Quão mais atrativo, então, é Deus, que possui todas as riquezas.
De modo semelhante, Krishna tem força ilimitada. Sua força se manifestou desde o momento de Seu nascimento. Quando Krishna tinha apenas três meses de idade, a demônia Putana tentou matá-lO, mas, em vez disso, ela foi morta por Krishna. Isso é Deus é Deus desde o começo. Ele não Se torna Deus mediante alguma meditação ou poder místico. Krishna não é esse tipo de Deus. Krishna foi Deus desde o próprio começo de Seu aparecimento.
Krishna também tem fama ilimitada. Evidentemente, nós somos devotos de Krishna e O conhecemos e O glorificamos, mas, além de nós, muitos milhões de pessoas no mundo conhecem a fama do Bhagavad-gita. Em todos países em todo o mundo o Bhagavad-gita é lido por filósofos, psicólogos e religiosos. Nós também estamos encontrando um bom mercado para o nosso Bhagavad-gita Como Ele É. Isto porque a mercadoria é ouro puro. Há muitas edições do Bhagavad-gita, mas elas não são puras. A nossa está vendendo mais porque estamos apresentando o Bhagavad-gita como ele é. A fama do Bhagavad-gita é a fama de Krishna.
Beleza, outra opulência – Krishna a possui ilimitadamente. O próprio Krishna é muito bonito, assim como todos os Seus companheiros. Aqueles que foram piedosos em uma vida anterior recebem uma oportunidade neste mundo material de nascerem em boas famílias e boas nações. O povo americano é muito rico e belo, e essas opulências são resultados de atividades piedosas. Em todo o mundo as pessoas são atraídas pelos americanos porque eles são avançados em conhecimento científico, riquezas, beleza e assim por diante. Este planeta é um planeta insignificante dentro do universo, porém, dentro deste planeta, um país – Estados Unidos – tem muitos aspectos atrativos. Podemos apenas imaginar, então, quantos aspectos atrativos deve possuir Deus, que é o criador de tudo que existe.
Uma pessoa é atrativa não apenas por causa de sua beleza, mas também por causa de seu conhecimento. Um cientista ou filósofo podem ser atrativos por causa de seu conhecimento, mas que conhecimento é mais sublime que aquele dado por Krishna no Bhagavad-gita? Não há comparação no mundo material para tal conhecimento. Ao mesmo tempo, Krishna possui total renúncia (vairagya). Muitas coisas funcionam sob a direção de Krishna neste mundo material, mas na verdade Krishna não está presente aqui. Uma grande fábrica pode continuar funcionando, mesmo que seu proprietário não esteja presente. Analogamente, as potências de Krishna continuam funcionando sob a direção de Seus assistentes, os semideuses. Deste modo, o próprio Krishna está à parte do mundo material. Tudo isto é descrito nas escrituras reveladas.
Deus, portanto, tem muitos nomes de acordo com Suas atividades, mas, porque Ele possui tantas opulências e porque com essas opulências Ele atrai a todos, Ele é chamado de Krishna. A literatura védica afirma que Deus tem muitos nomes, mas “Krishna” é o nome principal.
O objetivo deste movimento para a consciência de Krishna é propagar o nome de Deus, as glórias de Deus. Há muitas coisas dentro deste mundo material, e todas elas estão dentro de Krishna. O aspecto mais proeminente deste mundo material é o sexo, e o sexo também está presente em Krishna. Nós adoramos Radha e Krishna, e existe atração entre eles, mas a atração material e a atração espiritual não são a mesma coisa. Em Krishna, o sexo é real, mas aqui no mundo material o sexo é irreal. Tudo com que lidamos aqui está presente no mundo espiritual, mas aqui nada tem de valor real. Tudo é apenas um reflexo. Nas vitrinas vemos muitos manequins, mas ninguém liga para eles porque sabe que eles são falsos. Pode ser que um manequim seja muito belo, mas ainda assim é falso. Quando as pessoas vêem uma mulher bonita, entretanto, elas se sentem atraídas porque pensam que ela é real. Na verdade, os ditos vivos também estão mortos porque este corpo não passa de um pedaço de matéria; assim que a alma deixar o corpo, ninguém vai se interessar em ver o assim chamado belo corpo da mulher. O fator real, a verdadeira força de atração, é a alma espiritual.
No mundo material tudo é feito de matéria morta; portanto, não passa de mera imitação. A realidade das coisas existe no mundo espiritual. Aqueles que têm lido o Bhagavad-gita podem entender como é o mundo espiritual, pois ali se descreve:
paras tasmat tu bhavo’ nyo
vyakto’ vyaktat sanatanah
yah sa sarvesu bhutesu
nasyatsu na vinasyati
“Contudo, existe outra natureza, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e imanifesta. Ela é suprema e nunca é aniquilada. Quando tudo neste mundo é aniquilado, aquela parte permanece tal como é.” [Bhagavad-gita 8.20]
Os cientistas estão tentando calcular as dimensões deste mundo material, mas eles nem conseguem começar. Eles levariam milhares de anos simplesmente para viajar até a estrela mais próxima. E o que dizer do mundo espiritual? Uma vez que não podemos conhecer o mundo material, como poderemos conhecer o que está além dele? A idéia é que devemos tomar conhecimento dessas coisas através de fontes autorizadas.
A fonte mais autorizada é Krishna, pois Ele é o reservatório de todo o conhecimento. Ninguém é mais sábio ou mais erudito que Krishna. Krishna nos informa que além deste mundo material está o céu espiritual, que é cheio de inumeráveis planetas. Esse céu é muitíssimo maior do que o espaço material, que constitui apenas uma quarta parte de toda a criação. De modo semelhante, as entidades vivas dentro do mundo material são apenas uma pequena porção das entidades vivas em toda a criação. Este mundo material é comparado a uma prisão, e, assim como os prisioneiros representam apenas uma pequena percentagem da população total, da mesma forma as entidades vivas dentro do mundo material constituem apenas uma porção fragmentária de todas as entidades vivas.
Aqueles que se revoltaram contra Deus – que são criminosos – são colocados neste mundo material. Às vezes os criminosos dizem que não se importam com o governo, mas, não obstante, eles são presos e castigados. Analogamente, as entidades vivas que declaram sua desobediência a Deus são colocadas no mundo material.
Originalmente, todas as entidades vivas são partes integrantes de Deus e se relacionam com Ele assim como os filhos se relacionam com o pai. Os cristãos também consideram Deus como o pai supremo. Os cristãos vão á igreja e rezam: “Pai nosso que estais no céu.” O conceito de Deus como pai também se encontra no Bhagavad-gita [14.4]
sarva-yonisu kaunteya
murtayah sambhavanti yah
tasam brahma mahad yonir
aham bija-pradah pita
“Deve-se entender que todas as espécies de vida, ó filho de Kunti, são possibilitadas pelo nascimento nesta natureza material, e que Eu sou o pai que dá a semente.”
Existem 8.400.000 espécies de vida – incluindo os seres aquáticos, as plantas, as aves, as bestas, os insetos e os seres humanos. Das espécies humanas, a maior parte são incivilizadas, e das poucas espécies civilizadas apenas um pequeno número de seres humanos adota a vida religiosa. Dentre muitos ditos religiosos, a maior parte identificam-se por designações, afirmando: “eu sou hindu”, “eu sou muçulmano”, “eu sou cristão” e assim por diante. Alguns dedicam-se à filantropia, outros dão caridade aos pobres e abrem escolas e hospitais. Este processo altruísta chama-se karma-kanda. Dentre milhões desses karma-kandis, pode ser que haja um jnani (“aquele que conhece”). Dentre milhões de jnanis, pode ser que um seja liberado, e dentre bilhões de almas liberadas, pode ser que uma seja capaz de entender Krishna. Esta é, então, a posição de Krishna. Como o próprio Krishna diz no Bhagavad-gita [7.3]:
manusyanam sahasresu
kascid yatati siddhaye
yatatam api siddhanam
kascin mam vetti tattvatah
“Dentre muitos milhares de homens, pode ser que um se esforce por alcançar a perfeição, e daqueles que alcançam a perfeição, dificilmente um Me conhece realmente.”
De maneira que entender Krishna é muito difícil. Mas embora o entendimento de Deus seja um assunto difícil, Deus se revela no Bhagavad-gita. Ele diz: “Eu sou isso e Eu sou aquilo. A natureza material é desse jeito e a natureza espiritual é daquele jeito. As entidades vivas são assim e a Alma suprema é assim.” Desta maneira, tudo é completamente descrito no Bhagavad-gita. Embora entender Deus seja muito difícil, isto não é difícil quando o próprio Deus nos dá o Seu próprio conhecimento. Na realidade, este é o único processo pelo qual podemos entender Deus. Entendermos Deus através de nossa própria especulação não é possível, pois Deus é ilimitado, e nós somos limitados. Se tanto o nosso conhecimento quanto nossa percepção são muito limitados, como poderemos entender o ilimitado ? Se simplesmente aceitarmos a versão do ilimitado, poderemos chegar a entendê-lO. Esse entendimento é a nossa perfeição.
O conhecimento especulativo de Deus não nos levará a arte alguma. Se um menino quer saber quem é o seu pai, o processo simples é perguntar a sua mãe. A mãe então dirá: “Este é seu pai.” Essa é a forma de adquirir conhecimento perfeito. Evidentemente, uma pessoa poderá especular sobre quem é seu pai, investigando se é este homem ou aquele homem, ou poderá errar por toda a cidade, perguntando: “O senhor é meu pai? O senhor é meu pai?” O conhecimento obtido através de tal processo, entretanto, permanecerá sempre imperfeito. Uma pessoa nunca encontrará seu pai dessa maneira. O processo simples é aceitar o conhecimento de uma autoridade – neste caso, a mãe. Ela simplesmente dirá: “Meu caro filho, eis aqui o seu pai.” Deste modo nosso conhecimento é perfeito. O conhecimento transcendental é semelhante. Há alguns momentos eu falava de um mundo espiritual. Este mundo espiritual não está sujeito a nossa especulação. Deus diz: “Há um mundo espiritual, e lá é minha sede.” Dessa maneira, recebemos conhecimento de Krishna, a melhor autoridade. Talvez não sejamos perfeitos, mas nosso conhecimento é perfeito porque é recebido da fonte perfeita.
O movimento para a consciência de Krishna destina-se a dar conhecimento perfeito à sociedade humana. Através desse conhecimento, podemos entender quem nós somos, quem é Deus, o que é o mundo material, por que viemos parar aqui, por que temos de nos submeter a tanta tribulação e miséria e por que temos de morrer. Evidentemente, ninguém quer morrer, mas a morte virá. Ninguém quer envelhecer, mas mesmo assim a velhice vem. Ninguém quer padecer de doenças, mas com toda a certeza a doença vem. Estes são os verdadeiros problemas da vida humana, e ainda estão para ser resolvidos. A civilização tenta aprimorar o comer, o dormir, o acasalar-se e o defender-se, mas esses não são os verdadeiros problemas. O homem dorme, mas o cão também dorme. O homem não é mais avançado simplesmente porque tem um bom apartamento. Em ambos os casos, a função é a mesma – dormir. O homem tem descoberto armas atômicas para a defesa, mas o cão também tem dentes e patas e também pode se defender. Em ambos os casos, há a defesa. O homem não pode dizer que, por ele ter a bomba atômica, ele poderá conquistar o mundo inteiro ou o universo inteiro. Isso não é possível. Pode ser que o homem possua um método elaborado para defesa, ou um requintado método para comer, dormir e acasalar-se, mas isso não o faz avançado. Podemos chamar seu avanço de animalismo polido, e isso é tudo.
Verdadeiro avanço significa conhecer a Deus. Se não temos conhecimento de Deus, não somos realmente avançados. Muitos patifes negam a existência de Deus, porque, não havendo Deus, eles podem continuar suas atividades pecaminosas. Talvez para eles seja muito bom pensar que Deus não existe, mas Deus não morrerá simplesmente porque o negamos. Deus existe, e Sua administração existe. Por Suas ordens, o sol está nascendo, a lua está nascendo, a água corre e o oceano mantém-se fiel a maré. Assim tudo funciona sob Sua ordem. Uma vez que tudo está acontecendo tão harmoniosamente, como pode alguém objetivamente pensar que Deus está morto? Quando há má administração, podemos dizer que não há governo, mas, sob uma boa administração, como poderemos dizer que não há governo? Apenas porque as pessoas não conhecem a Deus, elas dizem que Deus está morto, que Deus não existe, ou que Deus não tem forma. Mas nós estamos firmemente convencidos de que Deus existe e que Krishna é Deus. Por isso, O adoramos. Este é o processo da consciência de Krishna. Tentem entende-lo. Muito obrigado.
Reencarnação e além
Em agosto de 1976, Srila Prabhupada passou algumas semanas na Bhaktivedanta Manor, vinte quilômetros ao norte de Londres. Durante essa época, Mike Robinson, da London Broadcasting Company, entrevistou-o em seus aposentos. Em sua conversa, que foi difundida na Inglaterra algum tempo depois, Srila Prabhupada revelou que a consciência de Krishna “não é uma cerimônia ritualística de ‘eu creio, você crê,’” mas um sistema filosófico profundo em que a ciência da reencarnação é explicada nítida e conscientemente.
mike Robinson: O senhor pode me dizer qual é sua crença – qual vem a ser a filosofia do movimento Hare Krishna?
Srila Prabhupada: Sim. A consciência de Krishna não é uma questão de crença; é uma ciência. Em primeiro lugar, devemos saber qual é a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Qual é a diferença? A diferença é que quando alguém morre, a alma espiritual, ou força viva, abandona o corpo. Aí, portanto, o corpo é considerado “morto.” Logo, há duas coisas; uma: este corpo; e a outra: a força viva dentro do corpo. Referimo-nos à força viva que existe dentro do corpo. Esta é a diferença entre a ciência da consciência de Krishna, que é espiritual, e a ciência material comum. Como tal, no começo é muito, muito difícil que um homem comum aprecie nosso movimento. A pessoa deve compreender primeiro que é uma alma, ou algo diferente do corpo.
mike Robinson: E quando compreenderemos isto?
Srila Prabhupada: Você pode compreender dum momento para outro, mas isto requer um pouco de inteligência. À medida que uma criança cresce, por exemplo, ela se torna um adolescente, o adolescente se torna moço, o moço se torna adulto e o adulto envelhece. Por todo esse tempo, apesar de seu corpo ter passado por transformações, desde a infância até a velhice, você ainda sente que é o mesmo, com a mesma identidade. Veja bem: o corpo está mudando, mas o ocupante do corpo, a alma, permanece a mesma. Portanto, devemos concluir logicamente que quando nosso presente corpo morre, obtemos outro corpo. Isto se chama transmigração da alma.
mike Robinson: Então quando se morre é apenas o corpo físico que morre?
Srila Prabhupada: Sim. Isto está explicado de forma bastante elaborada no Bhagavad-gita [2.20]: na jayate mriyate va kadacin, na hanyate hanyamane sarire
mike Robinson: Vocês citam textos com freqüência?
Srila Prabhupada: Sim, citamos muitos textos. A consciência de Krishna é uma educação séria, não é uma religião comum. [Para um devoto:] Encontre este verso no Bhagavad-gita.
Discípulo:
na jayate mriyate va kadacin
nayam bhutva bhavita va na bhuyah
ajo nityah sasvato ‘yam purano
na hanyate hanyamane sarire
“Para a alma, nunca há nascimento nem morte, nem, uma vez que exista, ela vai deixar de existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente, imortal e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.”
mike Robinson: Muito obrigado por tê-lo lido. Agora, o senhor pode me explicar um pouco mais? Se a alma é imperecível, isto quer dizer que a alma de todos nós irá ter com Deus após a morte ?
Srila Prabhupada: Não necessariamente. Se a pessoa é qualificada – se ela se prepara nesta vida para voltar ao lar, voltar ao Supremo – então ela pode ir. Se ela não se prepara, então obtém outro corpo material. E existem 8.400.000 formas corpóreas diferentes. De acordo com os desejos e o karma da pessoa, as leis da natureza dão-lhe um corpo apropriado. Tome a analogia de um homem que contrai uma doença e esta nele se desenvolve. É difícil compreender isto?
mike Robinson: Isso tudo é muito difícil de compreender.
Srila Prabhupada: Suponha que alguém tenha contraído varíola. Assim, após sete dias ele desenvolve os sintomas da doença. Como se chama este período de sete dias?
mike Robinson: Incubação?
Srila Prabhupada: Incubação. Portanto você não pode evitar este período. Se você contraiu uma doença, ela se desenvolverá com a sansão da lei da natureza. De maneira semelhante, durante esta vida você se associa com vários modos da natureza material, e esta associação determinará que tipo de corpo você obterá na próxima vida. Isto está estritamente sob o controle das leis da natureza. Todos são controlados pelas leis da natureza – todos são completamente dependentes – mas por ignorância as pessoas pensam que são livres. Elas não são livres; estão apenas imaginando que são livres, visto que estão completamente sob o controle das leis da natureza. Portanto, seu próximo nascimento será determinado de acordo com suas atividades – pecaminosas ou piedosas, conforme o caso.
mike Robinson: Sua graça, o senhor poderia explicar isto de novo? O senhor disse que ninguém é livre. O senhor quer dizer que se vivemos uma vida virtuosa, determinamos de algum modo um bom futuro para nós mesmos?
Srila Prabhupada: Sim.
mike Robinson: Então temos liberdade para escolher o que cremos seja importante? A religião é importante, porque se acreditarmos em Deus e vivermos honestamente...
Srila Prabhupada: Não é uma questão de crença. Não levante esta questão de crença. Isto é lei. Considere, por exemplo, um governo. Você pode acreditar ou não, porém se você transgredir a lei, será punido pelo governo. Semelhantemente, existe um Deus, quer você creia, quer não. Se você não crê em Deus, e independentemente faz o que bem entende, então você será punido pelas leis da natureza.
mike Robinson: Compreendo. A Religião em que se crê faz alguma diferença? Faria alguma diferença se a pessoa fosse um devoto de Krishna?
Srila Prabhupada: Não é uma questão de religião. É uma questão de ciência. Embora você seja um ser espiritual, você está condicionado materialmente; por isso, você está sob o controle das leis da natureza material. Assim, pode ser que você creia na religião cristã e que eu creia na religião hindu, mas isso não quer dizer que você vai envelhecer e eu não. Referimo-nos à ciência do envelhecer. Esta é uma lei natural. Não é que pelo fato de ser cristão você está envelhecendo, ou que pelo fato de ser hindu eu não estou. Todos estão envelhecendo. Por conseguinte, de modo semelhante, todas as leis da natureza aplicam-se a todos. Quer você creia nesta religião, quer naquela, isto não faz diferença.
mike Robinson: Então, o senhor diz que só há um Deus controlando todos nós?
Srila Prabhupada: Há um Deus e uma lei da natureza, e estamos todos sob o controle desta lei da natureza. Somos controlados pelo Supremo. Portanto, se pensamos que estamos livres ou que podemos fazer o que quisermos, é tolice nossa.
mike Robinson: Compreendo. O senhor pode me explicar que diferença há em ser um membro do movimento Hare Krishna?
Srila Prabhupada: O movimento Hare Krishna destina-se àqueles que levam a sério a compreensão desta ciência. Nosso grupo não é de forma alguma sectário. Não. Qualquer pessoa pode tornar-se membro do movimento Hare Krishna. Os estudantes universitários, por exemplo, também podem ser aceitos como membros. Não importa que você seja um cristão, um hindu ou um muçulmano. O movimento para a consciência de Krishna admite qualquer pessoa que queira compreender a ciência de Deus.
mike Robinson: E que diferença faria para uma pessoa que aprendesse a ser uma pessoa Hare Krishna?
Srila Prabhupada: Sua educação verdadeira começaria. Antes de mais nada, devemos compreender que somos almas espirituais. E como somos almas espirituais, estamos mudando de corpo. Este é o bê-a-bá da compreensão espiritual. Portanto, quando o seu corpo está liquidado, aniquilado, você não está liquidado. Você obtém outro corpo, do mesmo modo como pode trocar de paletó ou de camisa. Se amanhã você vier me ver usando uma camisa e um paletó diferentes, acaso isso significa que você é uma pessoa diferente? Não. Semelhantemente, você muda de corpo cada vez que morre; mas você, a alma espiritual situada dentro do corpo, permanece o mesmo. É preciso compreender este ponto para que então se possa progredir mais na ciência da consciência de Krishna.
mike Robinson: Sim, acho que agora compreendi. Se pudermos prosseguir daí – o senhor dizia que o modo como vivemos faz uma diferença na nossa vida após a morte, que há leis naturais que determinam nossa próxima vida. Como funciona o processo de transmigração?
Srila Prabhupada: O processo é muito sutil. A alma espiritual é invisível aos nossos olhos materiais. Ela é atômica em tamanho. Depois da destruição do corpo grosseiro (que se constitui dos sentidos, de sangue, de ossos, de gordura e assim por diante), o corpo sutil, que consiste na mente, na inteligência e no ego, continua funcionando. Assim, no momento da morte este corpo sutil leva a pequena alma espiritual para outro corpo grosseiro. Este processo é semelhante ao processo do ar conduzindo a fragrância de uma rosa. Ninguém pode ver de onde vem esta fragrância, mas sabemos que ela está sendo levada pelo ar. Embora não se possa ver, isto acontece. De modo semelhante, o processo de transmigração da alma é muito sutil. De acordo com a condição da mente no momento da morte, a alma espiritual entra no ventre de uma determinada mãe através do sêmen de um pai, e daí a alma desenvolve um tipo de corpo particular dado pela mãe, que pode ser um corpo de ser humano, de gato, de cachorro ou qualquer coisa.
mike Robinson: O senhor quer dizer então que antes desta vida nós já fomos outra coisa?
Srila Prabhupada: Sim.
mike Robinson: Então nós continuamos voltando como outra coisa nas próximas vezes?
Srila Prabhupada: Sim, porque você é eterno. Você está simplesmente trocando de corpo de acordo com seu trabalho. Portanto, você precisa saber como parar com isso, como pode se manifestar em seu corpo espiritual original. Consciência de Krishna é isto.
mike Robinson: Compreendo. Portanto se eu me tornasse consciente de Krishna, não correria o risco de voltar como um cachorro?
Srila Prabhupada: Não. [Para um devoto:] Encontre este verso: janma karma ca me divyam...
Discípulo:
Janma karma ca me divyam
evam yo vetti tattvatah
tyaktva deham punar janma
naiti mam eti so ‘juna
“Ó Arjuna, aquele que conhece a natureza transcendental de Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo, não nasce outra vez neste mundo material, mas alcança Minha morada eterna.” [Bg. 4.9]
Srila Prabhupada: Deus está dizendo: “Qualquer pessoa que Me compreenda está livre do nascimento e da morte.” Porém, não se pode compreender Deus por intermédio da especulação materialista. Isto não é possível. Em primeiro lugar, deve-se chegar à plataforma espiritual. Daí obtém-se a inteligência necessária para se compreender Deus. E quando compreendemos Deus, já não obtemos corpos materiais: voltamos ao lar, voltamos ao Supremo. Vivemos eternamente; já não precisamos mais trocar de corpo.
mike Robinson: Compreendo. Agora, outra coisa que eu gostaria de saber. O senhor já citou duas passagens de suas escrituras. De onde vêm essas escrituras? O senhor pode explicar isto brevemente?
Srila Prabhupada: Nossas escrituras vêm da literatura védica, que tem existido desde o começo da criação. Sempre que há alguma nova criação material – como, por exemplo, este microfone – há também uma literatura para explicar como lidar com ela. Não é assim?
mike Robinson: Sim, realmente.
Srila Prabhupada: E esta literatura aparece com a criação do microfone.
mike Robinson: É isso mesmo.
Srila Prabhupada: Assim, semelhantemente, a literatura védica aparece com a criação cósmica, para explicar como lidar com ela.
mike Robinson: Compreendo. Portanto, essas escrituras têm existido desde o começo da criação. Agora, eu gostaria de mudar o assunto para algo a respeito do quê, segundo creio, o senhor tem firmes convicções. Qual é a principal diferença entre a consciência de Krishna e as outras disciplinas orientais que ensinam no Ocidente?
Srila Prabhupada: A diferença é que nós seguimos a literatura original, ao passo que eles manufaturam sua própria literatura. Esta é a diferença. Quando se trata de assuntos espirituais, temos que consultar a literatura original, e não uma literatura qualquer, publicada por um falsificador.
mike Robinson: E Quanto ao cantar de Hare Krishna, Hare Krishna...?
Srila Prabhupada: Cantar Hare Krishna é o processo mais fácil para uma pessoa se purificar, especialmente nesta era, em que as pessoas são tão estúpidas que não são capazes de compreender o conhecimento espiritual com facilidade. Se uma pessoa canta Hare Krishna, sua inteligência se purifica, e então ela pode compreender as coisas do espírito.
mike Robinson: O senhor poderia me dizer como vocês se orientam no que fazem?
Srila Prabhupada: Nós nos orientamos pela literatura védica.
mike Robinson: Pelas escrituras que o senhor citou?
Srila Prabhupada: Sim, tudo está na literatura. Nós a estamos explicando em inglês e em outras línguas também. Mas não estamos manufaturando nada. Se tivéssemos que manufaturar conhecimento, então estaria tudo arruinado. A literatura védica é assim como a literatura que explica como instalar este microfone. Ela diz: “Faça assim: coloque alguns dos parafusos deste lado, em torno do metal.” Você não pode alterar nada porque senão estraga tudo. Semelhantemente, como não estamos manufaturando nada, é preciso simplesmente que se leia um de nossos livros para se receber o verdadeiro conhecimento espiritual.
mike Robinson: Como pode a filosofia da consciência de Krishna influir na maneira de viver das pessoas?
Srila Prabhupada: Ela pode aliviar o sofrimento das pessoas. As pessoas sofrem porque estão equivocadas pensando que são o corpo. Se você pensasse que é seu paletó e sua camisa e lavasse o paletó e a camisa com cuidado, mas se esquecesse de comer, você seria feliz?
mike Robinson: Não, não seria.
Srila Prabhupada: De modo semelhante, todos estão simplesmente lavando o “paletó e a camisa” do corpo e se esquecendo da alma que se encontra dentro do corpo. Eles não tem informação acerca do que há dentro do “paletó e a camisa” do corpo. Pergunte a qualquer pessoa o que ela é, e ela dirá: “eu sou inglês”, ou “eu sou indiano.” E se dissermos: “posso perceber que você possui um corpo inglês ou um corpo indiano, mas o que é você? – isso ela não será capaz de dizer.
mike Robinson: Compreendo.
Srila Prabhupada: Toda a civilização moderna funciona sob o equívoco de que o corpo é o eu (dehatma-buddhi). Esta é a mentalidade dos gatos e cachorros. Suponha que eu estou tentando entrar na Inglaterra e você me faz parar na fronteira: “eu sou inglês,” diz você, “mas você é um indiano. O que você veio fazer aqui?” E o cachorro por sua vez, late: “au au, o que você está fazendo aqui?” Portanto, qual é a diferença na mentalidade? O cachorro está pensando que é um cachorro e que eu sou um estranho, ao passo que você está pensando que é inglês e que eu sou um indiano. Na mentalidade não há diferença. Portanto, se você deixa que as pessoas fiquem na escuridão de uma mentalidade de cachorro e declara que está avançando na civilização, você está mal orientado.
mike Robinson: Agora, passando para outro assunto, deduzo que o movimento Hare Krishna mostra algum interesse nas áreas do mundo onde há sofrimento.
Srila Prabhupada: Sim, nós somos os únicos interessados. Outras pessoas estão simplesmente evitando os problemas principais: nascimento, velhice, doença e morte. Os outros não encontram soluções para estes problemas; estão simplesmente falando disparates de toda a espécie. Estão desencaminhando as pessoas. Elas mesmas estão se mantendo na escuridão. Mas nós devemos começar a dar-lhes alguma luz.
mike Robinson: Sim, mas além de dar iluminação espiritual, vocês também estão interessados no bem-estar físico das pessoas?
Srila Prabhupada: O bem-estar físico acompanha automaticamente o bem-estar espiritual.
mike Robinson: E como é que isso funciona?
Srila Prabhupada: Suponha que você possui um carro. Assim, você naturalmente cuida do carro como também de si mesmo. Mas você não se identifica com o carro. Você não diz: “eu sou este carro.” Isto é absurdo. Mas isto é o que as pessoas estão fazendo. Elas estão cuidando demasiadamente do “carro” corpóreo, pensando que o “carro” é o eu. Elas se esquecem de que são diferentes do “carro”, de que são almas espirituais e têm uma função diferente. Assim como ninguém pode ficar satisfeito bebendo gasolina, do mesmo modo ninguém pode ficar satisfeito com atividades corpóreas. É preciso descobrir o alimento adequado para a alma. Se uma pessoa pensa: “eu sou um carro e preciso beber esta gasolina”, ela é considerada insana. Semelhantemente, uma pessoa que julga ser este corpo e tenta ser feliz com prazeres corpóreos, também é insana.
mike Robinson: Há uma citação aqui a respeito da qual eu gostaria que o senhor comentasse. Alguém de seu movimento deu-me este folheto antes de nosso encontro, e uma das coisas que o senhor diz aqui é que: “A religião não passa de sentimentalismo se não tem base racional.” O senhor poderia me explicar isso?
Srila Prabhupada: A maioria das pessoas religiosas dizem: “Nós cremos...” Mas qual é o valor dessa crença? Pode ser que você creia em algo que não seja realmente correto. Alguns cristãos, por exemplo, dizem: “Nós cremos que os animais não têm alma.” Isto não é correto. Eles crêem que os animais não têm alma porque querem comer os animais, mas na realidade os animais têm alma.
mike Robinson: Como o senhor sabe que o animal tem uma alma?
Srila Prabhupada: Você também pode saber. Aqui está a prova científica: o animal come, você come; o animal dorme, você dorme; o animal faz sexo, você faz sexo; o animal se defende, você também se defende. Então qual é a diferença entre você e o animal? Como você pode dizer que tem uma alma e que o animal não tem?
mike Robinson: Posso compreender isso perfeitamente. Mas as escrituras cristãs dizem...
Srila Prabhupada: Não venha com escrituras; este é um tópico de senso comum. Tente compreender. O animal come, você come; o animal dorme, você dorme; o animal se defende, você se defende; o animal faz sexo, você faz sexo; os animais têm filhos, você tem filhos; eles têm um lugar para viver, você têm um lugar para viver. Quando o corpo do animal se fere, sai sangue. Assim, encontramos todas estas semelhanças. Agora, por que você só nega esta semelhança para a presença da alma? Isto não é lógico. Você já estudou lógica? Em lógica há uma coisa chamada analogia. Analogia significa tirar uma conclusão a partir da descoberta de muitos pontos em comum. Se há tantos pontos em comum entre os seres humanos e os animais, por que negar outra semelhança? Isto não é lógica. Isto não é ciência.
mike Robinson: Mas se o senhor prega este argumento e o usa de outro modo...
Srila Prabhupada: Não há outro modo. Se você não argumenta baseando-se na lógica, você não está sendo racional.
mike Robinson: Sim, está certo, mas vamos partir de uma outra hipótese. Suponhamos que a presunção de que o ser humano não tem alma...
Srila Prabhupada: Então você tem que explicar qual é a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Eu já expliquei isto no início. Logo que a força viva, a alma, vai-se embora do corpo, até mesmo o mais belo corpo perde seu valor. Ele é jogado fora e ninguém liga para ele. Mas se eu puxar seu cabelo agora, você vai querer brigar comigo. Esta é a distinção entre um corpo vivo e um corpo morto. No corpo vivo existe a alma, mas no corpo morto não. Logo que a alma deixa o corpo, o corpo perde seu valor, perde sua utilidade. È muito simples compreender isto, mas até mesmo os maiores dentre os assim chamados cientistas e filósofos são demasiado estúpidos para compreender isso. A sociedade moderna está numa situação muito abominável. Não há ninguém que seja realmente inteligente.
mike Robinson: O senhor está se referindo a todos os cientistas que não conseguem perceber a dimensão espiritual da vida?
Srila Prabhupada: Sim. Ciência verdadeira significa conhecimento de todas as coisas materiais e espirituais.
mike Robinson: Mas o senhor foi um químico na vida civil, não foi?
Srila Prabhupada: Sim, anteriormente fui um químico, mas não é preciso ter muita inteligência para se tornar um químico. Qualquer homem de bom senso pode fazê-lo.
mike Robinson: Mas presumivelmente o senhor acha que a ciência material também é importante, mesmo que os cientistas de hoje sejam estúpidos?
Srila Prabhupada: A ciência material só é importante até certo ponto. Não é sumamente importante.
mike Robinson: Compreendo. Permita-me voltar a uma pergunta que eu tinha feito antes. Quando estávamos discordando há alguns minutos atrás, o senhor dizia: “Não venha com escrituras; este é um tópico comum.” Mas que papel representam as escrituras em sua religião? Quão importantes são elas?
Srila Prabhupada: Nossa religião é uma ciência. Quando dizemos que uma criança cresce, transformando-se em adolescente, isso é ciência. Não é religião. Toda criança cresce, transformando-se em adolescente. Onde entra a questão da religião ai? Todo homem morre. Onde entra a questão da religião ai? E quando um homem morre, o corpo torna-se inútil. Onde entra a questão da religião aí? Isso é ciência. Quer você seja cristão, hindu ou muçulmano, quando você morre seu corpo torna-se inútil. Isto é ciência. Quando seu parente morrer, você não poderá dizer: “Nós somos cristãos; cremos que ele não morreu.” Não, ele morreu. Quer seja ele cristão, hindu ou muçulmano, ele morreu. Então quando falamos, falamos baseando-nos neste princípio: que o corpo só é importante enquanto a alma está no corpo. Quando a alma não está presente no corpo, este é inútil. Esta ciência é aplicável a todos, e nós estamos tentando educar as pessoas baseados nisto.
mike Robinson: Mas se eu o compreendo corretamente, parece que o senhor está educando as pessoas baseado em princípios puramente científicos. Onde entra a religião nisso tudo?
Srila Prabhupada: Religião também significa ciência. As pessoas erroneamente consideram que religião significa fé – “eu creio.” [voltando-se para um devoto:] Procure a palavra religião no dicionário.
Discípulo: Em religião o dicionário diz: “reconhecimento de controle ou poder sobre humano, e especialmente de um Deus pessoal que tem direito à obediência, e efetuando tal reconhecimento com a atitude mental correta.”
Srila Prabhupada: Sim. Religião significa aprender a como obedecer ao controlador supremo. Assim, você pode ser cristão e eu hindu; isso não importa. Tanto eu quanto você temos que aceitar que há um controlador supremo. Todos têm que aceitar isso; isto é religião verdadeira. E não isto: “Nós cremos que os animais não têm alma.” Isso não é religião. Isso é totalmente acientífico. Religião significa compreensão científica do controlador supremo: compreender o controlador supremo e obedecê-lO – isso é tudo. No estado, o bom cidadão é aquele que compreende o governo e obedece às leis do governo, e o mau cidadão é aquele que não liga para o governo. Então, se você se torna um mau cidadão por ignorar o governo de Deus, você é irreligioso. E se você é um bom cidadão, você é religioso.
mike Robinson: Compreendo. O senhor pode me dizer qual o senhor crê que seja o sentido da vida? Em primeiro lugar, por que existimos?
Srila Prabhupada: O sentido da vida é gozar. Porém, atualmente você está numa plataforma falsa de vida, e por isso está sofrendo ao invés de gozar. Em toda parte vemos a luta pela vida. Todos estão lutando, mas qual é o prazer deles no final de contas? Eles estão simplesmente sofrendo e morrendo. Por isso, embora vida signifique gozo, no momento atual você não está gozando a vida. Mas se alcançar a verdadeira plataforma espiritual da vida, então você gozará.
mike Robinson: Para finalizar, o senhor pode me explicar algumas das fases pelas quais se passa na vida espiritual? Quais são as fases espirituais pelas quais passa um devoto de Krishna?
Srila Prabhupada: Na primeira fase você é curioso. “Então,” diz você, “o que é este movimento da consciência de Krishna? Deixe-me estudá-lo.” Isto se chama sraddha, ou fé. Assim é o começo. Em seguida, se você é sério, você se associa com aqueles que estão cultivando este conhecimento. Você tenta compreender o que eles estão sentindo. Então você sentirá: ‘Por que não me tornar um deles?” E quando você se torna um deles, logo todos os seus receios desaparecem. Você se torna mais fiel, e então começa a apreciar realmente a consciência de Krishna. Por que estes rapazes não vão ao cinema? Por que não comem carne nem vão a boates? Por que o gosto deles mudou. Agora eles odeiam todas estas coisas. Dessa maneira, você faz progresso. Em primeiro lugar, fé; depois, associação com os devotos; depois, eliminação de todos os receios; depois, fé firme; depois, gosto; depois, realização de Deus; e depois a perfeição, o amor a Deus. Esta é a religião de primeira classe. Não uma simples cerimônia ritualística de “eu creio, você crê.” Isto não é uma religião. Isto é vigarice. Religião verdadeira significa desenvolver seu amor por Deus. Esta é a perfeição da religião.
mike Robinson: Muito obrigado por ter conversado comigo. Foi um prazer conversar com o senhor.
Srila Prabhupada: Hare Krishna.
Verdade e beleza
Srila Prabhupada publicou este ensaio primeiramente na Índia, na antiga versão em tablóide de sua revista quinzenal “De Volta ao Supremo” (20 de novembro de 1958). Ele contém a inesquecível história da “beleza líquida”, em que Srila Prabhupada dramaticamente expõe o princípio fundamental da sexualidade humana. Esta exposição esclarecedora da natureza da verdade e da beleza é intemporal e surpreendentemente relevante para aqueles que buscam o “eu interno”.
Pode ser, às vezes, que se argumente sobre se “verdade” e “beleza” são termos compatíveis. Alguém de bom grado concordaria em dizer a verdade, por assim dizer, mas uma vez que a verdade nem sempre é bela – de fato, ela é freqüentemente um tanto assustadora e desagradável – como poderia alguém expressar verdade e beleza ao mesmo tempo?
Em resposta, poderíamos informar a todos os interessados que “verdade” e “beleza” são compatíveis. De fato, podemos afirmar enfaticamente que a verdade real, que é absoluta, é sempre bela. A verdade é tão bela que atrai a todos, inclusive à própria verdade. A verdade é tão bela que muitos sábios, santos e devotos têm deixado tudo pela causa de verdade. Mahatma Gandhi, um ídolo do mundo moderno, dedicou sua vida a fazer experiências com a verdade, e todas as suas atividades objetivavam apenas a verdade.
Por que somente Mahatma Gandhi? Cada um de nós tem o desejo intenso de só buscar a verdade, pois a verdade é não somente bela, mas também todo-poderosa, plena de todos os recursos, todo famosa, todo-renunciada e plena de todo o conhecimento.
Infelizmente, às pessoas não tem informação da verdade real. De fato, 99,9 por cento dos homens em todas as esferas da vida andam apenas atrás da inverdade, em nome da verdade. Sentimo-nos realmente atraídos pela beleza da verdade, mas desde tempos imemoriais temos estado acostumados ao amor da inverdade que aparenta ser verdade. Portanto, para o mundano “verdade” e “beleza” são termos incompatíveis. A verdade e beleza mundanas podem ser explicadas da seguinte maneira.
Certa feita, um homem que era muito poderoso e de forte constituição física, mas cujo caráter era muito duvidoso, apaixonou-se por uma bela moça. A moça era não apenas bonita na aparência, como também santa no caráter, e, sendo assim, ela não gostou das abordagens do homem. O homem, entretanto, insistia por causa de seus desejos luxuriosos, e por isso a moça pediu-lhe que esperasse apenas sete dias, e ela determinou o dia em que ele poderia encontrar-se com ela novamente. O homem concordou, e, com grande expectativa, ficou esperando pelo dia marcado.
A santa moça, contudo, a fim de manifestar a verdadeira beleza da verdade absoluta, adotou um método muito instrutivo. Ela tomou doses muito fortes de laxativos e purgantes, e por sete dias seguidos teve diarréia e vomitou tudo que havia comido. Além disso, ela armazenou todas as fezes e o vômito em recipientes adequados. Como resultado dos purgantes, a dita bela moça tornou-se escurecida e seus belos olhos afundaram nas órbitas de seu crânio. Assim, na hora marcada, ela esperou ansiosamente para receber o ávido rapaz.
O homem apareceu em cena bem vestido e bem comportado, e perguntou à feia moça que o esperava ali a respeito da bela moça com a qual queria encontrar-se. Ele não pôde reconhecer naquela moça a mesma beldade que ele procurava; de fato, embora ela repetidamente afirmasse sua identidade, por causa de sua deplorável condição, ele não era capaz de reconhecê-la.
Por fim, a moça disse ao poderoso rapaz que ela havia reservado os ingredientes de sua beleza, armazenando-os em recipientes. Disse-lhe também que ele poderia desfrutar desses sucos de beleza. Quando o poético homem mundano pediu para ver esses sucos de beleza, ele foi posto na presença do depósito de fezes soltas e vômito líquido, que emanavam um odor insuportável. Assim toda a história da beleza líquida foi-lhe revelada. Finalmente, pela graça da santa moça, este homem de mau caráter pôde ter um vislumbre do que é a sombra e a substância, e desse modo soltou a si.
A posição desse rapaz é semelhante à posição de cada um de nós, que nos sentimos atraídos pela falsa beleza material. A moça acima mencionada tinha um corpo material belamente desenvolvido de acordo com os desejos de sua mente, mas, de fato, ela estava à parte desse corpo e mente materiais temporários. Na verdade, ela era uma centelha espiritual, e o amante que estava atraído por sua falsa pele também o era.
Os intelectuais e estetas mundanos, contudo, são iludidos pela beleza e atração externas da verdade relativa e não têm conhecimento da centelha espiritual, que é verdade e beleza ao mesmo tempo. A centelha espiritual é tão bela que, quando deixa o dito belo corpo, que de fato é cheio de fezes e vômito, ninguém quer tocar naquele corpo, mesmo que ele seja decorado com roupas caras.
Estamos todos buscando uma verdade falsa e relativa, que é incompatível com a verdade real. A verdade real, entretanto, é permanentemente bela, retendo o mesmo padrão de beleza por inumeráveis anos. Essa centelha espiritual é indestrutível. A beleza da pele externa pode ser destruída em uma questão de horas mediante uma dose de purgantes fortes, mas a beleza da verdade é indestrutível e sempre a mesma. Infelizmente, os artistas e intelectuais mundanos ignoram esta bela centelha do espírito. Eles também ignoram o fogo total que é a fonte dessas centelhas espirituais, e ignoram os relacionamentos entre as centelhas e o fogo, que assumem a forma de passatempos transcendentais. Quando esses passatempos são revelados aqui pela graça do Todo-poderoso, os tolos que não podem perceber além de seus sentidos confundem esses passatempos de verdade e beleza com as manifestações de fezes soltas e vômito acima descritas. Assim, em desespero, eles perguntam como é possível conciliar a verdade com a beleza.
Os mundanos não sabem que a entidade espiritual total é a pessoa bela que atrai tudo. Eles não sabem que Ele é a substância primordial, a fonte primordial e o manancial de tudo que existe. As infinitésimas centelhas espirituais, sendo partes integrantes desse espírito total, são qualitativamente iguais em beleza e eternidade. A única diferença é que o todo é eternamente o todo e as partes são eternamente as partes. Tanto o todo quanto as partes, entretanto, constituem a verdade última, a beleza última, o conhecimento último, a energia última, a renúncia última e a opulência última.
Embora escrita pelo maior dos poetas ou intelectuais mundanos, qualquer literatura que não descreva a verdade e beleza últimas é apenas um estoque de fezes e vômitos da verdade relativa. Verdadeira literatura é aquela que descreve a verdade e beleza últimas do Absoluto
Leia mais em:
http://gratisilumminacao.blogspot.com/
*
http://auto-realizacao.blogspot.com/
*
http://gratisprazerinfinito.blogspot.com/
*
http://gratissolucoes.blogspot.com/
*
http://www.harekrishna.com.br/
*
http://gratiskrishna.blogspot.com/
*
http://aulavedica.blogspot.com/
*
http://gratissolucoes3.blogspot.com/
*
http://gratisdietanatural.blogspot.com/
*
http://nayanadas.blogspot.com/
*
http://ograndesabio.blogspot.com/
*
http://www.flogao.com.br/harekrishna
*
http://livrogita.blogspot.com
*
Perguntas relevantes
*
Embora a imprensa esteja geralmente obcecada pela violência e a morte, nossa percepção da morte e do mortal é superficial. Srila Prabhupada observa: “Enquanto o homem está em pleno vigor da vida, ele se esquece da verdade crua da morte, a qual ele terá que enfrentar.” Como podemos eficientemente lidar com nossa própria morte? Neste ensaio (que apareceu pela primeira vez no antigo formato em tablóide de “De Volta ao Supremo”, em 20 de abril de 1960) Srila Prabhupada explica como os antigos ensinamentos do Srimad-Bhagavatam dão uma resposta prática.
Uma criança caminhando com seu pai faz perguntas constantemente. Ela pergunta muitas coisas estranhas a seu pai, e o pai tem de satisfazê-la com respostas apropriadas. Quando eu era um pai jovem, em minha vida de casado, eu era inundado com centenas de perguntas feitas por meu segundo filho, que era meu companheiro constante. Certo dia sucedeu de um cortejo de casamento passar por nosso ônibus, e, como de costume, o menino de quatro anos perguntou-me o que era aquela grande procissão. Eu lhe dei todas as respostas possíveis a suas mil e uma perguntas relativas ao cortejo de casamento, e finalmente ele perguntou se o seu próprio pai era casado. Esta pergunta provocou altas gargalhadas entre todos os cavalheiros adultos presentes, embora o menino ficasse perplexo, sem entender por que eles gargalhavam. De qualquer modo, o menino ficou de algum modo satisfeito com seu pai casado.
A moral deste incidente é que uma vez que o ser humano é um animal racional, ele nasce para fazer perguntas. Quanto maior o numero de perguntas, maior o avanço de conhecimento e ciência. Toda a civilização material baseia-se neste volume originalmente extenso de perguntas, feitas por jovens a seus semelhantes mais velhos. Quando as pessoas mais velhas dão as respostas adequadas às perguntas dos jovens, a civilização faz progresso, um passo após outro. O homem mais inteligente, contudo, indaga a respeito do que acontece após a morte. Os menos inteligentes fazem perguntas de menor relevância, mas as perguntas daqueles que são mais inteligentes são cada vez mais relevantes.
Entre os homens mais inteligentes estava Maharaja Pariksit, o grande rei do mundo inteiro, que foi acidentalmente amaldiçoado por um brahmana a ser morto pela mordida de uma serpente dentro de sete dias. O brahmana que o amaldiçoou não passava de um menino, porém era muito poderoso, e, porque não conhecia a importância do grande rei, o menino tolamente amaldiçoou-o a ser morto dentro de sete dias. Mais tarde isto foi motivo de lamentação para o pai, a quem o rei havia ofendido. Quando o rei foi informado da desventurada maldição, ele imediatamente deixou seu lar palaciano e dirigiu-se às margens do Ganges, que ficava próximo a sua capital, a fim de preparar-se para sua morte iminente. Por ser um grande rei, quase todos os grandes sábios e acadêmicos eruditos reuniram-se no local onde o rei estava jejuando antes de deixar seu corpo mortal. Por fim, Sukadeva Gosvami, o mais jovem e santo contemporâneo do rei, também chegou ali, e foi unanimemente aceito para presidir o encontro, embora seu grande pai também estivesse presente. O rei respeitosamente ofereceu a Sukadeva Gosvami o assento de honra principal e fez-lhe perguntas relevantes, relativas a seu desaparecimento do mundo mortal, que ocorreria ao final de sete dias. O grande rei, sendo um digno descendente dos Pandavas, que eram todos grandes devotos, fez as seguintes perguntas relevantes ao grande sábio Sukadeva: “Meu caro senhor, és o maior dos grandes transcendentalistas, e por isso submissamente peço para perguntar-te acerca de minhas dúvidas neste momento. Estou justamente a beira da morte. Portanto, que devo eu fazer neste momento crítico? Por favor, dize-me, meu senhor – que devo ouvir, que devo adorar ou de quem devo lembrar-me agora? Um grande sábio como tu não fica na casa de um chefe de família mais do que o necessário, e por isso para minha boa sorte bondosamente apareceste aqui no momento de minha morte. Por favor, portanto, dá-me tuas orientações nesta hora crítica.”
Ao ser assim amavelmente solicitado pelo rei, o grande sábio respondeu a suas perguntas com autoridade, pois o sábio era grande erudito transcendental e era igualmente bem equipado de qualidades divinas, visto ser ele o digno filho de Badarayana, ou Vyasadeva, o compilador original da literatura védica.
Sukadeva Gosvami disse: “Meu caro rei, tua pergunta é muitíssimo relevante, e é, também, benéfica para todas as pessoas em todos os tempos. Tais perguntas, que são as mais elevadas de todas, são relevantes porque são confirmadas pelos ensinamentos do vedanta-darsana, a conclusão do conhecimento védico, e são atmavit-sammatah; em outras palavras, as almas liberadas, que têm conhecimento pleno de sua identidade espiritual, apresentam essas perguntas relevantes a fim de obter informações mais detalhadas sobre a Transcendência.”
O Srimad-Bhagavatam é o comentário natural aos grandes Vedanta (ou Sariraka) sutras, que foram compilados por Srila Vyasadeva. Os Vedanta-sutras são a mais elevada literatura védica, e contêm o núcleo de perguntas básicas sobre o tema transcendental do conhecimento espiritual. Contudo, embora Srila Vyasadeva compilasse esse grande tratado, sua mente não ficou satisfeita. Então aconteceu de ele encontrar Sri Narada, seu mestre espiritual, que o aconselhou a descrever a identidade da Personalidade de Deus. Ao receber este conselho, Vyasadeva meditou sobre o princípio da bhakti-yoga, que lhe mostrou distintamente o que é o Absoluto e o que é a relatividade, ou maya. Tendo atingido perfeita realização desses fatos, ele compilou a grande narração do Srimad-Bhagavatam, ou o belo Bhagavatam, que começa com fatos históricos verdadeiros, relativos à vida de Maharaja Pariksit.
O vendanta-sutra começa com a indagação chave sobre a Transcendência, athato brahma-jijnasa: “Agora deve-se indagar acerca de Brahman, ou a Transcendência.”
Enquanto um homem está em pleno vigor da vida, ele se esquece da crua verdade da morte, que ele terá que enfrentar. Assim, um homem tolo não faz indagações relevantes sobre os verdadeiros problemas da vida. Todos pensam que jamais morrerão, embora vejam evidências da morte diante de seus olhos a cada segundo. Eis aqui a distinção entre animalismo e humanidade. Um animal como a cabra não percebe sua morte iminente. Embora sua irmã cabra esteja sendo sacrificada, a cabra, estando iludida pelo capim verde que se lhe oferece, permanecerá pacificamente esperando para ser sacrificada em seguida. Por outro lado, se um ser humano vê seu semelhante sendo morto por um inimigo, ele ou luta para salvar seu irmão ou se afasta, se possível para salvar sua própria vida. Esta é a diferença entre o homem e a cabra.
O homem inteligente sabe que a morte nasce juntamente com seu próprio nascimento. Ele sabe que está morrendo a cada segundo e que o toque final será dado tão logo seu período de vida termine. Por isso, ele se prepara para a próxima vida ou para a liberação da doença de repetidos nascimentos e mortes.
O tolo, contudo, não sabe que esta forma humana de vida é obtida após uma série de nascimentos e mortes impostos no passado pelas leis da natureza. Ele não sabe que a entidade viva é um ser eterno, que não tem nascimento nem morte. Nascimento, morte, velhice e doença são imposições externas exercidas sobre a entidade viva e devem-se a seu contato com a natureza material e a seu esquecimento de sua natureza divina e eterna e unicidade qualitativa com o Todo Absoluto.
A vida humana provê a oportunidade de conhecer este fato, ou verdade, eterna. Assim, o próprio começo do Vedanta-sutra aconselha que, por termos esta valiosa forma de vida humana, é nosso dever – agora – indagar: Que é Brahman, a Verdade Absoluta?
Um homem que não é inteligente o bastante não indaga acerca desta vida transcendental; ao invés, ele indaga sobre muitos assuntos irrelevantes que não se relacionam a sua existência eterna. Desde o começo de sua vida, ele indaga a sua mãe, pai, mestres, professores, livros e tantas outras fontes, mas não obtém o tipo correto de informação sobre sua vida real.
Como mencionamos anteriormente, Pariksit Maharaja recebeu o aviso de que morreria dentro de sete dias, e imediatamente deixou seu palácio a fim de preparar-se para o próximo estágio de vida. O rei tinha pelo menos sete dias a sua disposição, durante os quais poderia se preparar para a morte, mas, quanto a nós, apesar de sabermos sem dúvida que nossa morte é certa, não temos informação da data determinada para sua ocorrência. Eu não sei se vou encontrar a morte no próximo instante. Mesmo um homem tão grandioso como Mahatma Gandhi não conseguiu calcular que encontraria sua morte dentro de breves cinco minutos, nem puderam os seus grandes companheiros adivinhar sua morte iminente. Não obstante, todos esses cavalheiros apresentavam-se como grandes líderes do povo.
É a ignorância da morte e da vida que distingue o animal do homem. Um homem, no verdadeiro sentido do termo, indaga acerca dele mesmo e do que ele é. De onde ele veio para esta vida, e para onde ele vai após a morte? Por que ele é colocado sob as tribulações das três espécies de misérias apesar de não as querer? Começando da infância, uma pessoa indaga sobre tantas coisas em sua vida, mas nunca indaga sobre a real essência da vida. Isso é animalismo. Não há diferença entre um homem e um animal no que diz respeito ao quatro princípios da vida animal, pois todo ser vivo existe comendo, dormindo, temendo e acasalando-se. Mas apenas a vida humana destina-se a indagações relevantes acerca de fatos sobre a vida eterna e a Transcendência. A vida humana destina-se, portanto, à busca da vida eterna, e o Vedanta-sutra nos aconselha a conduzir essa busca agora, ou nunca. Se deixamos de investigar agora esses relevantes assuntos sobre a vida, certamente voltaremos novamente ao reino animal através das leis da natureza. Portanto, mesmo que um homem tolo pareça avançado em ciência material – isto é, em comer, dormir, temer, acasalar-se e assim por diante – ele não pode livrar-se das mãos cruéis da morte através das leis da natureza. A lei da natureza funciona sob três modos – bondade, paixão e ignorância. Aqueles que vivem sob condições de bondade são promovidos às posições espirituais superiores da vida, e aqueles que vivem sob condições de paixão permanecem estacionados no mesmo lugar no mundo material onde estão agora, mas aqueles que vivem sob condições de ignorância são certamente degradados às espécies inferiores.
A situação moderna da civilização humana é precária porque não oferece educação sobre pesquisas relevantes dos princípios essenciais da vida. Como animais, as pessoas não sabem que vão ser sacrificadas pelas leis da natureza. Elas se satisfazem com um punhado de capim verde, ou assim chamada vida alegre, como a cabra esperando no matadouro. Considerando a condição a que chegou a vida humana, estamos apenas tentando humildemente salvar o ser humano através da mensagem de De Volta ao Supremo. Este método não é fictício. Se realmente tiver que haver uma era de realidade, esta mensagem de De Volta ao Supremo é o começo dessa era.
Segundo Sri Sukadeva Gosvami, o fato real é que um grhamedhi, ou uma pessoa que se atou, como a cabra destinada ao matadouro, ao negócio de família, sociedade, comunidade, nação ou humanidade em geral, no que diz respeito aos problemas e necessidades da vida animal – a saber, comer, dormir, temer e acasalar-se – e que não tenha conhecimento da Transcendência não passa de um animal. Ele pode ter indagado sobre assuntos físicos, políticos, econômicos, culturais, educacionais, ou outros assuntos semelhantes de interesse material e temporário, mas se ele não tiver indagado sobre os princípios da vida transcendental, deve ser considerado um cego impelido por sentidos descontrolados e prestes a cair em uma vala. Essa é a descrição do grhamedhi.
O oposto do grha-medhi, contudo, é o grha-stha. O grhastha-asrama, ou o abrigo da vida familiar espiritual, é como a vida de um sannyasi, um membro da ordem renunciada. Não importando que a pessoa seja um chefe de família ou um renunciante, o ponto importante é o das perguntas relevantes. Um sannyasi é falso se não se interessa por perguntas relevantes, e um grhastha, ou chefe de família, é fidedigno se sente inclinação a fazer tais perguntas. O grhamedhi, entretanto, está simplesmente interessado nas necessidades animais da vida. Pelas leis da natureza, a vida do grhamedhi é cheia de calamidades, ao passo que a vida do grhastha é cheia de felicidade. Mas, na civilização humana moderna, os grhamedhis estão se fazendo passar por grhasthas. Devemos, portanto, saber quem é o quê. A vida do grhamedhi é cheia de vícios por que ele não sabe como levar uma vida familiar. Ele não sabe que além de seu controle está um poder que supervisiona e controla suas atividades, e ele não tem concepção de sua vida futura. O grhamedhi é cego para o futuro e não tem capacidade de fazer perguntas relevantes. Sua única qualificação é que ele está atado pelos grilhões do apego às coisas falsas com que se entretém em sua existência temporária.
A noite, tais grhamedhis desperdiçam seu tempo valioso, dormindo ou satisfazendo suas diferentes variedades de impulsos sexuais freqüentando exibições de cinema, clubes e casas de jogo, onde se entregam a mulheres e bebedeiras desbragadamente. E durante o dia, eles desperdiçam sua vida valiosa, acumulando dinheiro ou, se têm dinheiro suficiente para gastar, proporcionando conforto para os membros de suas famílias. Seu padrão de vida e suas necessidades pessoais aumentam com o crescimento de sua renda monetária. Assim, não há limites para seus gastos, e eles nunca estão saciados. Conseqüentemente, há competição ilimitada no campo do desenvolvimento econômico, e por isso não há paz em nenhuma sociedade do mundo humano.
Todos se envolvem com os mesmos problemas de ganhos e gastos, mas, em última análise, têm de depender da misericórdia da mãe natureza. Quando há escassez na produção ou há distúrbios causados pela providência, o pobre político fazedor de planos culpa a natureza cruel, mas cuidadosamente evita examinar como e por quem as leis da natureza são controladas. O Bhagavad-gita, contudo, explica que as leis da natureza são controladas pela Personalidade de Deus Absoluta. Só Deus é o controlador da natureza e das leis naturais. Às vezes ambiciosos materialistas examinam um fragmento da lei da natureza, mas nunca se importam com conhecer aquele que fez essas leis. A maioria deles não crê na existência de uma pessoa absoluta, ou Deus, que controla as leis da natureza. Pelo contrário, eles simplesmente se preocupam com os princípios pelos quais diferentes elementos interagem, mas não fazem referência à direção última que possibilita tais interações. Eles não têm perguntas ou respostas relevantes a este respeito. O segundo dos Vedanta-sutras, entretanto, responde à pergunta essencial sobre o Brahman, afirmanddo que o Brahman Supremo, a Transcendência Suprema, é aquele de quem tudo é gerado. Em última análise, Ele é a Pessoa Suprema.
O tolo grhamedhi não só ignora a natureza temporária da espécie particular de corpo por ele obtido, mas ele também está cego para a verdadeira natureza do que está acontecendo diante dele nos afazeres diários de sua vida. Ele pode ver seu pai morrer, sua mãe morrer, ou um parente ou vizinho morrer, porém ele não faz as perguntas relevantes sobre se os outros membros existentes de sua família morrerão ou não. Às vezes ele pensa e sabe que todos os membros de sua família morrerão hoje ou amanhã e que ele também morrerá. Ele pode saber que todo o show de família – ou, quanto a isso, todo o show de comunidade, sociedade, nação e todas essas coisas – é apenas um bolha temporária no ar, que não tem valor algum. Contudo, ele anda louco atrás desses arranjos temporários e não se interessa por nenhuma pergunta relevante. Ele não tem conhecimento de para onde vai após a morte. Ele trabalha arduamente fazendo arranjos temporários para sua família, sociedade ou nação, mas nunca faz nenhum arranjo futuro, nem para si mesmo, nem para os demais que desaparecerão desta atual fase de vida. Ele não tem conhecimento de para onde vai após a morte. Ele trabalha arduamente fazendo arranjos temporários para sua família, sociedade ou nação, mas nunca faz nenhum arranjo futuro, nem para si mesmo, nem para os demais que desaparecerão desta atual fase de vida
Em um veículo público como um vagão de trem, encontramos e sentamo-nos juntos com alguns amigos desconhecidos e nos tornamos membros do mesmo veículo por pouco tempo, mas, no devido tempo, nos separamos, e nunca mais nos encontramos. Analogamente, em um extensa jornada de vida, obtemos um assento temporário em uma assim chamada família, país ou sociedade, mas quando se esgota o tempo, somos separados uns dos outros contra nossa vontade, para nunca mais nos encontrarmos. Há muitas perguntas relevantes acerca de nossos arranjos temporários na vida e de nossos amigos nesses arranjos temporários, mas um homem que é grhamedhi nunca indaga sobre coisas de natureza permanente. Todos nós estamos atarefados, fazendo planos permanentes em vários graus de liderança, sem conhecer a natureza permanente das coisas tais como elas são. Sripada Sankaracarya, que especialmente se esforçou para eliminar esta ignorância da sociedade e que advogou o culto do conhecimento espiritual em relação com o onipenetrante Brahman impessoal, disse em desespero: “As crianças estão ocupadas em brincadeiras, os rapazes estão ocupados com ditos casos amorosos com as moças, e os velhos estão seriamente meditando sobre como ajustar uma vida frustrada de lutas. Mas, ai de mim, ninguém está preparado para indagar relevantemente sobre a ciência de Brahman, a Verdade Absoluta.”
Sri Sukadeva Gosvami, a quem Maharaja Pariksit pediu orientação, respondeu às relevantes perguntas do rei, aconselhando-o da seguinte maneira:
tasmad bharata savatma
bhagavan isvaro harih
srotavyah kirtitavyas ca
smartavyas cecchatabhayam
“Ó descendente de Barata, é dever dos homens mortais indagar sobre a personalidade de Deus, ouvir sobre Ele, glorificá-lO e meditar nEle, que é a pessoa mais atrativa por causa da plenitude de Sua opulência. Ele é chamado Hari porque só Ele pode desfazer a existência condicionada de um ser vivo. Se queremos realmente nos livrar da existência condicionada, devemos fazer perguntas relevantes sobre a Verdade Absoluta para que Ele Se sinta inclinado a conceder-nos libertação perfeita na vida.” [Srimad-Bhagavatam 2.1.5]
Sri Sukadeva Gosvami Gosvami usa particularmente quatro palavras em relação com a Personalidade de Deus Absoluta. Essas palavras distinguem a Pessoa Absoluta, ou Para-brahman, de outras pessoas, que são qualitativamente iguais a Ele. A Personalidade de Deus Absoluta é chamada de sarvatma, ou onipenetrante, porque ninguém está à parte dEle, embora ninguém tenha essa compreensão. A Personalidade de Deus, através de Sua representação plenária, reside no coração de todos como Paramatma, a Superalma, juntamente com cada alma individual. Portanto, toda alma individual tem um relacionamento íntimo com Ele. O esquecimento deste íntimo relacionamento que existe eternamente com Ele é a causa da vida condicionada desde tempos imemoriais. Mas, por Ele ser Bhagavan, ou a personalidade suprema, Ele pode imediatamente reciprocar ao chamamento de um devoto. Além disso, por Ele ser a pessoa perfeita, Sua beleza, opulência, fama, força, conhecimento e renúncia são todos fontes ilimitadas de bem-aventurança transcendental para a alma individual. A alma individual torna-se atraída por todas essas diferentes opulências quando elas são imperfeitamente representadas por outras almas condicionadas, mas a alma individual não se satisfaz com essas representações imperfeitas, e por isso perpetuamente busca o perfeito. A beleza da Personalidade de Deus não tem comparação, tampouco Seu conhecimento e renúncia. Mas, acima de tudo, Ele é isvara, ou o controlador supremo. No momento estamos sendo controlados pela ação policial deste grande rei. Este controle policial é imposto sobre nós por causa de nossa desobediência à lei. Mas, porque o Senhor é Hari, Ele é capaz de fazer desaparecer a nossa vida condicionada, dando-nos total liberdade na existência espiritual. Portanto, é dever de todo homem fazer perguntas relevantes sobre Ele e desse modo voltar ao Supremo.
Investigação da alma
Faz poucos anos, um distinto grupo de profissionais se reuniu em Windsor, Ontário (Canadá), para discutir “os problemas associados aos intentos de definir o momento exato da morte”. Entre os membros do grupo se encontravam o Dr. Wilfred G. Bigelow, cardiólogo mundialmente famoso, o senhor magistrado Edson L. Haines, da Corte Suprema de Ontário, e J. Francis Leddy, presidente da Universidade de Windsor. O Dr. Bigelow susteve a existência da alma, e solicitou uma investigação sistemática para determinar o que é a alma e de onde ela vem. Os comentários do Dr. Bigelow e dos outros membros do grupo foram logo publicados na Montreal Gazette. Quando Srila Prabhupada leu o artigo, ele escreveu uma carta ao Dr. Bigelow, na qual apresentou conhecimento védico substancial acerca da ciência da alma, e sugeriu um método prático para entendê-la cientificamente. Em continuação reproduzimos o artigo da Gazette e a resposta de Srila Prabhupada:
Título da Gazette:
CIRURGIÃO CARDIÓLOGO
QUER SABER O QUE É UMA ALMA
WINDSOR – Um cirurgião cardiólogo do Canadá mundialmente famoso diz acreditar que o corpo tem uma alma que vai-se embora à hora da morte e sobre a qual os teólogos deviam tentar descobrir mais coisas.
Dr. Wilfred G Bigelow, chefe da unidade de cirurgia cardiovascular no Hospital Geral de Toronto, disse que “sendo uma pessoa que crê na existência de uma alma”, ele achava que era chegado o momento de “desvendar o mistério dessa alma e descobrir o que ela é.”
Bigelow foi membro de um júri convocado perante a Sociedade Médico-legal do Condado de Essex para discutir problemas ligados às tentativas de definir o momento exato da morte.
A questão tem se tornado vital na era dos transplantes de corações e outros órgãos, cedidos por doadores sujeitos a morrer inevitavelmente.
A associação Médica Canadense produziu uma definição amplamente aceita de morte: momento em que o paciente entra em coma, não responde a estímulos de espécie alguma e as ondas cerebrais registradas em uma máquina são horizontais.
Os outros membros do júri foram o Sr. Justice Edson L. Haines da Corte Suprema de Ontário e J. Francis Leddy, presidente da Universidade de Windsor.
Bigelow, elaborando os pontos que levantou durante a discussão, disse em uma entrevista posterior que seus trinta e dois anos como cirurgião não deixavam dúvida alguma sobre a existência da alma.
“Há determinados casos em que acontece a gente estar presente no momento em que as pessoas passam do estado de vida ao da morte, e algumas transformações misteriosas acontecem.
“Uma das mais notáveis é a repentina falta de vida ou brilho nos olhos. Eles se tornam opacos e literalmente sem vida.
“Isto é apenas para testemunhar o que temos observado. De fato, não creio que isso possa ser bem documentado.”
Bigelow, que se tornou mundialmente renomado por seu trabalho pioneiro na técnica cirúrgica do “congelamento profundo” conhecida como hipotermia e por sua cirurgia da válvula do coração, disse que a “investigação da alma” deveria ser feita pela teologia e disciplinas aliadas dentro da universidade.
Durante essa discussão, Leddy disse que “se existe uma alma, você não vai vê-la. Você não vai encontrá-la.”
“Se há um princípio vital ou vida, que princípio é este?” O problema é que “a alma não existe em nenhuma parte específica, geograficamente. Ela está em toda parte e, todavia, não está em parte alguma do corpo.”
Seria “bom começar experimentando, mas eu não sei como o senhor vai poder penetrar nessas coisas,” disse Leddy. Ele disse que a discussão o lembrava do cosmonauta soviético que regressou do espaço para informar que Deus não existia, porque ele não O vira lá em cima.
Talvez seja assim, disse Bigelow, mas, na medicina moderna, quando se encontrava algo que não podia ser explicado, “a senha é descobrir a resposta, levar o caso ao laboratório, levá-lo a algum lugar onde se possa descobrir a verdade.”
A questão central, disse Bigelow, seria “onde está a alma e de onde ela vem?”
Srila Prabhupada dá as evidências védicas
Meu caro Dr. Bigelow:
Saudações. Recentemente li um artigo na Gazette por Era Corelli, intitulado “Cirurgião cardiólogo quer saber o que é uma alma,” que me despertou muito interesse. Seus comentários mostram uma compreensão profunda, e por isso eu pensei em escrever-lhe sobre este assunto. Talvez o senhor saiba que eu sou o fundador-acarya da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna. Tenho vários templos no Canadá – Montreal, Toronto, Vancouver e Hamilton. Este movimento para a consciência de Krishna destina-se especificamente a ensinar a todas as almas sua posição espiritual original.
Indubitavelmente, a alma está presente no coração da entidade viva, e é a fonte de todas as energias para a manutenção do corpo. A energia da alma se espalha por todo o corpo, e isso se chama consciência. Uma vez que essa consciência espalha a energia da alma por todo corpo, podemos sentir dores e prazeres em qualquer parte do corpo. A alma é individual, e transmigra da primeira infância à segunda infância, da segunda infância à adolescência, da adolescência à juventude, e depois à velhice avançada. Então, a mudança chamada morte ocorre quando mudamos para um novo corpo, assim como trocamos uma roupa velha por outra nova. Isso se chama transmigração da alma.
Quando a alma quer desfrutar deste mundo material, esquecida de seu verdadeiro lar no mundo espiritual, ela aceita essa vida de árdua luta pela sobrevivência. Esta vida inatural de repetidos nascimentos, morte, velhice e doença pode ser parada quando sua consciência é encaixada na consciência suprema de Deus. Esse é o princípio básico de nosso movimento para a consciência de Krishna.
Quanto ao transplante de coração, não há possibilidade de sucesso a menos que a alma esteja no coração. De modo que a presença da alma tem que ser aceita. No intercurso sexual, se não há alma, não há concepção, nem gravidez. Os anticoncepcionais deterioram o ventre para que este não seja mais um bom lugar para a alma. Isso vai de encontro à lei de Deus. Pela ordem de Deus, a alma é enviada a um ventre particular, mas através desses métodos anticoncepcionais aquele ventre é-lhe negado e ela tem que ser colocada em outro ventre. Isso é desobediência ao Supremo. Por exemplo, tomemos um homem que vive em um apartamento particular. Se a situação ali é tão conturbada que ele não pode sequer entrar no apartamento, então ele leva uma grande desvantagem. Isso é interferência ilegal e é passível de punição.
A aceitação da “investigação sobre a alma” marcaria certamente um avanço da ciência. Mas o avanço da ciência não será capaz de encontrar a alma. A presença da alma pode simplesmente ser aceita com base em um entendimento circunstancial. O Senhor encontrará na literatura védica que a dimensão da alma é de uma décima milésima parte do tamanho de um ponto. O Cientista material não pode medir as dimensões de um ponto. Portanto, não é possível que o cientista material apreenda a alma. Podemos simplesmente aceitar a existência da alma, baseando-nos na autoridade. O que os maiores cientistas tentam descobrir nós já ensinamos há muito tempo.
Tão logo se entenda a existência da alma, pode-se imediatamente entender a existência de Deus. A diferença entre Deus e a alma é que Deus é uma alma muito grande, e a entidade viva é uma alma muito pequena; mas, qualitativamente, eles são iguais. Portanto, Deus é onipenetrante, e a entidade viva é localizada. Mas a natureza e qualidade são as mesmas.
A questão central, diz o senhor, é: “Onde está a alma e de onde ela vem?” Isso não é difícil de entender. Já discutimos que a alma reside no coração da entidade viva e que ela se refugia em outro corpo após a morte. Originalmente, a alma vem de Deus. Assim como uma centelha vem do fogo, e ao cair parece extinguir-se, a centelha-alma originalmente vem do mundo espiritual para o mundo material. No mundo material, ela cai sobre três condições diferentes, que são chamadas os modos da natureza. Quando uma centelha de fogo cai sobre a grama seca, a quantidade ígnea continua; quando cai no solo, ela não pode revelar sua manifestação ígnea a menos que o solo esteja em situação favorável; e quando cai na água ela se extingue. Sendo assim, encontramos três tipos de condições de vida. Uma entidade viva está completamente esquecida de sua natureza espiritual; outra está quase esquecida mas ainda tem um instinto de natureza espiritual; enfim outra mais está completamente em busca da perfeição espiritual. Há um método genuíno para a centelha espiritual alcançar a perfeição espiritual, e se ela é devidamente orientada, é facilmente encaminhada de volta ao lar, de volta ao Supremo, de onde ela caiu originalmente.
Será uma grande contribuição para a sociedade humana se esta informação autorizada da literatura védica for apresentada ao mundo moderno com base no entendimento científico moderno. O fato já existe. Resta ser apresentado par ao entendimento geral.
Atenciosamente,
C. Bhaktivedanta Swami
II.
Escolhendo um
Mestre
Espiritual
O que é um guru?
Quando ouvimos a palavra “guru”, temos a tendência a visualizar uma imagem caricaturesca: um velhinho de aparência bizarra, barba longa e vestes esvoaçantes, meditando sobre verdades distantes e esotéricas. Ou então, pensamos em um sábio cósmico trocando por dinheiro a credulidade espiritual de jovens buscadores. Mas o que é realmente um guru? O que ele sabe que nós não sabemos? Como ele nos ilumina? Em palestra dada na Inglaterra em 1973, Srila Prabhupada nos dá algumas respostas esclarecedoras.
om ajnana-timirandhasya
jnananjana-salakaya
caksur unmilitam yena
tasmai sri-gurave namah
“Nasci na mais obscura ignorância, mas meu mestre espiritual abriu meus olhos com o archote do conhecimento. Ofereço-lhe minhas respeitosas reverências.”
A palavra ajnana quer dizer ignorância, ou escuridão. Se todas as luzes deste aposento se apagassem de repente, não seríamos capazes de dizer onde estamos sentados nem onde as demais pessoas estão sentadas. Tudo ficaria confuso. De modo semelhante, encontramo-nos todos na escuridão nesse mundo material, que é um mundo de tamas. Tamas, ou timira, quer dizer escuridão. Este mundo material é escuro, e por isso necessita da luz do sol ou da lua para se iluminar. Contudo, existe um outro mundo, um mundo espiritual, que está além desta escuridão. Sri Krishna descreve este mundo no Bhagavad-gita (15.6):
na tad bhasayate suryo
na sasanko na pavakah
yad gatva na nivartante
tad dhama paramam mama
“Esta minha morada não é iluminada nem pelo sol nem pela lua, tampouco pela eletricidade. Alguém que chegue até ela jamais regressa a este mundo material.”
A missão do guru é trazer seus discípulos da escuridão para a luz. Atualmente todos sofrem por causa da ignorância, da mesma forma que, por ignorância, pessoas contraem doenças. Alguém que não conheça os princípios de higiene não sabe o que poderá contaminá-lo. Assim, devido à ignorância, temos infecções e sofremos doenças. Pode ser que um criminoso diga: “Eu não tinha conhecimento da lei”, mas por isso ele não será perdoado se cometer um crime. A ignorância não é uma desculpa. De modo semelhante, uma criança, sem saber que o fogo queima, toca no fogo. O fogo não pensa: “Ela é uma criança e não sabe que eu queimo.” Não, não há desculpa. Assim como o Estado tem as leis, a natureza também tem leis estritas, as quais atuarão mesmo que as ignoremos. Se, por ignorância, fizermos algo errado, teremos de sofrer. Esta é a lei. Quer seja uma lei do Estado, quer seja uma lei da natureza, corremos o risco de sofrer se transgredimos.
A missão do guru é cuidar que nenhum ser humano sofra neste mundo material. Ninguém pode afirmar que não está sofrendo. Isto não é possível. Neste mundo material, há três tipos de sofrimento: Adhyatmika, adhibhautika e adhidaivika. São misérias que surgem do corpo material e da mente material, de outras entidades vivas e das forças da natureza. Talvez padeçamos por causa de outras entidades vivas – como, por exemplo, formigas, mosquitos ou moscas – ou talvez soframos por causa de algum poder superior. Pode ser que não chova ou que haja enchente. Podemos sofrer de calor excessivo ou de frio excessivo. A natureza impõe muitos tipos de sofrimento. Assim, no mundo material há três tipos de misérias, e todos sofrem com uma, duas ou três dessas misérias. Não há ninguém que possa dizer que está completamente livre de sofrimento.
Podemos então perguntar por que a entidade viva está sofrendo. A resposta é: por ignorância. Não pensamos: “estou cometendo erros e levando uma vida pecaminosa; por isso é que estou sofrendo”. Por conseguinte, o primeiro dever do guru é resgatar seu discípulo dessa ignorância. Mandamos nossos filhos para a escola a fim de poupar-lhes sofrimentos. Se nossos filhos não recebem uma educação, tememos que venham a sofrer no futuro. O guru vê que a causa do sofrimento é a ignorância, a qual é comparada à escuridão. Como é que se pode salvar uma pessoa na escuridão? Com a luz. O guru toma o archote do conhecimento e o apresenta perante a entidade viva envolta na escuridão. Este conhecimento a alivia dos sofrimentos da obscura ignorância.
Pode alguém perguntar se o guru é absolutamente necessário. Os Vedas nos informam que sim (Mundaka Up. 1.2.12):
tad vijnanartham sa gurum evabhigacchet
samit-panih srotriyam brahma-nistham
Os Vedas mandam que busquemos um guru; na realidade, eles dizem que busquemos o guru, não apenas um guru. Só há um guru porque este chega até nós por intermédio da sucessão discipular. O que Vyasadeva e Krishna ensinaram há 5.000 anos atrás também está sendo ensinado agora. Não há diferença entre as duas instruções. Apesar de centenas de milhares de acaryas terem ido e vindo, a mensagem é a mesma. O guru verdadeiro não pode ser dois porque o guru verdadeiro não fala de modo diferente de seus predecessores. Alguns mestres espirituais dizem: “Na minha opinião, você deve fazer isto.” Mas isto não é um guru. Esses pseudo-gurus não passam de meros patifes. O guru genuíno tem apenas uma opinião, que é a opinião expressa por Krishna, Vyasadeva, Narada, Arjuna, Sri Caitanya Mahaprabhu e os Gosvamis. Há cinco mil anos atrás o Senhor Sri Krishna falou o Bhagavad-gita, o qual foi registrado por Vyasadeva. Srila Vyasadeva não disse “Esta é minha opinião.” Pelo contrário, ele escreveu: Sri Bhagavan uvaca, isto é: “a Suprema Personalidade de Deus diz.” Tudo que Vyasadeva escreveu foi proferido originalmente pela Suprema Personalidade de Deus. Srila Vyasadeva não deu sua opinião própria.
Conseqüentemente, Srila Vyasadeva é um guru. Ele não interpreta mal as palavras de Krishna, senão que as transmite exatamente como foram proferidas. Quando mandamos um telegrama, a pessoa que passa o telegrama não tem de corrigi-lo, redatá-lo nem adicionar nada a ele. Ela simplesmente o transmite. Esta é a função do guru. Pode ser que o guru seja esta pessoa ou aquela, mas a mensagem é a mesma; é por isso que se diz que só há um guru.
Na sucessão discipular encontramos uma simples repetição do mesmo assunto. No Bhagavad-gita (9.34) Sri Krishna diz:
man-mana bhava mad-bhakto
mad-yaji mam namaskuru
mam evaisyasi yuktvaivam
atmanam mat-parayanah
“Ocupa tua mente em pensar sempre em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e adora-Me. Se te absorveres completamente em Mim, não há dúvida que virás a Mim.” Estas mesmas instruções foram reiteradas por todos os acaryas – Ramanujacarya, Madhvacarya e Caitanya Mahaprabhu. Os seis Gosvamis também transmitiram a mesma mensagem, sendo que nós simplesmente seguimos-lhe os passos. Não há diferença. Não interpretamos as palavras de Krishna, dizendo: “Na minha opinião, o Campo de Batalha de Kuruksetra representa o corpo humano.” Quem dá interpretações como essa são os patifes. Há muitos gurus patifes no mundo que dão sua própria opinião, mas nós podemos desafiar qualquer patife. Um guru patife pode dizer: “Eu sou Deus”, ou então: “Todos nós somos Deus.” Muito bem, mas devemos procurar no dicionário o que quer dizer a palavra “Deus”. De modo geral um dicionário nos dirá que a palavra “Deus” indica o Ser Supremo. Assim, podemos perguntar a um desses gurus: “Você é o Ser Supremo?” Se ele não conseguir compreender isto, devemos então dizer-lhe o que significa Supremo. Qualquer dicionário há de nos informar que Supremo quer dizer “autoridade máxima.” Poderemos então perguntar: “Você é a autoridade máxima?” Um guru patife desse tipo, mesmo que proclame ser Deus, não poderá responder a essa pergunta. Deus é o Ser Supremo e a autoridade máxima. Ninguém é igual a Ele nem superior a Ele. Contudo, há muitos gurus-deuses, muitos patifes que alegam ser o supremo. Tais patifes não podem nos ajudar a escapar da escuridão da existência material. Eles não podem iluminar nossa escuridão da existência material. Eles não podem iluminar nossa escuridão com o archote do conhecimento espiritual.
O guru autêntico vai simplesmente apresentar o que o guru supremo, Deus, diz na escritura autêntica. Um guru não pode alterar a mensagem da sucessão discipular.
Temos que compreender que não somos capazes de fazer investigações para encontrar a Verdade Absoluta. O próprio Caitanya Mahaprabhu dizia: “Meu guru Maharaja considerava-Me um grande tolo.” Uma pessoa que se mantém como um grande tolo perante seu guru é ela mesma um guru. Entretanto, uma pessoa que diga: “Eu sou tão avançado que posso falar melhor que meu guru” não passa de um patife. No Bhagavad-gita (4.2), Sri Krishna Diz:
evam parampara-praptam
imam rajarsayo viduh
sa kaleneha mahata
yogo nastah parantapa
“Esta ciência suprema foi assim recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na dessa maneira. Porém, com o decorrer do tempo rompeu-se a sucessão, e por isso parece que a ciência como ela é está perdida.”
Aceitar um guru não é simplesmente uma coisa da moda. Uma pessoa que esteja levando a sério a compreensão da vida espiritual necessita de um guru. Um guru é uma questão de necessidade, pois temos que ser muito sérios para compreender a vida espiritual, Deus, a ação correta e nossa relação com Deus. Se queremos compreender esses assuntos com muita seriedade, precisamos de um guru. Não devemos nos dirigir a um guru só porque este guru é o guru da moda no momento. È preciso haver rendição, já que sem rendição não podemos aprender nada. Se nos dirigirmos a um guru apenas para desafiá-lo, não aprenderemos nada. Mas temos que aceitar o guru assim como Arjuna aceitou o seu guru, o próprio Sri Krishna:
karpanya-dosopahata-svabhavah
prcchami tvam dharma-sammudha-cetah
yac chreyah syan niscitam bruhi tan me
sisyas te ‘ham sadhi mam tvam prapannam
“Agora estou confuso com relação a minha obrigação e perdi toda a compostura por causa da fraqueza. Nesta condição peço-Vos que me digais claramente o que é melhor para mim. Agora sou Vosso discípulo e uma alma rendida a Vós. Por favor, instruí-me.” (Bg. 2.7)
Este é o processo mediante o qual aceitamos um guru. O guru é o representante de Krishna, o representante dos acaryas anteriores. Krishna diz que todos os acaryas são Seus representantes; por isso, deve-se oferecer ao guru o mesmo respeito que se oferece a Deus. Como diz Visvanatha Cakravarti Thakura em suas orações ao mestre espiritual: yasya prasada bhagavad-prasadah. “Pela misericórdia do mestre espiritual, recebemos a bênção de Krishna.” Assim, se nos entregamos ao guru autêntico, nos entregamos a Deus. Deus aceita nossa rendição ao guru. No Bhagavad-gita (18.66), Krishna instrui:
sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva-papebhyo
moksayisyami ma sucah
“Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Hei de salvar-te de toda reação pecaminosa. Não temas.” Pode ser que alguém argumente: “Mostre-me Krishna que eu me renderei a Ele.” Mas não é assim; o processo é que primeiro nos rendamos ao representante de Krishna, para então nos rendermos a Krishna. Por isso se diz: saksad-dharitvena samasta-sastraih: o guru é como Deus. Quando oferecemos respeitos ao guru, estamos oferecendo respeitos a Deus. Como estamos tentando ser conscientes de Deus, é necessário que aprendamos a como oferecer respeitos a Deus através do representante de Deus. Em todos os sastras se descreve que o guru é como Deus, mas o guru jamais diz: “Eu sou Deus.” O discípulo tem a obrigação de oferecer respeitos ao guru da mesma forma que oferece respeitos a Deus, mas o guru jamais pensa: “Os meus discípulos estão me oferecendo o mesmo respeito que oferecem a Deus; portanto, tornei-me Deus.” Logo que pensa assim, ele se torna um cachorro em vez de Deus. Por isso, Visvanatha Cakravarti Thakura diz: kintu prabhor yah prya eva tasya. Como o guru é o servo mais confidencial de Deus, oferece-se-lhe o mesmo respeito que se oferece a Deus. Deus é sempre Deus, e o guru é sempre o guru. Por uma questão de etiqueta, Deus é o Deus adorável, e o guru é o Deus adorador (sevaka-bhagavan). Por isso, o guru é chamado de Prabhupada. A palavra prabhu quer dizer “senhor”, e pada quer dizer “posição”. Assim, prabhupada quer dizer: “aquele que aceita a posição do Senhor.” Isto é o mesmo que saksad-dharitvena samasta-sastraih.
Mas só precisamos de um guru se levarmos muito a sério a vontade de compreender a ciência de Deus. Não devemos tentar manter um guru por uma questão de moda. Uma pessoa que tenha aceitado um guru fala com inteligência. Ela jamais fala disparates. Este é o sinal que distingue uma pessoa que aceitou um guru autêntico. Por certo que devemos oferecer todos respeitos ao mestre espiritual, mas devemos também nos lembrar de como levar a cabo as suas ordens. No Bhagavad-gita (4.34) o próprio Sri Krishna nos diz qual é o método de buscar o guru e aproximar-se dele:
tad viddhi pranipatena
pariprasnena sevaya
upadeksyanti te jnanam
janinas tattva-darsinah
“Procura aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Indaga dele submissamente e presta-lhe serviço. A alma auto-realizada poderá transmitir-te conhecimento porque vê a verdade.” O primeiro processo é o processo da rendição. Temos que encontrar uma pessoa elevada e nos render voluntariamente a essa pessoa. Os sastras mandam que, antes que aceitemos um guru, o examinemos cuidadosamente para ver se podemos nos render a ele. Não devemos aceitar um guru de repente, por fanatismo. Isso é muito perigoso. O guru também deve examinar a pessoa que quer tornar-se seu discípulo para ver se esta pessoa é idônea. È assim que se estabelece a relação entre o guru e o discípulo. Tudo é providenciado. Mas devemos aceitar o processo com seriedade. Depois disso podemos ser treinados de modo a nos tornar discípulos autênticos. Em primeiro lugar, temos de encontrar um guru autêntico, estabelecer nossa relação com ele e proceder adequadamente. Então, alcançaremos o êxito em nossa vida, pois o guru pode iluminar o discípulo sincero que está na escuridão.
Todos nascem patifes e tolos. Se nascêssemos eruditos, por que precisaríamos ir à escola? Se não cultivamos conhecimento, não passamos de animais. Um animal pode dizer que não necessita de livros e que se tornou um guru, mas como pode alguém obter conhecimento sem estudar os livros autorizados sobre ciência e filosofia? Os gurus patifes tentam evitar estas coisas. Temos de compreender que todos nós nascemos patifes e tolos e que temos de ser esclarecidos. Temos de receber conhecimento para aperfeiçoar nossas vidas. Se não aperfeiçoarmos nossas vidas, malograremos. Qual é este malogro? A luta pela vida. Estamos tentando conseguir uma vida melhor, alcançar uma posição superior, e para isto lutamos duramente. Porém, não sabemos o que é realmente uma posição superior.
Teremos de abandonar qualquer posição que obtenhamos neste mundo material. Pode ser que obtenhamos uma boa posição ou uma posição ruim; de qualquer modo, não podemos permanecer aqui. Pode ser que ganhemos milhões de cruzeiros e pensemos: “Agora tenho uma boa posição”, mas uma pequena desinteria ou cólera-morbo acabarão com a nossa posição. Se o banco vai a falência, nossa posição vai por água abaixo. Assim, na realidade não há posição boa neste mundo material. È tudo uma farsa. Aqueles que tentam alcançar uma posição melhor no mundo material são por fim derrotados porque não existe posição melhor. O Bhagavad-gita (14.26) diz qual é a posição melhor:
mam ca yo ‘vyabhicarena
bhakti-yogena sevate
sa gunan samatityaitan
brama-bhuyaya kalpate
“Aquele que se dedica completamente ao serviço devocional, que não cai em nenhuma circunstância, transcende de imediato os modos da natureza material e deste modo chega ao nível de Brahman.”
Há alguma ciência que nos dê o conhecimento pelo qual possamos nos tornar imortais? Sim, podemos nos tornar imortais, mas não no sentido material. Este conhecimento não pode ser recebido em pseudo-universidades. Entretanto, as escrituras védicas contêm um conhecimento através do qual podemos nos tornar imortais. Essa imortalidade é a nossa melhor posição. Não ter mais de nascer, não ter mais de morrer, não ter mais de envelhecer, não ter mais de adoecer. De modo que o guru aceita uma responsabilidade muito grande. Ele deve orientar seu discípulo e capacitá-lo a tornar-se um candidato elegível para a posição perfeita: a imortalidade. O guru tem que ter a competência para conduzir seu discípulo de volta a casa, de volta ao Supremo. Muito obrigado.
Separando os santos dos
vigaristas
Todos os dias aumenta aos milhares o número de pessoas interessadas em praticar yoga e meditação. Infelizmente, uma pessoa que esteja buscando um guia adequado provavelmente encontrará um cortejo desorientador de gurus mágicos e de estilo próprio, e de deuses auto-proclamados. Em uma entrevista com o London Times, Srila Prabhupada explica como um buscador sincero pode saber a diferença entre um farsante e um guia espiritual genuíno.
Reporter: Sua graça, parece que, mais do que nunca, as pessoas estão buscando algum tipo de vida espiritual. Gostaria de saber se o senhor poderia explicar por quê.
Srila Prabhupada: O desejo de vida espiritual é um anseio absolutamente natural. Por sermos almas espirituais, não podemos ser felizes na atmosfera material. Se você tira um peixe da água, ele não pode ser feliz em terra. Analogamente, se não temos consciência espiritual, não podemos ser felizes. Hoje em dia, muitas pessoas andam atrás de avanço e desenvolvimento econômico, mas elas não são felizes porque essas não são as verdadeiras metas da vida. Muitos jovens estão compreendendo isso, e estão rejeitando a vida materialista e tentando buscar a vida espiritual. Na verdade, essa é a busca correta. A consciência de Krishna é a meta correta da vida. A menos que você adote a consciência de Krishna, não poderá ser feliz. Isso é um fato. Por isso, convidamos todos ao estudo e entendimento deste grande movimento.
Reporter: O que francamente me preocupa é que desde a chegada na Inglaterra, algum tempo atrás, de um yogi indiano, que foi o primeiro guru de que se teve notícia, começaram a aparecer de repente muitos gurus do nada. Às vezes, tenho o sentimento que nem todos eles são tão genuínos como deveriam ser. Seria correto advertir as pessoas que estão pensando em aceitar a vida espiritual que elas tomasse as precauções para encontrar um guru genuíno a fim de ensiná-las?
Srila Prabhupada: Sim. Evidentemente, buscar um guru é muito bom, mas se você quiser um guru barato, ou se quiser ser enganado, então encontrará muitos gurus enganadores. Porém, se você for sincero, encontrará um guru sincero. Porque as pessoas querem tudo muito barato, elas são enganadas. Nós pedimos a nossos estudantes que se abstenham do sexo ilícito, do comer de carne, dos jogos e da intoxicação. As pessoas acham que isso é muito difícil – incômodo. Mas se outra pessoa diz: “Faça qualquer disparate que você quiser e simplesmente use este mantra,” então as pessoas vão gostar dela. O fato é que as pessoas querem ser enganadas, e para tanto os enganadores aparecem. Ninguém quer submeter-se a nenhuma austeridade. Conseqüentemente, vêm os enganadores e dizem: “Nada de austeridade. Faça o que quiser. Simplesmente pague-me que eu lhe darei um mantra e você se tornará Deus dentro de seis meses.” É isso o que está acontecendo. Se você quiser ser enganado assim, os enganadores virão.
Reporter: O que o senhor diz da pessoa que, seriamente, quer encontrar a vida espiritual, mas que acaba aceitando o guru errado?
Srila Prabhupada: Se você apenas quer uma educação comum, você devotará apenas o tempo, o esforço e o entendimento para isso. De modo semelhante, se você vai aceitar a vida espiritual, você tem de levar a coisa a sério. Como é possível que simplesmente através de alguns mantras maravilhosos alguém possa se tornar Deus dentro de seis meses? Por que as pessoas querem algo assim? Isso significa que elas querem ser enganadas.
Reporter: Como pode uma pessoa saber que tem um guru genuíno?
Srila Prabhupada: Algum de meus estudantes pode responder a essa pergunta?
Discípulo: Eu me lembro que uma vez John Lennon perguntou ao senhor: “Como saberei quem é o guru genuíno?” E o senhor respondeu: “Simplesmente encontre aquele que é mais dedicado a Krishna. Este é genuíno.”
Srila Prabhupada: Sim. O guru é o representante de Deus, e ele fala sobre Deus, e nada mais. O guru genuíno é aquele que não tem nenhum interesse na vida materialista. Ele quer Deus, e somente Deus. Este é um dos testes de um guru genuíno: Brahma-nistham. Ele está absorto na Verdade Absoluta. No Mundaka Upanisad se afirma: srotriyam Brahma-nistham. “O guru genuíno é bem versado nas escrituras e no conhecimento védico, e é completamente dependente de Brahman.” Ele deve saber o que é Brahman [espírito] e como situar-se em Brahman. Esses sinais são dados na literatura védica. Como eu disse antes, o verdadeiro guru é representante de Deus. Ele representa o Senhor Supremo, assim como o vice-rei representa o rei. O guru verdadeiro não inventará nada. Tudo que ele diz está de acordo com as escrituras e os acaryas anteriores. Ele não vai lhe dar um mantra e dizer que você vai se tornar Deus dentro de seis meses. Essa não é a missão do guru. A missão do guru é convencer a todos a se tornarem devotos de Deus. Essa é a essência da missão do guru verdadeiro. De fato, ele não tem outra coisa a fazer. A quem quer que ele veja, ele diz: “Por favor, torne-se consciente de Deus.” Se de alguma forma ele fala em nome de Deus, tentando fazer com que todos se tornem devotos de Deus, ele é um guru genuíno.
Reporter: E o que o senhor me diz do sacerdote cristão?
Srila Prabhupada: Cristão, maometano, hindu – não importa. Se ele simplesmente fala em nome de Deus, ele é um guru. O Senhor Jesus Cristo, por exemplo. Ele doutrinava o povo, dizendo: “Tentem amar a Deus.” Qualquer um – não importa quem – seja ele hindu, muçulmano ou cristão, é um guru se convence às pessoas a amar Deus. Esse é o teste. O guru nunca diz: “Eu sou Deus,” ou “Eu vou transformá-lo em Deus.” O guru verdadeiro diz: “Eu sou um servo de Deus e vou transforma-lo em servo de Deus também.” Não importa como o guru esteja vestido. Como Caitanya Mahaprabhu dizia: “Quem quer que possa transmitir conhecimento sobre Krishna é um mestre espiritual.” O mestre espiritual genuíno simplesmente tenta fazer com que as pessoas se tornem devotos de Krishna, ou Deus. Ele não tem outra coisa a fazer.
Reporter: Mas os gurus ruins...
Srila Prabhupada: E que é um guru “ruim”?
Reporter: O guru ruim só quer dinheiro e fama.
Srila Prabhupada: Bem, se ele é ruim, como pode se tornar um guru? [Ri]. Como pode o ferro tornar-se ouro? Na verdade, o guru não pode ser ruim, pois se alguém é ruim não pode ser guru. Você não pode dizer “guru ruim.” Isso é uma contradição. O que você pode fazer é simplesmente tentar entender o que é um guru genuíno. A definição de guru genuíno é que ele só fala de Deus – isso é tudo. Se ele fica falando quaisquer disparates, então ele não é um guru. Um guru não pode ser ruim. Não é possível haver um guru ruim, assim como não pode haver um guru vermelho ou um guru branco. Guru significa “guru genuíno.” Tudo o que precisamos saber é que o guru genuíno só fala de Deus e tenta fazer com que as pessoas se tornem devotos de Deus. Se ele faz isso, ele é genuíno.
Reporter: Se eu quisesse ser iniciado em sua sociedade, que precisaria fazer?
Srila Prabhupada: Primeiramente, você teria que abandonar a vida sexual ilícita.
Reporter: Isso inclui todo tipo de vida sexual? O que é sexo ilícito?
Srila Prabhupada: Sexo ilícito é sexo feito fora do matrimônio. Os animais fazem sexo sem restrições, mas na sociedade humana há restrições. Em todos os países e em todas as religiões, há alguma espécie de restrição da vida sexual. Você também teria que abandonar todos os intoxicantes, incluindo chá, cigarros, álcool, maconha – qualquer coisa que intoxique.
Reporter: Mais alguma coisa?
Srila Prabhupada: Você teria também que deixar de comer carne, peixe e ovos. E teria que deixar de jogar. A menos que você deixasse essas quatro atividades pecaminosas, não poderia ser iniciado.
Reporter: Quanto seguidores o senhor tem em todo o mundo?
Srila Prabhupada: Para algo genuíno, não pode haver muitos seguidores. Para algo imundo, pode haver muitos seguidores. Mesmo assim, temos cerca de cinco mil discípulos iniciados.
Reporter: O movimento para a consciência de Krishna está crescendo constantemente?
Srila Prabhupada: Sim, está crescendo – mas devagar. Isto porque impomos muitas restrições. As pessoas não gostam de restrições.
Reporter: Onde o senhor tem mais seguidores?
Srila Prabhupada: Nos Estados Unidos, na Europa, na América do Sul e na Austrália. E, evidentemente, na Índia há milhões de pessoas que praticam a consciência de Krishna.
Reporter: O senhor poderia me falar sobre a meta de seu movimento?
Srila Prabhupada: O objetivo deste movimento para a consciência de Krishna é despertar a consciência original do homem. No momento atual, nossa consciência está sob designações. Há quem pense: “eu sou inglês,” e há quem pense: “eu sou americano.” Na verdade, não pertencemos a nenhuma dessas designações. Somos todos partes integrantes de Deus; essa é a nossa verdadeira identidade. Se todos chegassem a essa consciência, todos os problemas do mundo seriam resolvidos. Então chegaríamos a saber que somos unos, da mesma qualidade de alma espiritual. A mesma qualidade de alma espiritual está dentro de todos, embora possa estar revestidas de formas diferentes. Essa é a explicação dada no Bhagavad-gita.
Na verdade, a consciência de Krishna é um processo purificatório (sarvopadhi-vinirmuktam). Seu propósito é libertar as pessoas de todas as designações (tatparatvena nirmalam). Quando nossa consciência se purifica de todas as designações, as atividades que executamos com nossos sentidos purificados fazem-nos perfeitos. Eventualmente, chegamos à perfeição ideal da vida humana. A consciência de Krishna também é um processo muito simples. Não é necessário tornar-se um grande filósofo, cientista ou o que quer que seja. Precisamos apenas cantar o santo nome do senhor, entender que Sua personalidade, Seu nome e Suas qualidades são todos absolutos.
Consciência de Krishna é uma grande ciência. Infelizmente, nas universidades não há um departamento para essa ciência. Por isso, convidamos todos os homens sérios que estejam interessados no bem-estar da sociedade humana a entenderem este grande movimento e, se possível, participarem dele e cooperarem conosco. Os problemas do mundo serão resolvidos. Este também é o veredito do Bhagavad-gita, o mais importante e autorizado livro de conhecimento espiritual. Muitos de vocês já ouviram falar do Bhagavad-gita. Nosso movimento baseia-se nesse livro. Nosso movimento é aprovado pelos grandes acaryas da Índia. Ramanujacarya, Madhvacarya, o Senhor Caitanya, e tantos outros. Todos vocês são representantes de jornais; por isso, peço-lhes que tentem compreender este movimento na medida do possível para o bem de toda sociedade humana.
Reporter: O senhor acha que o seu movimento é o único caminho para conhecer Deus?
Srila Prabhupada: Sim.
Reporter: O que lhe dá esta certeza?
Srila Prabhupada: As autoridades e Deus, Krishna. Krishna diz:
sarva-dharman parityajya
man ekam saranam vraja
aham tvam sarva-papebhyo
moksaysyami ma sucah
“Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Hei de te libertar de todas as reações pecaminosas. Não temas”. [Bhagavad-gita 18.66]
Reporter: “Render-se” significa que alguém teria que deixar sua família?
Srila Prabhupada: Não.
Reporter: Mas suponha que eu estivesse para ser iniciado. Eu não teria que vir viver no templo?
Srila Prabhupada: Não necessariamente.
Reporter: Eu poderia permanecer em casa?
Srila Prabhupada: Sim claro.
Reporter: E o trabalho? Eu teria que abandonar o emprego?
Srila Prabhupada: Não, você simplesmente teria que abandonar seus maus hábitos e cantar o mantra Hare Krishna com essas contas – isso é tudo.
Reporter: Eu precisaria dar algum apoio financeiro?
Srila Prabhupada: Não, isso é algo voluntário. Se você der, será bom. Se você não der, não fará mal. Não dependemos da contribuição financeira de ninguém. Dependemos de Krishna.
Reporter: Eu não precisaria dar nenhum tostão?
Srila Prabhupada: Não.
Reporter: É essa uma das coisas principais que distingue o guru genuíno do guru farsante?
Srila Prabhupada: Sim, o guru genuíno não é um homem de negócios. Ele é um representante de Deus. Tudo o que Deus diz, o guru repete. Ele não fala de outra maneira.
Reporter: Mas o senhor esperaria encontrar um guru verdadeiro, digamos, viajando de Rolls Royce e hospedando-se numa suíte em hotel de primeira classe?
Srila Prabhupada: Às vezes as pessoas nos oferecem um cômodo em um hotel de primeira classe, mas geralmente nós ficamos em nossos próprios templos. Temos mais de cem templos em todo o mundo, de modo que não precisamos ir para um hotel.
Reporter: Eu não estava tentando fazer acusações. Estava apenas tentando ilustrar que julgo sua advertência válida. Há muitas pessoas interessadas em encontrar uma vida espiritual, e, ao mesmo tempo, há um punhado de pessoas interessadas em aproveitar-se do “negócio de guru.”
Srila Prabhupada: Você é de opinião que a vida espiritual significa aceitar voluntariamente a pobreza?
Reporter: Bem, eu não sei.
Srila Prabhupada: Um homem na miséria pode ser um materialista, e um homem abastado pode ser muito espiritual. Vida espiritual não depende nem de pobreza, nem de riqueza. Vida espiritual é algo transcendental. Considere Arjuna, por exemplo. Arjuna era membro da família real, todavia era um devoto puro de Deus. E no Bhagavad-gita [4.2] Sri Krishna diz: evam parampara-praptam imam rajarsayo viduh: “Esta ciência suprema foi recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos entenderam-na dessa maneira.” No passado, todos os reis que eram santos entenderam a ciência espiritual. Portanto, a vida espiritual não depende de nossa condição material. Qualquer que seja a condição material de uma pessoa – seja ela um rei ou um pobretão – ela pode ainda assim entender a vida espiritual. Geralmente as pessoas não sabem o que é vida espiritual, e por isso elas desnecessariamente nos criticam. Se eu lhe perguntasse o que é vida espiritual, como você responderia?
Reporter: Bem, eu não estou bem certo.
Srila Prabhupada: Embora você não saiba o que é vida espiritual, você ainda diz: “é assim” ou “é assado.” Mas, primeiramente, você deve saber o que é vida espiritual. A vida espiritual começa quando você entende que não é seu corpo. Este é o verdadeiro começo da vida espiritual.
Percebendo a diferença entre o seu eu e o seu corpo, você chega a entender que é uma alma espiritual (aham brahmasmi).
Reporter: O Senhor acha que este conhecimento deveria fazer parte da educação de todos?
Srila Prabhupada: Sim. Primeiramente, as pessoas devem aprender o que elas são. Elas são os corpos ou algo mais? Esse é o começo da educação. Atualmente todos são educados a pensar que são o corpo. Porque alguém acidentalmente obtém um corpo americano, ele pensa: “eu sou americano.” Isso é como pensar: “eu sou uma camisa vermelha,” só porque você está usando uma camisa vermelha. Você não é uma camisa vermelha; você é um ser humano. Analogamente, este corpo é como uma camisa ou um paletó sobre a pessoa verdadeira – a alma espiritual. Se nos reconhecemos simplesmente por nossa “camisa” ou “paletó” corpóreos, então não temos nenhuma educação espiritual.
Reporter: O Senhor acha que essa educação deve ser dada nas escolas?
Srila Prabhupada: Sim – em escolas, faculdades e universidades. Há uma imensa literatura sobre este assunto – um imenso fundo de conhecimento. O que é realmente necessário é que os líderes da sociedade se prontifiquem a compreender este movimento.
Reporter: Alguma vez o senhor recebeu alguém que anteriormente tivesse se envolvido com um guru farsante?
Srila Prabhupada: Sim, e muitos.
Reporter: As vidas espirituais deles foram de alguma forma estragadas pelos gurus farsantes?
Srila Prabhupada: Não, eles estavam genuinamente buscando algo espiritual, e essa era sua qualificação. Deus está dentro do coração de todos, e tão logo alguém O busque genuinamente, Ele ajuda essa pessoa a encontrar um guru genuíno.
Reporter: Alguma vez os gurus verdadeiros como o senhor tentaram dar um fim aos gurus falsos – isto é, pressioná-los para tira-los, por assim dizer, do negócio?
Srila Prabhupada: Não, este não é o meu objetivo. Eu comecei este movimento simplesmente cantando Hare Krishna. Em Nova Iorque, eu cantava em um local chamado Tompkins Square Park, e logo as pessoas começaram a vir a mim. Dessa maneira, o movimento para a consciência de Krishna gradualmente se desenvolveu. Muitos aceitaram e muitos não aceitaram. Os que são afortunados têm aceitado.
Reporter: Por acaso o senhor não sente que as pessoas são desconfiadas por causa da experiência que tiveram com gurus farsantes? Se o senhor fosse a um dentista charlatão e ele lhe quebrasse o dente, talvez o senhor tivesse dúvida quando quisesse ir a outro dentista.
Srila Prabhupada: Sim. Naturalmente, se você é enganado, você fica desconfiado. Mas isto não significa que se você foi enganado uma vez, vai ser enganado sempre. Você deve encontrar alguém que seja genuíno. Mas, para chegar à consciência de Krishna, você tem que ser ou muito afortunado, ou bem versado nesta ciência. Do Bhagavad-gita entendemos que os buscadores genuínos são pouquíssimos: manusyanam sahasresu kascid yatati siddhaye. Dentre muitos milhões de pessoas, talvez haja uma apenas que esteja interessada em vida espiritual. Geralmente, as pessoas estão interessadas em comer, dormir, acasalar-se e defender-se. Como, então, poderíamos esperar encontrar muitos seguidores? Não é difícil observar que as pessoas perderam seu interesse espiritual. E quase todos aqueles que estão realmente interessados estão sendo enganados por ditos espiritualistas. Você não pode julgar um movimento simplesmente pelo número de seus seguidores. Se um homem é genuíno, então o movimento é bem sucedido. Não é uma questão de quantidade, mas de qualidade.
Reporter: Pergunto-me se o senhor teria uma idéia de quantas pessoas têm sido enganadas por gurus farsantes?
Srila Prabhupada: Praticamente todos. [Ri.] Contar está fora de cogitação. Todos.
Reporter: Isso quer dizer milhares de pessoas, não é?
Srila Prabhupada: Milhões. Milhões de pessoas têm sido enganadas, porque elas querem ser enganadas. Deus é onisciente. Ele pode entender seus desejos. Ele está dentro de seu coração, e se você quer ser enganado, Deus lhe envia um enganador.
Reporter: É possível que todos atinjam o estágio de perfeição de que o senhor falou anteriormente.?
Srila Prabhupada: Dentro de um segundo. Qualquer um pode alcançar a perfeição dentro de um segundo – contanto que assim o deseje. A dificuldade é que ninguém está querendo. No Bhagavad-gita [18.66] Krishna diz: sarva-dharman parityajya man ekam saranam vraja: “Simplesmente rende-te a Mim.” Mas quem vai se render a Deus? Todos dizem: “Oh! Por que deveria eu render-me a Deus? Prefiro ser independente.” Se você simplesmente se rendesse, seria uma questão de segundos. Isso seria tudo. Mas ninguém quer isso, essa é a dificuldade.
Reporter: Quando o senhor diz que muitas pessoas querem ser enganadas, o senhor quer dizer que muitas pessoas querem continuar com seus prazeres mundanos e, ao mesmo tempo, cantando um mantra e segurando uma flor, atingir a vida espiritual? É isso que o senhor quer dizer com querer ser enganado?
Srila Prabhupada: Sim, é como um paciente pensar: “Continuarei com minha doença e, ao mesmo tempo, tornar-me-ei saudável.” Isso é contraditório. O primeiro requisito é que recebamos educação de vida espiritual. Vida espiritual não é algo que possa ser entendido através de uma conversa de alguns minutos. Há muitos livros de filosofia e teologia, mas as pessoas não estão interessadas neles. Essa é a dificuldade. Por exemplo, o Srimad-Bhagavatam é uma obra muito extensa. Se você tentar ler esse livro, talvez leve dias para entender uma única linha dele. O Bhagavatam descreve Deus, a Verdade Absoluta, mas as pessoas não estão interessadas. E se, por acaso, alguém fica um pouco interessado em vida espiritual, ele quer algo imediato e barato. Portanto, ele é enganado. Na verdade, a vida humana é feita para austeridade e penitência. È assim que funciona a civilização védica. Nos tempos védicos, eles treinavam os meninos como brahmacaris; não era permitida a vida sexual até os vinte e cinco anos de idade. Onde podemos encontrar esse tipo de educação atualmente? O brahmacari é um estudante que vive uma vida de completo celibato e obedece às ordens de seu guru na guru-kula [escola do mestre espiritual]. Agora, as escolas e faculdades estão ensinando sexo desde o começo, e meninos e meninas de doze ou treze anos estão fazendo sexo. Como poderão eles ter vida espiritual? Vida espiritual significa aceitar voluntariamente algumas austeridades para a realização de Deus. É por isso que insistimos para que nossos estudantes iniciados não façam sexo, não comam carne, não joguem, nem se intoxiquem. Sem essas restrições, qualquer “meditação de yoga” ou dita disciplina espiritual não pode ser genuína. Não passa de relação comercial entre os enganadores e os enganados.
Reporter: Muito Obrigado.
Srila Prabhupada: Hare Krishna.
“Com toda humildade possível”
Em fevereiro de 1936, em Bombaim, Índia, os membros de uma reputada sociedade religiosa, a Gaudiya Matha, ficaram espantados com as palavras poderosas e eloqüentes de um jovem membro em honra a seu mestre espiritual. Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Gosvami. Três décadas depois, aquele jovem orador viria a ser o mundialmente famoso fundador e mestre espiritual do movimento para a consciência de Krishna. A apresentação de Srila Prabhupada é declaração memorável sobre a importância do guru na vida espiritual.
saksad-dharitvena samasta-sastrair
uktas tatha bhavyata eva sadbhih
kintu prabhor yah priya eva tasya
vande guroh sri-caranaravindam
“Nas escrituras reveladas se declara que o mestre espiritual deve ser adorado como a Suprema Personalidade de Deus, e este preceito é obedecido pelos devotos puros do Senhor. O mestre espiritual é o servo mais confidencial do Senhor. Desse modo, ofereçamos nossas respeitosas reverências aos pés de lótus de nosso mestre espiritual.”
Cavalheiros, em nome dos membros da sede em Bombaim da Gaudiya Matha, permitam-me dar-lhes nossas boas vindas, porque os senhores juntaram-se a nós tão amavelmente na noite em que oferecemos congregacionalmente nossa homenagem aos pés de lótus do mestre mundial, Acaryadeva, que é o fundador dessa missão Gaudiya e é o presidente-acarya de Sri Sri Visva-vaisnava Rajasabha – refiro-me a meu eterno mestre divino, Paramahamsa Parivrajakacarya Sri Srimad Bhaktisiddhanta Sarasvati Gosvami Maharaja.
Há sessenta e dois anos, neste dia auspicioso, o Acaryadeva fez seu aparecimento em resposta ao apelo de Thakura Bhaktivinoda em Sri-ksetra Jagannatha-dhama em Puri.
Cavalheiros, o oferecimento dessa homenagem tal como foi programado para essa noite ao Acaryadeva não é um assunto sectário, pois quando falamos do princípio fundamental de gurudeva, ou acaryadeva, estamos falando de algo que é de aplicação universal. Está totalmente fora de cogitação discriminar meu guru do seu ou de qualquer um. Só há um guru, que aparece em uma infinidade de formas para ensinar aos senhores, a mim e a todos os demais.
O guru, ou Acaryadeva, como aprendemos com as escrituras fidedignas, transmite a mensagem do mundo absoluto, a morada transcendental da Personalidade Absoluta, onde tudo sem exceção serve à Verdade Absoluta. Temos ouvido tantas vezes: mahajano yena gatah sa panthah (“Trilhai o caminho pelo qual andou vosso acarya anterior”), porém mal e mal temos tentado entender o real significado deste sloka. Se estudarmos minuciosamente esta proposição, entenderemos que o mahajana é um só, e o caminho real para o mundo transcendental também é um só. No Mundaka Upanisad [1.2.12] se diz:
tad-vijnanartham sa gurum evabhigacchet
samit-panih srotriyam brahma-nistham
“A fim de aprender a ciência transcendental, devemos aproximar-nos do mestre espiritual fidedigno em sucessão discipular, que está fixo na Verdade Absoluta.”
De forma que aqui se prescreve que, a fim de recebermos esse conhecimento transcendental, devemos aproximar-nos do guru. Portanto, se a Verdade Absoluta é uma só, sobre o que julgamos não haver divergência de opinião, o guru também não pode ser dois. O Acaryadeva em cuja honra nos reunimos hoje à noite a fim de oferecer nossas humildes homenagens não é o guru de uma instituição sectária ou um dos muitos diferentes expoentes da verdade. Pelo contrário, ele é o jagad-guru, ou o guru de todos nós; a única diferença é que alguns lhe obedecem sinceramente, ao passo que outros não lhe obedecem diretamente.
No Srimad-Bhagavatam [11.17.27] se diz:
acaryam mam vijaniyan
navamanyeta karhicit
na martya-buddhyasuyeta
sarva-devamayo guruh
“Deve-se entender que o mestre espiritual é tão bom como Eu”, disse o Bem-aventurado Senhor. “Ninguém deve ter inveja do mestre espiritual ou pensar que ele é um homem comum, porque o mestre espiritual é o somatório de todos os semideuses.” Isto é, o acarya é identificado com o próprio Deus. Ele nada tem a ver com os afazeres deste mundo mortal. Ele não desce aqui para imiscuir-se em assuntos de necessidades temporárias, mas para salvar as almas condicionadas caídas – as almas, ou entidades, que vieram ao mundo material com o interesse de desfrutar através da mente e dos cinco órgãos de percepção dos sentidos. Ele aparece ante nós para revelar a luz dos Vedas e outorgar-nos as bênçãos da liberdade completa, pela qual devemos ansiar a cada passo da jornada de nossa vida.
O conhecimento transcendental dos Vedas foi primeiramente comunicado por Deus a Brahma, o criador deste universo particular. De Brahma o conhecimento desceu para Narada, de Narada para Vyasadeva, de Vyasadeva para Madhva, e, neste processo de sucessão discipular, o conhecimento transcendental foi transmitido por um discípulo a outro até chegar ao Senhor Gauranga, Sri Krishna Caitanya, que representou o papel de discípulo e sucessor de Sri Isvara Puri. O Atual Acaryadeva é o décimo representante discipular de Sri Rupa Gosvami, o representante original do Senhor Caitanya que pregou esta tradição transcendental em sua plenitude. O conhecimento que recebemos de nosso gurudeva não é diferente daquele comunicado pelo próprio Deus e pela sucessão dos acaryas na linha preceptoral de Brahma. Adoramos este dia auspicioso como Sri Vyasa-puja-tithi, porque o acarya é o representante vivo de Vyasadeva, o divino compilador dos Vedas, Puranas, Bhagavad-gita, Mahabharatha e Srimad-Bhagavatam.
Aquele que interpreta o som divino, ou sabda-brahma, através de sua imperfeita percepção dos sentidos não pode ser um guru verdadeiro, porque, na ausência do devido treinamento disciplinar sob o acarya fidedigno, o intérprete certamente diverge de Vyasadeva (como acontece com os Mayavadis). Srila Vyasadeva é a autoridade primordial da revelação védica, e por isso tal intérprete irrelevante não pode ser aceito como o guru, ou acarya, por mais equipado que esteja com todas as aquisições de conhecimento material. Como se diz no Padma Purana:
sampradaya-vihina ye
mantras te nisphala matah
“A menos que sejas iniciado por um mestre espiritual fidedigno na sucessão discipular, o mantra que tiveres recebido não terá nenhum efeito.”
Por outro lado, aquele que recebeu o conhecimento transcendental através da recepção auditiva de mestre fidedigno na corrente discipular, e que tem consideração sincera pelo verdadeiro acarya, deve necessariamente ser iluminado com o conhecimento revelado dos Vedas. Mas, este conhecimento é permanentemente vedado para a abordagem cognitiva dos empíricos. Como se diz no Svetasvatara Upanisad [6.23]:
yasya deve para bhaktir
yatha deve tatha gurau
tasyaite kathita hy arthah
prakasante mahatmanah
“Apenas àquelas grandes almas que simultaneamente têm fé implícita tanto no Senhor quanto no mestre espiritual é que todos os significados do conhecimento védico são automaticamente revelados.”
Cavalheiros, nosso conhecimento é tão pobre, nossos sentidos são tão imperfeitos e nossas fontes são tão limitadas que não é possível termos um pouco sequer de conhecimento da região absoluta sem nos rendermos aos pés de lótus de Sri Vyasadeva ou seu representante fidedigno. A cada momento estamos sendo enganados pelo conhecimento de nossa percepção direta. Tudo não passa de criação ou invenção da mente, que é sempre enganadora, mutante e oscilante. Nada podemos conhecer a respeito da região transcendental através de nosso método limitado e pervertido de observação e experimentação. Mas todos nós podemos ouvir com ávida atenção o som transcendental transmitido daquela região para esta através do meio inadulterado de Sri Gurudeva ou Sri Vyasadeva. Portanto, cavalheiros devemos nos render hoje aos pés do representante de Sri Vyasadeva para eliminarmos todas as nossas divergências geradas por nossa atitude insubmissa. Dessa maneira, está dito no Sri Gita [4.34]:
tad viddhi pranipatena
pariprasnena sevaya
upadeksyanti te jnanam
jnaninas tattva darsinah
“Aproxima-te apenas do sábio e fidedigno mestre espiritual. Primeiramente rende-te a ele e tenta entendê-lo através de indagações e serviço. Esse sábio mestre espiritual iluminar-te-á com conhecimento transcendental, pois ele já conhece a Verdade Absoluta.”
Para recebermos conhecimento transcendental, devemos nos render completamente ao verdadeiro acarya em espírito de indagação e serviço ardentes. Real execução de serviço ao Absoluto sob a orientação do acarya é o único veículo pelo qual podemos assimilar o conhecimento transcendental. O encontro de hoje para oferecermos nossos humildes serviços e homenagens aos pés do Acaryadeva possibilitará que sejamos agraciados com a capacidade de assimilar o conhecimento transcendental tão bondosamente transmitido por ele a todas as pessoas, sem distinção.
Cavalheiros, somos todos mais ou menos orgulhosos de nossa antiga civilização indiana, mas de fato, não conhecemos a verdadeira natureza dessa civilização. Não podemos ter orgulho de nossa civilização material passada, que agora está milhares de vezes mais avançada que em tempos anteriores. Diz-se que estamos atravessando a era da escuridão, a Kali-yuga. Que é essa escuridão? A escuridão não pode ser devida ao atraso em conhecimento material, porque atualmente temo-lo em maior grau do que antigamente. Se nós mesmos não temos, pelo menos nossos vizinhos o têm em bastante quantidade. Portanto, devemos concluir que a escuridão da atual era não é devida à falta de avanço material, mas sim ao fato de que perdemos a base de nosso avanço espiritual, que é a necessidade primordial da vida humana e o critério para o tipo mais elevado de civilização humana. Atirar bombas de aviões não significa que a civilização avançou desde a primitiva e incivilizada prática de jogar grandes pedras sobre as cabeças dos inimigos dos topos das montanhas. Com certeza, o aprimoramento da arte de matar nossos vizinhos por meio de metralhadoras e gases venenosos não indica avanço sobre o barbarismo primitivo, que se orgulhava de sua arte de matar com arcos e flechas. Tampouco o desenvolvimento de um sentido de abundante egoísmo mostra ser algo superior a mero animalismo intelectual. A verdadeira civilização humana é muito diferente de todos esses estados, e por isso no Katha Upanisad [1.3.14] encontramos o enfático apelo:
uttisthata jagrata
prapya varan nibodhata
ksurasya dhara nisita duratyaya
durgam pathas tat kavayo vadanti
“Por favor, despertai e tentai entender a dádiva que agora tendes sob esta forma humana de vida. O caminho da realização espiritual é muito difícil; é afiado como o fio da navalha. Esta é a opinião de eruditos acadêmicos transcendentais.”
Assim, enquanto outros estavam ainda no ventre do esquecimento histórico, os sábios da Índia já haviam desenvolvido um tipo diferente de civilização, que capacitou-os a se conhecerem a eles mesmos. Eles haviam descoberto que não são absolutamente entidades materiais, mas que são, isso sim, servos espirituais, permanentes e indestrutíveis do absoluto. Mas, por termos escolhido, em desabono de melhor julgamento, identificar-nos completamente com esta existência material, nossos sofrimentos têm se multiplicado de acordo com a inexorável lei de nascimento e morte, com suas conseqüentes doenças e ansiedades. Esses sofrimentos não poderão ser realmente mitigados por nenhum acúmulo de felicidade material, porque matéria e espírito são elementos completamente diferentes. É como se alguém tirasse uma animal aquático da água e o pusesse na terra, fornecendo-lhe toda espécie de felicidade possível em terra. Os terríveis sofrimentos do animal não poderão ser aliviados a não ser que ele seja tirado do ambiente estranho a ele. Espírito e matéria são coisas completamente contraditórias. Todos nós somos entidades espirituais. Não poderemos ter felicidade perfeita, que é o nosso direito natural, por mais que nos imiscuamos nos assuntos de coisas mundanas. Só obteremos felicidade perfeita quando formos restabelecidos em nosso estado natural de existência espiritual. Essa é a mensagem do Gita, essa é a mensagem dos Vedas e dos Puranas, e essa é a mensagem de todos os verdadeiros acaryas, inclusive de nosso atual Acaryadeva, na linha do Senhor Caitanya.
Cavalheiros, embora de modo tão imperfeito fomos capacitados pela graça dele a compreender as sublimes mensagens de nosso Acaryadeva, Om Visnupada Paramahansa Parivrajakacarya Sri Srimad Bhaktisiddhanta Sarasvati Gosvami Maharaja, devemos, contudo, admitir termos compreendido definitivamente que a mensagem divina de seus lábios de lótus é coisa inata para a humanidade sofredora. Todos nós deveríamos ouvi-lo pacientemente. Se ouvirmos o som transcendental sem descabida oposição, certamente a misericórdia cairá sobre nós. A mensagem do Acaryadeva é para levar-nos de volta a nosso lar original, de volta a Deus. Repito, portanto, que deveríamos ouvi-lo pacientemente, segui-lo na medida de nossa convicção e prostrar-nos a seus pés de lótus para nos livrarmos de nossa atual e imotivada falta de vontade de servir ao Absoluto e a todas as almas.
Do Gita aprendemos que mesmo após a destruição do corpo, a atma, ou a alma, não é destruída; ela é sempre a mesma, sempre nova e viçosa. O fogo não pode queimá-la, a água não pode dissolvê-la, o ar não pode secá-la e a espada não pode matá-la. Ela é duradoura e eterna, e isso também é confirmado no Srimad-Bhagavatam [10.84.13]:
yasyatma-buddhih kunape tri-dhatuke
sva-dhih kalatradisu bhauma ijya-dhih
yat-tirtha-buddhih salile na karhicij
janesv abhijnesu sa eva go-kharah
“Qualquer um que aceite esta bolsa corpórea de três elementos [bilis, muco e ar] como sendo o seu eu, que tenha afinidade por um relacionamento íntimo com sua esposa e filhos, que considere sua terra adorável, que tome banho nas águas dos locais sagrados de peregrinação mas nunca tira proveito daquelas pessoas que têm conhecimento verdadeiro – não passa de um asno ou uma vaca.”
Infelizmente, nos dias que correm todos nós nos convertemos em tolos por termos negligenciado nosso verdadeiro conforto e identificado a gaiola material conosco mesmos. Temos concentrado todas as nossas energias na manutenção secundária da gaiola material em benefício da própria gaiola, negligenciando completamente a alma, cativa nesta gaiola. A gaiola destina-se à destruição do pássaro; o pássaro não se destina ao bem-estar da gaiola. Meditemos, portanto, profundamente sobre isso. Todas as nossas atividades estão agora voltadas para a manutenção da gaiola, e o máximo que fazemos é tentar dar algum alimento à mente através da arte e da literatura. Mas não sabemos que esta mente também é material sob aparência mais sutil. Isso é declarado no Gita [7.4]:
bhumir apo ‘nalo vayuh
kham mano budhir eva ca
ahankara itiyam me
bhinna prakrtir astadha
“Terra, fogo, água, ar, céu, inteligência, mente e ego são todos Minhas energias separadas.”
Mal temos tentado dar alimento à alma, que é distinta do corpo e da mente; portanto, estamos todos cometendo suicídio no próprio sentido do termo. A mensagem do Acaryadeva é para dar-nos um aviso que nos faça parar com tais tentativas erradas. Prostremo-nos, portanto, a seus pés de lótus gratos pela imaculada misericórdia e bondade que ele nos outorgou.
Cavalheiros, não pensem um instante sequer que meu Gurudeva quer suspender completamente a civilização material – um feito impossível. Mas aprendamos com ele a arte de fazer o melhor uso de um mau negócio, e entendamos a importância desta vida humana, que é apta para o mais elevado desenvolvimento da consciência verdadeira. O melhor uso desta preciosa vida humana não deve ser negligenciado. Como se diz no Srimad-Bhagavatam [11.9.29]:
labdhva sudurlabham idam bahu-sambhavante
manusyam arthadam anityam apiha dhirah
turnam yateta na pated anumrtyu yavan
nihsreyasaya visayah khalu sarvatah syat
“Esta forma humana de vida é obtida após muitos e muitos nascimentos, e, apesar de não ser permanente, pode oferecer os mais elevados benefícios. Por isso, um homem sóbrio e inteligente deve imediatamente tentar cumprir sua missão e alcançar o benefício máximo da vida antes que ocorra outra morte. Ele deve evitar o gozo dos sentidos, a que tem acesso em todas as circunstâncias.”
Não abusemos desta vida humana na vã busca de desfrute material, ou, em outras palavras, em troca de apenas comer, dormir, temer e ter atividades sensórias. A mensagem do Acaryadeva é transmitida pelas palavras de Sri Rupa Gosvami [Bhakti-rasamrta-sindhu i.2.255,256]:
anasaktasya visayan
yatharham upayunjatah
nirbandhah krsna-sambandhe
yuktam vairagyam ucyate
prapancikataya buddhya
hari-sambandhi-vastunah
mumuksubhih parityago
vairagyam phalgu kathyate
“Diz-se que uma pessoa está situada totalmente na ordem de vida renunciada se ela vive de acordo com a consciência de Krishna. Ela não deve ter apego ao gozo dos sentidos e deve aceitar apenas o que é necessário para a manutenção do corpo. Por outro lado, aquele que renuncia às coisas que poderiam ser usadas no serviço a Krishna, com o pretexto de que tais coisas são materiais, não pratica renúncia completa.”
O significado desses slokas só pode ser compreendido quando desenvolvemos completamente a parte racional de nossa vida, e não a parte animal. Sentados aos pés de lótus do Acaryadeva, tentemos entender desta fonte transcendental de conhecimento o que nós somos, que é o universo, que é Deus e qual é o nosso relacionamento com Ele. A mensagem do Senhor Caitanya é a mensagem para as entidades vivas e a mensagem do mundo vivo. O Senhor Caitanya não Se importou com a elevação deste mundo morto, que é adequadamente chamado Martyaloka, o mundo onde tudo está destinado a morrer. Ele apareceu perante nós há quatrocentos e cinqüenta anos para nos falar algo do universo transcendental, onde tudo é permanente e tudo é para o serviço ao absoluto. Porém, recentemente o Senhor Caitanya tem sido mal representado por algumas pessoas inescrupulosas, e a mais elevada filosofia do Senhor tem sido interpretada erradamente como sendo o culto do tipo mais baixo de sociedade. Temos a satisfação de anunciar hoje à noite que nosso Acaryadeva, com sua bondade costumeira, salvou-nos desse tipo horrível de degradação, e por isso prostramo-nos a seus pés de lótus com toda a humildade.
Cavalheiros, tem sido uma das manias da sociedade culta (ou inculta) dos dias atuais atribuir à Personalidade de Deus aspectos meramente impessoais e estultificá-lO, afirmando que Ele não tem sentidos, nem forma, nem atividade, nem cabeça, nem pernas, nem prazer. Este tem sido também o prazer dos eruditos modernos devido a sua completa falta de apropriada orientação e verdadeira introspecção do reino espiritual. Todos esses empiristas pensam da mesma forma: todas as coisas desfrutáveis devem ser monopolizadas pela sociedade humana, ou apenas por uma classe particular, e o Deus impessoal deve ser um mero fornecedor de encomendas para suas façanhas caprichosas. Sentimo-nos felizes por termos sido livrados desta horrível espécie de doença pela misericórdia de Sua Divina Graça Paramahamsa Parivrajakacarya Bhaktisiddhanta Sarasvati Gosvami Maharaja. É ele quem abre nossos olhos, nosso pai eterno, nosso preceptor eterno e nosso guia eterno. Prostremo-nos, portanto, a seus pés de lótus neste dia auspicioso.
Cavalheiros, embora sejamos como crianças ignorantes no conhecimento da Transcendência, mesmo assim Sua Divina Graça, meu Gurudeva, acendeu o pequeno fogo dentro de nós para dissipar a invencível escuridão do conhecimento empírico. Agora estamos tão fixos no lado seguro que nenhuma quantidade de argumentos filosóficos apresentados pelas escolas empíricas de pensamento poderá nos desviar um milímetro sequer da posição de nossa eterna dependência dos pés de lótus de Sua Divina Graça. Além disso, estamos preparados para desafiar os mais eruditos acadêmicos da escola Mayavada e provar que apenas a Personalidade de Deus e Suas atividades transcendentais em Goloka constituem a sublime informação dos Vedas. Há indicações explícitas disso no Chandogya Upanisad [8.13.1]:
syamac chavalam prapadye
savalac chyamam prapadye
“Para receber a misericórdia de Krishna, eu me rendo a Sua energia (Radha), e para receber a misericórdia de Sua energia, eu me rendo a Krishna.” Também no Rg Veda [1.2.22.20]:
tad visnoh paramam padam
sada pasyanti surayah
diviva caksur atatam
visnor yat paramam padam
“Os pés de lótus do Senhor Visnu são o objetivo supremo de todos os semideuses. Esses pés de lótus do Senhor são tão luminosos como o sol no céu.”
A verdade simples tão vividamente explicada no Gita, que é a lição central dos Vedas, não é entendida, ou nem mesmo suspeitada, pelos mais poderosos eruditos das escolas empíricas. Aqui está o segredo de Sri Vyasa-puja. Quando meditamos nos passatempos transcendentais da Divindade Absoluta, temos orgulho de sentir que somos Seus servos eternos, e nos tornamos jubilantes e dançamos de alegria. Toda a glória a meu mestre divino! pois foi ele que, por seu incessante fluxo de misericórdia, despertou dentro de nós tal movimento de existência eterna. Prostremo-nos a seus pés de lótus.
Cavalheiros, se ele não tivesse aparecido diante de nós para nos salvar da escravidão desta grosseira ilusão mundana, certamente teríamos permanecido desamparados por vidas e eras na escuridão do cativeiro. Se ele não tivesse aparecido diante de nós, não teríamos sido capazes de entender a verdade eterna do ensinamento sublime do Senhor Caitanya. Se ele não tivesse aparecido diante de nós, não poderíamos ter sido capazes de conhecer o significado do primeiro sloka do Brahma-samhita:
isvarah paramah krsnah
sac-cid-ananda-vigrahah
anadir adir govindah
sarva-karana-karanam
“Krishna, que é conhecido como Govinda, é a Divindade Suprema. Ele tem um corpo eterno, bem-aventurado, espiritual. Ele é a origem de tudo. Ele não tem outra origem, e é a causa primordial de todas as causas.”
Pessoalmente, não tenho esperança de executar algum serviço direto nos vindouros milhões de nascimentos da jornada de minha vida, mas confio em que algum dia serei salvo deste atoleiro de ilusão em que estou tão profundamente afundado atualmente. Por isso, deixai-me orar com toda a minha sinceridade aos pés de lótus de meu mestre divino para que me permita sofrer o quinhão a mim destinado devido a meu malfeitos passados, mas que eu possa guardar na memória que não passo de insignificante servo da Todo-poderosa Divindade Absoluta, compreendida através da firme misericórdia de meu mestre divino. Deixai-me, portanto, prostrar-me a seus pés de lótus com toda a humildade possível.
Leia mais em:
http://gratisilumminacao.blogspot.com/
*
http://auto-realizacao.blogspot.com/
*
http://gratisprazerinfinito.blogspot.com/
*
http://gratissolucoes.blogspot.com/
*
http://www.harekrishna.com.br/
*
http://gratiskrishna.blogspot.com/
*
http://aulavedica.blogspot.com/
*
http://gratissolucoes3.blogspot.com/
*
http://gratisdietanatural.blogspot.com/
*
http://nayanadas.blogspot.com/
*
http://ograndesabio.blogspot.com/
*
http://www.flogao.com.br/harekrishna
*
http://livrogita.blogspot.com
*
III Examinando as bases Culturais
*
O maior impersonalista da
Índia meditava no Senhor Krishna e
no Bhagavad-gita
Através dos séculos, os maiores filósofos e espiritualistas da Índia têm louvado o Bhagavad-gita como a essência pura da eterna sabedoria védica. Sankara, o célebre filósofo do século VI, em suas “Meditações sobre o Bhagavad-gita” versificados abaixo, glorifica o Gita e seu divino autor, Sri Krishna. Embora Sankara seja célebre universalmente como impersonalista, aqui revela sua devoção pela forma pessoal e original de Deus, O Senhor Sri Krishna. E Srila Prabhupada o explica.
- 1 –
Ó Bhagavad-gita,
Através de Vossos dezoito capítulos
Inundais o homem
Com o néctar imortal
Da sabedoria do Absoluto.
Ó bendito Gita,
Através de Vós, o próprio Senhor Krishna
Iluminou Arjuna.
Depois disso, o antigo sábio Vyasa
Incluiu-Vos no Mahabharata.
Ó mãe amorosa,
Destruidora do renascimento do homem
Na escuridão deste mundo mortal,
Em Vós eu medito.
- 2 –
Saudações a ti, ó Vyasa,
Tens poderoso intelecto
E teus olhos
São grandes como as pétalas
Do lótus totalmente florido.
Foste tu
A acender esta luz de sabedoria
Enchendo-a com o óleo
Do Mahabharata
SIGNIFICADO
Se analisamos do ponto de vista materialista, Sripada Sankaracarya era um impersonalista. Mas ele jamais negou a forma espiritual conhecida como sac-cid-ananda-vigraha, ou a eterna e bem-aventurada forma de conhecimento que existia antes da criação. Quando ele falava do Brahman Supremo como sendo impessoal, ele queria dizer que a forma sac-cid-ananda do Senhor não devia ser confundida com a concepção material de personalidade. Logo no começo de seu comentário sobre o Gita, ele assevera que Narayana, o Senhor Supremo, é transcendental à criação material. O senhor existia antes da criação como a personalidade transcendental, e Ele nada tem a ver com a personalidade material. O Senhor Krishna é a própria Personalidade Suprema, e Ele não tem ligação com um corpo material. Ele desce em Sua forma espiritual eterna, mas os tolos equivocam-se, pensando que Seu corpo é como o nosso. A pregação do impersonalismo de Sankara destina-se especialmente a ensinar aos tolos que consideram Krishna um homem comum composto de matéria.
Ninguém se interessaria por ler o Gita se ele tivesse sido falado por um homem material, e certamente Vyasadeva não teria se dado ao incômodo de incorporá-lo à história do Mahabharata. De acordo com os versos acima, o Mahabharata é a história do mundo antigo, e Vyasadeva é o escritor desta grande epopéia. O Bhagavad-gita é idêntico a Krishna; e porque Krishna é a Suprema Personalidade de Deus Absoluta, não há diferença entre Krishna e Suas palavras. Portanto, o Bhagavad-gita é tão adorável quanto o próprio Senhor Krishna, sendo ambos absolutos. Aquele que ouve o Bhagavad-gita “como ele é” na verdade ouve as palavras diretamente dos lábios de lótus do Senhor. Porém, pessoas desventuradas dizem que o Gita é antiquado demais para o homem moderno, que quer descobrir Deus pela especulação ou pela meditação.
- 3 –
Eu Vos saúdo, ó Krishna
Ó Vós que sois o refúgio
Da Laksmi nascida do oceano
E de todos que se refugiam
A Vossos pés de lótus.
Sois de fato
A árvore que satisfaz os desejos
De vosso devoto.
Uma de Vossas mãos carrega um bastão
Para conduzir vacas,
E Vossa outra mão está erguida-
O polegar tocando a ponta
De Vosso dedo indicador,
Indicando conhecimento divino.
Saudações a Vós, ó Senhor Supremo,
Pois sois o ordenhador
Da ambrósia do Gita.
SIGNIFICADO
Sripada Sankaracarya diz explicitamente: “Seus tolos! Adorem Govinda e esse Bhagavad-gita falado pelo próprio Narayana,” todavia os tolos levam adiante sua pesquisa para descobrir Narayana; conseqüentemente, eles são miseráveis, e perdem seu tempo em troca de nada. Narayana jamais é miserável nem daridra; pelo contrário, Ele é adorado pela deusa da fortuna, Laksmi, como também por todas as entidades vivas. Sankara declarava ser “Brahman”, mas ele admite que Narayana, ou Krishna, é a Suprema Personalidade que está além da criação material. Ele oferece seus respeitos a Krishna como o Brahman Supremo, ou Parabrahman, porque Ele (Krishna) é adorável por todos. Apenas os tolos e inimigos de Krishna, que não podem entender o que é o Bhagavad-gita (embora façam comentários sobre ele), dizem: “Não é ao Krishna pessoal que temos que nos render completamente, mas sim ao Eterno não-nascido e sem princípio que fala através de Krishna.” Os tolos entram precipitadamente onde os anjos temem pisar. Enquanto Sankara, o maior dos impersonalistas, oferece seus devidos respeitos a Krishna e a Seu livro o Bhagavad-gita, os tolos dizem que “não precisamos nos render ao Krishna pessoal.” Tais pessoas não iluminadas não sabem que Krishna é absoluto e que não há diferença entre Seu interior e Seu exterior. A diferença de interior e exterior é experimentada no mundo material, dual. No mundo absoluto, não há tal diferença, porque no absoluto tudo é espiritual (sac-cid-ananda), e Narayana, ou Krishna, pertence ao mundo absoluto. No mundo absoluto há apenas a personalidade real, e não há distinção entre corpo e alma.
- 4 –
Os Upanisads
São como um rebanho de vacas,
O Senhor Krishna, filho de um vaqueiro,
É seu ordenhador,
Arjuna é o bezerro,
O néctar supremo do Gita
É o leite,
E o sábio
De intelecto purificado
É o bebedor.
SIGNIFICADO
A menos que se entenda a variedade espiritual, não se pode entender os passatempos transcendentais do Senhor. No Brahma-samhita se diz que o nome, a forma, a qualidade, os passatempos, o séqüito e a parafernália de Krishna são todos ananda-cinmaya-rasa – em suma, tudo em Sua associação transcendental é da mesma composição de bem-aventurança, conhecimento e eternidade espirituais. Não há fim para Seu nome, forma, etc., ao contrário do mundo material, onde todas as coisas têm seu fim. Como se declara no Bhagavad-gita, somente os tolos O menosprezam; ao passo que é Sankara, o maior impersonalista, que O adora, e a Suas vacas e passatempos como o filho de Vasudeva e o prazer de Devaki.
- 5 –
A Vós, filho de Vasudeva,
Destruidor dos demônios Kamsa e Canura,
A Vós, bem-aventurança suprema de Mãe Devaki,
A Vós, guru do universo,
Mestre dos mundos,
A Vós, ó Krishna, eu saúdo.
SIGNIFICADO
Sankara O descreve como o filho de Vasudeva e Devaki. Ele quer dizer com isso que está adorando um homem material comum? Ele adora Krishna porque sabe que o nascimento e as atividades de Krishna são todos sobrenaturais. Como se declara no Bhagavad-gita [4.9], o nascimento e as atividades de Krishna são misteriosos e transcendentais, e por isso somente os devotos de Krishna podem conhecê-los perfeitamente. Sankara não era tolo assim que aceitasse Krishna como um homem comum e, ao mesmo tempo, Lhe oferecesse todas as reverências devocionais, conhecendo-O como o filho de Devaki e Vasudeva. Segundo o Bhagavad-gita, apenas por conhecer o nascimento e as atividades transcendentais de Krishna pode-se alcançar a liberação, adquirindo uma forma espiritual como a de Krishna. Há cinco tipos diferentes de liberação. Aquele que se funde nas auras espirituais de Krishna, conhecidas como a refulgência do Brahman impessoal, não desenvolve completamente o seu corpo espiritual. Mas aquele que desenvolve completamente sua existência espiritual torna-se um companheiro de Narayana ou Krishna em diferentes moradas espirituais. Aquele que entra na morada de Narayana desenvolve uma forma espiritual exatamente como a de Narayana (de quatro braços), e aquele que entra na morada espiritual mais elevada de Krishna, conhecida como Goloka Vrndavana, desenvolve uma forma espiritual de duas mãos como Krishna. Sankara, como uma encarnação do Senhor Siva, conhece todas essas existências espirituais, mas ele não as revelou para seus então seguidores budistas, porque era-lhes impossível conhecer o mundo espiritual. O Senhor Budha pregou que o vazio é a meta última; como, então, poderiam seus seguidores entender a variedade espiritual? Por isso, Sankara disse: brahma satyam jagan mithya, ou, a variedade material é falsa, mas a variedade espiritual é verdadeira. No Padma Purana, o Senhor Siva admite que teve que pregar a filosofia de maya, ou ilusão, na kali-yuga como outra edição da filosofia do “vazio” de Budha. Ele teve que fazer isso pela ordem do Senhor por motivos específicos. Ele revelou sua verdadeira mentalidade, contudo, recomendando que as pessoas adorem Krishna, pois ninguém pode se salvar simplesmente através de especulações mentais compostas de malabarismos de palavras e manobras gramaticais. Sankara instrui ainda:
bhaja govindam bhaja govindam
bhaja govindam mudha-mate
samprapte sannihite kale
na hi na hi raksati dukrn-karane
“Seus intelectuais tolos, adorem Govinda, adorem Govinda, adorem Govinda, Seu conhecimento gramatical e malabarismos de palavras não os salvarão no momento da morte.”
- 6 –
Daquele terrificante rio
Do campo de batalha de Kuruksetra
Sobre o qual os Pandavas cruzaram vitoriosamente,
Bhisma e Drona eram como as elevadas praias,
Jayadratha como a água do rio,
O rei de Gandhara, o nenúfar azul,
Salya, o tubarão, Krpa, a corrente,
Karna, as poderosas ondas,
Asvatthama e Vikarna os terríveis jacarés,
E Duryodhana, o próprio torvelinho –
Mas vós, ó Krishna, éreis o barqueiro!
- 7 –
Que o lótus imaculado do Mahabharata
Que cresce nas águas
Das palavras de Vyasa
E do qual o Bhagavad-gita
É a fragrância irresistivelmente doce
E seus contos de heróis
As pétalas desabrochadas
Totalmente abertas pela conversa do Senhor Hari,
Que destrói os pecados
De Kali-yuga,
E sobre o qual diariamente luzem
As almas que buscam o néctar,
Como muitas abelhas
Apinhando-se alegremente –
Que este lótus do Mahabharata
Conceda-nos o mais elevado benefício.
- 8 –
Saudações ao Senhor Krishna
A corporificação da bem-aventurança suprema,
Por cuja graça e compaixão
O mudo torna-se eloqüente
E o aleijado escala montanhas –
A Ele eu saúdo!
SIGNIFICADO
Os tolos seguidores de especuladores tolos não podem entender o sentido de se oferecer saudações ao Senhor Krishna, a corporificação da bem-aventurança. O próprio Sankara ofereceu suas saudações ao Senhor Krishna para que alguns de seus seguidores inteligentes entendessem o fato real pelo exemplo estabelecido por ele, seu grande mestre, Sankara, a encarnação do Senhor Siva. Mas há muitos seguidores obstinados de Sankara que se negam a oferecer suas saudações ao Senhor Krishna, e, aos invés, desencaminham pessoas inocentes, injetando materialismo no Bhagavad-gita e confundindo leitores inocentes com seus comentários, e, conseqüentemente, os leitores nunca têm a oportunidade de serem abençoados oferecendo saudações ao Senhor Krishna, a causa de todas as causas. O maior desserviço à humanidade é mantê-la na escuridão quanto à ciência de Krishna, ou consciência de Krishna, distorcendo o sentido do Gita.
- 9 –
Saudações a esse supremo ser brilhante
A quem o criador Brahma, Varuna,
Indra, Rudra, Marut e todos os seres divinos
Louvam com hinos,
Cujas glórias são cantadas
Pelos versos dos Vedas,
A quem os cantores do Sama exaltam
E de cujas glórias os Upanisads
Proclamam em coro completo,
A quem os yogis vêem
Com suas mentes absortas
Em meditação perfeita,
E de quem todas as hostes
De deuses e demônios
Não conhecem as limitações.
Para Ele, o Deus Supremo, Krishna, sejam todas as saudações –
A Ele saudamos! A Ele saudamos! A Ele saudamos!
SIGNIFICADO
Com a recitação do nono verso de sua meditação, citado do Srimad-Bhagavatam, Sankara indica que o Senhor Krishna é adorável por cada um e por todos, incluindo ele próprio. Ele dá sugestões a materialistas, impersonalistas, especuladores mentais, filósofos do “vazio” e todos os outros candidatos sujeitos ao castigo das misérias materiais: ofereçam somente saudações ao Senhor Krishna, que é adorado pelo Senhor Brahma, Siva, Varuna, Indra e todos os outros semideuses. Ele não menciona, contudo, o nome de Visnu, porque Visnu é idêntico a Krishna. Os Vedas e os Upanisads destinam-se ao entendimento do processo através do qual podemos nos render a Krishna. Os yogis tentam vê-lO (a Krishna) dentro deles mesmos através da meditação. Em outras palavras, é a todos os semideuses e demônios que não sabem onde está o fim último que Sankara ensina, e ele especialmente instrui os demônios e os tolos a oferecerem saudações a Krishna e a Suas palavras, o bhagavad-gita, seguindo seus passos. Apenas através de tais atos é que os demônios serão beneficiados, e não desencaminhando seus seguidores ingênuos mediante supostas especulações mentais ou meditações encenadas. Sankara diretamente oferece saudações a Krishna, como que para mostrar aos tolos, que estão buscando a luz, que aqui há luz como do sol. Mas os demônios caídos são como corujas que não querem abrir seus olhos por causa de seu temor à própria luz do sol. Essas corujas jamais abrirão seus olhos para ver a sublime luz de Krishna e Suas palavras, o Bhagavad-gita. Contudo, eles hão de comentar sobre o Gita com seus olhos cerrados de coruja para desencaminhar seus desventurados leitores e seguidores. Sankara, entretanto, revela a luz para seus seguidores menos inteligentes e mostra que o Bhagavad-gita e Krishna são a única fonte de luz. Tudo isso é para ensinar aos buscadores sinceros da verdade a oferecerem saudações ao Senhor Krishna e assim renderem-se a Ele sem receios. Essa é a perfeição máxima da vida, e esse é o ensinamento máximo de Sankara, o grande acadêmico erudito cujos ensinamentos desterram a filosofia nilista de Buddha para fora da Índia, a terra do conhecimento. Om tat sat.
O movimento para a consciência de Krishna
É o processo védico genuíno
Em 11 de janeiro de 1970, um artigo do Los Angeles Times informava que alguns professores da Universidade de Berkeley, Califórnia, entre os quais se encontrava o Dr. J.F. Staal, professor de Filosofia e Línguas Sul-Asiáticas, haviam recusado a petição de outorgar valor acadêmico a um curso experimental referente ao processo da Consciência de Krishna, que ia ser ministrado por Hans Kary, presidente do centro de Berkeley, do movimento Hare Krishna. Ao recusar a petição, o Dr. Staal indicou que os devotos “empregam demasiado tempo em cantar, devido a isto, não podem desenvolver uma filosofia.” Quando Srila Prabhupada, o fundador e mestre espiritual do movimento Hare Krishna, leu o artigo, iniciou uma correspondência pouco comum com o célebre professor.
Excerto do artigo do Los Angeles Times
“O Dr. J.F. Staal, professor de Filosofia e Línguas do Oriente Próximo da Universidade da Califórnia, Berkeley e lente de filosofia indiana, acredita que a seita Krishna é uma religião indiana autêntica e que seus adeptos são sinceros. Ele atribuiu o rápido aumento de membros da Sociedade à tendência da geração mais jovem de hoje em dia de rejeitar a organizada freqüência à igreja e ao mesmo tempo buscar a satisfação da crença no misticismo.
“No entanto, ele chama a atenção para o fato de que as pessoas que se afastam do cristianismo, do maometanismo e do judaísmo são aquelas que geralmente perderam sua fé no deus pessoal dessas religiões e andam em busca de uma religião mística sem absolutos.
“Essas pessoas no movimento Krishna converteram-se ao hinduísmo, mas, curiosamente, este é um culto que é altamente personalístico, disse Staal. ‘Eles aceitam um deus pessoal, Krishna, que o cristianismo também tem. Parece-me que eles transferiram alguns de seus antecedentes cristãos para uma seita hindu.
“Ele também acha que eles gastam tempo demais cantando para desenvolver uma filosofia. Baseados nesses fatos, ele e outros na faculdade rejeitaram um pedido de outorgar valor acadêmico a um curso experimental sobre a consciência de Krishna que será dado durante o trimestre de inverno por Hans Kary, presidente do templo de Berkeley da seita.”
Carta de Srila prabhupada ao Los Angeles Times
14 de janeiro de 1970
Ao Editor
Los Angeles Times
Caro Senhor:
Com referência a seu artigo no Los Angeles Times datado de domingo, 11 de janeiro de 1970, com o título “Canto Krishna”, tomo a liberdade de indicar que a religião hindu é perfeitamente baseada na concepção pessoal de Deus, ou Visnu. A concepção impessoal de Deus é uma conseqüência paralela, ou um dos três aspectos de Deus. A Verdade Absoluta é, em última análise, a Suprema Personalidade de Deus, a concepção Paramatma é o aspecto localizado de Sua onipresença, e a concepção impessoal é o aspecto de Sua grandeza e eternidade. Mas, todos esses aspectos combinados formam o todo completo.
A afirmação do Dr. J.F. Staal de que o culto a Krishna é uma combinação de religião cristã com religião hindu, como se fosse algo inventado não é correta. Se às religiões cristã, maometana ou budistas são pessoais, isso é muito alvissareiro. Mas a religião de Krishna tem sido pessoal desde há muito tempo, muito tempo, desde épocas em que às religiões cristã, maometana e budista ainda não haviam surgido. Segundo a concepção védica, a religião é basicamente feita pelo Deus pessoal como Suas leis. A religião não pode ser fabricada pelo homem ou qualquer um, exceto Deus, superior ao homem. A religião é unicamente a lei de Deus.
Infelizmente, todos os svamis com que me encontrei neste país enfatizavam o aspecto impessoal de Deus, sem conhecimento suficiente do aspecto pessoal de Deus. No Bhagavad-gita, portanto, diz-se que apenas as pessoas menos inteligentes consideram que Deus é originalmente impessoal, mas assume uma forma quando Se encarna. A filosofia de Krishna, contudo, baseada na autoridade dos Vedas, é que originalmente a Verdade Absoluta é a Suprema Personalidade de Deus. Sua expansão plenária está presente no coração de todos sob Seu aspecto localizado, e a refulgência do Brahman impessoal é a luz transcendental e calor distribuídos por toda a parte.
No Bhagavad-gita diz-se claramente que o objetivo do processo védico de busca da Verdade Absoluta é encontrar o Deus pessoal. Deve-se considerar que alguém que esteja satisfeito com os outros aspectos da Verdade Absoulta, a saber, o aspecto Paramatma ou o aspecto Brahman, possui um pobre fundo de conhecimento. Recentemente, publicamos nosso Sri Isopanisad, uma literatura védica, e nesse opúsculo discutimos exaustivamente este ponto.
Quanto à religião hindu, há milhões de templos de Krishna na Índia, e não há um hindu sequer que não adore Krishna. Portanto, este movimento para a consciência de Krishna não é uma idéia inventada. Convidamos todos os intelectuais, filósofos, religiosos e membros do público em geral a entenderem este movimento através de um estudo crítico. E aquele que o fizer seriamente entenderá a posição sublime deste grande movimento.
O processo de cantar também é autorizado. O sentimento de desgosto do Professor Staal quanto ao constante cantar do santo nome de Krishna é uma definitiva prova de sua falta de conhecimento sobre este autorizado movimento da consciência de Krishna. Em vez de rejeitar a solicitação de Kary, reconhecendo o valor acadêmico de seu curso, ele e todos os outros eruditos professores da Universidade da Califórnia em Berkeley deviam pacientemente ouvir sobre a verdade deste autorizado movimento tão necessário, no momento, a esta sociedade ateísta. [Posteriormente o valor acadêmico do curso foi aprovado.] Este é o único movimento que pode salvar a confusa geração mais jovem. Convidarei todos os guardiães responsáveis deste país a compreenderem este movimento transcendental e então dar-lhes-ei todas as boas oportunidades de difundi-lo para o benefício de todos.
A. C. Bhaktivedanta Swami
Mestre Espiritual do
Movimento Hare Krishna
O intercâmbio entre Srila Prabhupada e Dr. Staal
23 de janeiro de 1970
Swami A. C. Bhaktivedanta
Caro Swamiji:
Fico muito agradecido por ter me enviado uma cópia de sua carta endereçada ao Los Angeles Times, agora também publicada no Daily Californian. Penso que o senhor concordará comigo de que, afora a publicidade, pouco se ganha discutindo questões religiosas ou filosóficas através de entrevistas e cartas na imprensa; mas, permita-me fazer duas breves observações.
Primeiramente, eu sei que a devoção a Krishna é algo antigo (embora definitivamente não tão antigo como os Vedas) e jamais foi influenciada pelo cristianismo, islamismo ou judaísmo (nunca me referi ao budismo a este respeito). As divergências entre o pessoal e o impessoal são relativamente vagas, mas, adotando esta distinção para simplificar, eu exprimi surpresa ao ver que pessoas crescidas dentro de uma cultura ocidental, a qual dá ênfase ao pessoal, aceitaram um culto indiano que faz o mesmo. Surpreende-me menos quando as pessoas que estão insatisfeitas com o monoteísmo ocidental aceitam uma filosofia indiana que enfatiza um absoluto impessoal.
Em segundo lugar, jamais exprimi ou senti desgosto pelo canto do nome de Krishna. Não somente não estou irritado com isso (como algumas pessoas), mas, antes, chego mesmo a gostar disso. Mas é um fato indiscutível que o Bhagavad-gita (isto para não mencionar os Vedas) não exige esse cantar constante. O Gita trata de assuntos completamente diferentes, com os quais eu lido até certo ponto em meus cursos sobre as filosofias da Índia.
Agradecendo-lhe,
Atenciosamente,
J. F. Staal
Professor de Filosofia e
Línguas Sul-Asiáticas
30 de janeiro de 1970
J. F. Staal
Professor de Filosofia
E Línguas Sul-Asiáticas
Universidade da Califórnia
Berkeley, Califórnia
Meu caro Professor Staal:
Fico agradecido por sua carta datada de 23 de janeiro de 1970. No último parágrafo de sua carta, o senhor menciona que não está irritado com o canto do mantra Harê Krishna (como algumas pessoas), mas, antes, chega mesmo a gostar dele. Isso me dá muita satisfação, e aqui lhe envio uma cópia de nossa revista, De Volta ao Supremo, edição número 28, na qual o senhor encontrará como os estudantes [em um programa na Universidade do Estado de Ohio] gostaram deste cantar do mantra Hare Krishna, embora todos eles fossem neófitos neste culto de cantar. Na realidade, este canto é muito agradável ao coração e é o melhor meio de infundir consciência espiritual, ou consciência de Krishna, nos corações das pessoas em geral.
Esse é o processo mais fácil de realização espiritual e é recomendado nos Vedas. No Brhan-naradiya Purana afirma-se claramente que somente o cantar do santo nome de Hari [Krishna] pode salvar as pessoas dos problemas da existência materialista, e não há nenhuma outra alternativa, nenhuma outra alternativa, nenhuma outra alternativa nesta era de Kali.
A cultura ocidental é monoteísta, mas os ocidentais estão sendo desencaminhados pela especulação impessoal indiana. Os jovens do Ocidente estão frustrados porque não lhes estão ensinando adequadamente o monoteísmo. Eles não estão satisfeitos com esse processo de ensinar e entender. O movimento para a consciência de Krishna é uma dádiva para eles porque eles estão sendo realmente treinados a entender o monoteísmo ocidental sob o autorizado sistema védico. Nós não discutimos apenas teoricamente; pelo contrário, aprendemos através do método prescrito nas regulações védicas.
Mas estou surpreso de ver que no último parágrafo de sua carta o senhor diz: “É um fato indiscutível que o Bhagavad-gita (isto para não mencionar os Vedas) não exige esse constante cantar.” Acho que o senhor não entendeu o seguinte verso do Bhagavad-gita, além de muitos outros versos semelhantes:
satatam kirtayanto mam
yatantas ca drdha-vratah
namasyantas ca mam bhaktya
nitya-yukta upasate
A ocupação das grandes almas, livres da ilusão e perfeitas em sua compreensão de Deus, é descrita aqui: satatam kirtayanto mam – eles estão sempre (satatam) cantando (kirtayantah) Minhas glórias e – nitya-yukta upasate – sempre Me (a Krishna) adorando.
De forma que eu não sei como o senhor pode dizer “indiscutível.” E se o senhor quer referências dos Vedas, posso dar-lhe muitas. Nos Vedas, a principal vibração transcendental, omkara, é, também, Krishna. Pranava omkara é a substância divina dos Vedas. Seguir os Vedas significa cantar mantras védicos, e nenhum mantra védico é completo sem omkara. No Mandukya Upanisad, afirma-se que omkara é a mais auspiciosa representação sonora do Senhor Supremo. Isto também é confirmado novamente no Atharva Veda. Omkara é a representação sonora do Senhor Supremo e é, por isso, a palavra principal nos Vedas. A este respeito, o Senhor Supremo, Krishna, diz: pranavah sarva-vedesu: “Eu sou a sílaba om em todos os mantras védicos.” [Bg. 7.8]
Além disso, no Bhagavad-gita, Décimo Quinto Capítulo, verso 15, Krishna diz: “Estou sentado no coração de todos. Através de todos os Vedas, Eu sou aquele que deve ser conhecido; Eu sou o compilador do Vedanta, e conheço o Veda tal como ele é”. O Senhor Supremo, sentado no coração de todos, é descrito tanto no Mundaka quanto no Svetasvatara Upanisads: dva suparna sayuja sakhaya... O Senhor Supremo e a alma individual estão pousados no corpo assim como duas aves amigáveis em uma árvore. Uma ave está comendo os frutos da árvore, ou colhendo as reações de atividades materiais, e a outra ave, a Superalma, está testemunhando.
A meta do estudo Vedântico, portanto, é conhecer o Senhor Supremo, Krishna. Este ponto é enfatizado no Bhagavad-gita, Oitavo Capítulo, verso 13, onde se afirma que através do processo da yoga mística, vibrando-se finalmente a sagrada sílaba om, atinge-se Seu planeta espiritual supremo. Nos Vedanta-sutras, que com toda a certeza o senhor terá lido, o Quarto Capítulo, adhikarana 4, sutra 22, declara positivamente, anavrttih sabdat: “Através da vibração sonora, uma pessoa se torna liberada.” Através do serviço devocional, compreendendo bem a Suprema Personalidade de Deus, uma pessoa pode ir a Sua morada e nunca mais retornar a essa condição material. Como isso é possível? A resposta é simplesmente por se cantar Seu nome constantemente.
Isto é aceito pelo discípulo exemplar, Arjuna, que aprende perfeitamente a conclusão da ciência espiritual com o yogesvara, o senhor do conhecimento místico, Krishna. Reconhecendo Krishna como a Suprema Personalidade de Deus, Arjuna dirige-se a Ele, sthane hrsikesa..: “O mundo torna-se alegre ouvindo Vosso nome, e assim todos se apegam a vós.” [Bg. 11.36] O processo de cantar é autorizado nessa passagem como o meio direto de contatar com a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus. Simplesmente por cantar o santo nome de Krishna, a alma é atraída pela Pessoa Suprema, Krishna, a voltar ao lar, voltar ao Supremo.
No Narada-pancaratra afirma-se que todos os rituais, mantras e entendimentos védicos estão comprimidos nas oito palavras Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. De modo semelhante, no Kali-santarana Upanisad afirma-se que essas dezesseis palavras, Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare, destinam-se especialmente a neutralizar a degradante e contaminante influência desta materialista era de Kali.
Todos esses pontos são elaboradamente apresentados em meu livro Ensinamentos do Senhor Caitanya.
O processo de cantar é, portanto, não somente o método sublime para a perfeição prática da vida, mas também o princípio védico autorizado, inaugurado pelo maior erudito védico e devoto, Senhor Caitanya (o qual consideramos uma encarnação de Krishna). Estamos simplesmente seguindo Seus passos autorizados.
O alcance do movimento para a consciência de Krishna é universal. O processo para recuperar nosso status espiritual original de vida eterna, plena de bem-aventurança e conhecimento, não é teorização árida e abstrata. A vida espiritual não é descrita nos Vedas como algo teórico, árido e impessoal. Os Vedas objetivam a implantação do amor puro a Deus apenas, e esta conclusão harmoniosa é praticamente realizada pelo movimento para a consciência de Krishna, ou pelo cantar do mantra Hare Krishna.
Como a meta da realização espiritual é uma só, o amor a Deus, da mesma forma os Vedas constituem um único todo abrangente no que diz respeito ao entendimento transcendental. Apenas os vários pontos de vista incompletos de vários grupos à parte das fidedignas linhas védicas de ensino dão uma aparência rota ao Bhagavad-gita. O fator reconciliatório que ajusta todas as proposições aparentemente diversas dos Vedas é a essência do Veda, ou consciência de Krishna (amor a Deus).
Agradecendo-lhe mais uma vez,
Atenciosamente
A. C. Bhaktivedanta Swami
8 de fevereiro de 1970
Swami A. C. Bhaktivedanta
Caro Swamiji:
Agradeço-lhe muito por sua gentileza ao enviar-me sua longa e interessante carta do dia 30 de Janeiro, juntamente com o último número de De Volta ao Supremo. Até o momento tenho tido algumas discussões com membros de sua sociedade aqui, mas elas não são inteiramente satisfatórias desde o meu ponto de vista. Mas agora que acabo de receber sua carta de máxima autoridade, a discussão avança para um nível superior.
E não obstante, lamento dizer que o senhor ainda não me convenceu de que todas as escrituras citadas pelo senhor prescrevem apenas o cantar do nome de Krishna. Vou me referir apenas àquelas que são mais importantes.
No Bhagavad-gita [9.14], kirtayantah não significa necessariamente canto do nome de Krishna. Pode significar glorificação, canto, recitação, conversa e referir-se as canções, hinos, descrições ou conversações. Os comentaristas analisam dessa maneira. Sankara em seu comentário apenas repete a palavra, mas Anandagiri, em seu vyakhya classifica kirtanam como vedanta-sravanam pranava-japas ca: “ouvir o Vedanta e murmurar o om” (que o om védico é Krishna é dito no Bhagavad-gita, onde Krishna também é identificado com muitas outras coisas, e o qual é smrt, mas não nos Vedas, que são sruti). Outro comentarista, Hanuman, em seu Paisaca-bhasya, diz que kirtayantah meramente significa bhasamana – “conversar [sobre].”
E o que é mais importante, creio eu, do que o preciso significado desta palavra, é que todo o verso não exige que todos sempre se ocupe em kirtana, mas meramente afirma que algumas grandes almas o fazem. Isso fica óbvio pelo verso seguinte, o qual afirma anye, “outros,” ocupam-se em jnana-yajnena...yajanto mam, “adorando-me... com a adoração do conhecimento.” O Bhagavad-gita é liberal e tolera uma variedade de abordagens religiosas, embora enfatize, também, um aspecto acima de todos os outros (i.e., sarva-phala-tyaga significa “renúncia a todos os frutos do próprio trabalho.”).
Finalmente, no último sutra do Vedanta-sutra, anavrttih sabdat..., sabda refere-se à escritura ou à revelação dos Vedas, como fica claro pelo contexto e pelos comentaristas. Sankara cita alguns textos (finalizando com ity adi-sabdebhyah, “de acordo com esses sabdas”) para apoiar isso, i.e., para apoiar a declaração de que “de acordo com as escrituras não há retorno.” Ele também se refere a sabda neste sutra, dizendo mantrarthavadadi...,mantras, descrições, etc.” Vacaspati Misra no Bramati apóia isso e esclarece isso um pouco mais, adicionando que um ponto de vista contrário é sruti-virodha, “em conflito com o smrti e o sruti.”
Agradecendo-lhe mais uma vez por sua amável atenção.
Muito atenciosamente,
J. F. Staal
15 de fevereiro de 1970
J. F. Staal
Professor de Filosofia
E Línguas Sul Asiáticas
Meu caro Dr. Staal:
Fiquei muito contente de receber sua carta datada de domingo, 8 de fevereiro de 1970. Também fiquei muito satisfeito ao examinar o conteúdo.
No que diz respeito a convencê-lo de que todas as escrituras prescrevem o canto do nome de Krishna, posso simplesmente apresentar a autoridade do Senhor Caitanya. O Senhor Caitanya recomendava, kirtaniyah sada harih [“Hari, Krishna, deve ser constantemente louvado” (Siksastaka 3)]. De modo semelhante, Madhvacarya cita: vede ramayane caiva harih sarvatra giyate [“Canta-se sobre Hari em toda a parte dos Vedas e do Ramayana”]. Do mesmo modo, no Bhagavad-gita [15.15] o Senhor diz: vedais ca sarvair aham eva vedyah [“Através de todos os Vedas, Eu sou aquele que deve ser conhecido”].
De maneiras que encontramos todas as escrituras objetivando a Pessoa Suprema. No Rg Veda [1.22.20] o mantra é om tat visnoh paramam padam sada pasyanti surayah [“Os semideuses estão sempre almejando aquela morada suprema de Visnu”]. Todo o processo védico, portanto, consiste em entender o Senhor Visnu, e qualquer escritura está direta ou indiretamente cantando as glórias do Senhor Supremo, Visnu.
Quanto ao Bhagavad-gita, verso 9.14, kirtayantah certamente significa glorificar, cantar, recitar e conversar, como o senhor disse; mas glorificar, cantar ou recitar sobre quem? Certamente que é sobre Krishna. A palavra usada a este respeito e mam [“a Mim”]. Portanto, nós não discordamos quando uma pessoa glorifica Krishna, como Sukadeva fez no Srimad-Bhagavatam. Isto também é kirtanam. A mais elevada entre todas as literaturas védicas é o local adequado para tal glorificação do Senhor Supremo, Krishna, e isso deve ser bem entendido pelo verso:
nigama-kalpataror galitam phalam
suka-mukhad amrta-drava-samyutam
pibata bhagavatam rasam alayam
muhur aho rasika bhuvi bhavukah
“Ó homens expertos e pensativos, saboreai o Srimad-Bhagavatam, o fruto maduro da árvore dos desejos das literaturas védicas. Ele emanou dos lábios de Sri Sukadeva Gosvami. Portanto, este fruto tornou-se ainda mais saboroso, embora seu suco nectáreo já fosse saboroso para todos, inclusive as almas liberadas.” [Srimad-Bhagavatam 1.1.3]
Diz-se que Maharaja Pariksit alcançou a salvação simplesmente por ouvir, e, de modo semelhante, Sukadeva Gosvami alcançou a salvação simplesmente por cantar. Em nosso serviço devocional, há nove métodos diferentes para se atingir a mesma meta, amor a Deus, e o primeiro processo é ouvir. Este processo de ouvir chama-se sruti. O processo seguinte é cantar. O processo de cantar e smrti. Aceitamos tanto sruti quanto smrti simultaneamente. Consideramos sruti a mãe e smrti a irmã, porque um filho ouve da mãe e depois novamente aprende com a irmã pela descrição.
Sruti e smrti são duas linhas paralelas. Srila Rupa Gosvami, portanto, diz:
sruti-smrti-puranadi-
pancaratra-vidhim vina
aikantiki harer bhaktir
utpatayaiva kalpate
[Bhakti-rasamrta-sindhu 1.2.101]
Isso é sem referências a sruti, smrti, Puranas, e Pancaratras, o serviço devocional inadulterado nunca é alcançado. Portanto, qualquer um que mostre êxtase devocional sem referência aos sastras [escrituras védicas] simplesmente cria distúrbios. Por outro lado, se simplesmente nos mantemos fiéis aos srutis, então nos tornamos veda-vada-rata ([Bg. 2.42] “Ocupados em meramente declamar as palavras das escrituras, mas não entendê-las ou praticá-las.”) os quais não são muito apreciados no Bhagavad-gita.
Portanto, O Bhagavad-gita, apesar de ser smrti, é a essência de toda escritura védica, sarvopanisado gavah (veja a quarta das meditações de Sankaracarya que já foi citada neste livro). Ele é assim como uma vaca ao dar o leite, ou a essência de todos os Vedas e Upanisads, e todos os acaryas, incluindo Sankaracarya, aceitam o Bhagavad-gita como tal. Por isso o Senhor não pode negar a autoridade do Bhagavad-gita porque ele é smrti; este ponto de vista é sruti-smrti-virodhah, “em conflito com o smrti e o sruti,” como o senhor disse corretamente.
Quanto à citação de Anandagiri de que kirtanam significa vedanta-sravanam pranava-japas ca [“ouvir o Vedanta e murmurar o om”], o conhecedor do Vedanta é Krishna, e Ele é o compilador do Vedanta. Ele é veda-vit e vedanta-krt. Então, haverá uma oportunidade maior de vedanta-sravanam, do que ouvi-la de Krishna?
No que concerne ao verso seguinte, em que se menciona que jnana-yajnena...yajanto mam, o objeto de adoração é Krishna, como indica a palavra mam [“a Mim”]. O processo é descrito no Isopanisad, mantra 11:
vidyam cavidyam ca yas
tad vedobhayam saha
avidyaya mrtyum tirtva
vidyayamrtam asnute
“Somente aquele que pode aprender o processo da ignorância e do conhecimento transcendental, paralelamente, pode transcender a influência de repetidos nascimentos e mortes e desfrutar das bênçãos completas da imortalidade.”
O cultivo de vidya, ou conhecimento transcendental, é essencial para o ser humano, caso contrário, o cultivo de avidya, ou ignorância, prende-o à existência condicionada da plataforma material. Existência materialista significa busca ou cultivo de gozo dos sentidos, e este tipo de conhecimento de gozo dos sentidos (avidya) significa prossecução de repetidos nascimentos e mortes. Aqueles que estão absortos em tal conhecimento não podem aprender nenhuma lição das leis da natureza, e fazem as mesmas coisas repetidamente, por estarem enamorados da beleza de coisas ilusórias. Vidya, ou conhecimento real, por outro lado, significa conhecer completamente o processo de atividades de ignorância enquanto ao mesmo tempo se cultiva a ciência transcendental, seguindo, desse modo, o caminho da liberação sem desvios.
A Liberação é o gozo das bênçãos completas da imortalidade. Esta imortalidade é desfrutada no reino eterno de Deus (sambhuty amrtam asnute), a região da Suprema Personalidade de Deus, e é o resultado obtido através da adoração ao Senhor Supremo, a causa de todas as causas, sambhavat. Então, dessa maneira, conhecimento verdadeiro, vidya, significa adorar a Suprema Personalidade de Deus, Krishna; isto é jnana-yajnena, a adoração do conhecimento.
Este jnana-yajnena...yajanto mam é a perfeição do conhecimento, como se afirma no Bhagavad-gita [7.19]:
bahunam janmanam ante
jnanavan mam prapadyate
vasudevah sarvam iti
sa mahatma sudurlabhah
“Após muitos e muitos nascimentos e mortes, aquele que tem realmente conhecimento rende-se a Mim [Krishna], sabendo que Eu sou a causa de todas as causas e de tudo que existe. Uma grande alma assim é muito rara.”
Se uma pessoa ainda não chegou a esta conclusão de conhecimento e simplesmente se entrega à especulação seca, sem Krishna, então seu árduo esforço especulativo é assim como bater cascas de arroz vazias. O arroz descascado e as cascas vazias de arroz são muito semelhantes. Aquele que sabe como debulhar o arroz da casca é sábio, mas aquele que bate a casca vazia, pensando obter algum resultado, está simplesmente desperdiçando seu esforço inutilmente. De modo similar, se estudamos os Vedas sem encontrar a meta dos Vedas, Krishna, simplesmente perdemos nosso valioso tempo.
De forma que o cultivo de conhecimento para adorar Krishna culmina, após muitos e muitos nascimentos e mortes quando nos tornamos realmente sábios. Quando alguém torna-se sábio dessa maneira, ele se rende a Krishna, reconhecendo-O finalmente como a causa de todas as causas e de tudo que existe. Esse tipo de grande alma é muito raro. Assim, aqueles que entregaram vida e alma a Krishna são muito raros sudurlabha mahatmas. Não são mahatmas comuns.
Pela graça do Senhor Caitanya, esse status máximo de perfeição da vida está sendo distribuído muito livremente. O efeito também é muito encorajador; senão, como rapazes e moças sem nenhum antecedente de cultura védica estão rapidamente ocupando as posições raras de mahatmas simplesmente por vibrarem este som transcendental, Hare Krishna? E simplesmente com base neste canto, a maioria deles (aqueles que são muito sinceros) é estável no serviço devocional e não está descambando para os quatro princípios de vida material pecaminosa, a saber, (1) comer carne, (2) relações sexuais ilícitas, (3) consumo de intoxicantes, incluindo café, chá e tabaco, e (4) jogos de azar. E este é o último sutra do Vedanta-sutra, i.e., anavrttih sabdat [“através da vibração sonora uma pessoa torna-se liberada”].
É preciso aprender, medindo o resultado (phalena pariciyate). Nós mandamos nossos estudantes agir assim e eles não estão caindo. O fato de eles permanecerem na plataforma da vida espiritual pura sem ansiar pela volta aos princípios acima mencionados de avidya, ou gozo dos sentidos, é a prova de seu entendimento correto dos Vedas. Eles não voltam à plataforma material, porque estão saboreando o fruto nectário do amor a Deus.
Sarva-phala-tyaga [“renúncia a todos os frutos do próprio trabalho”] é explicada no Bhagavad-gita pelo próprio Senhor nas palavras sarva-dharman parityajya man ekam saranam vraja: “Abandona tudo e simplesmente rende-te a Mim [Krishna].” O mantra Hare Krishna significa: “Ó suprema Energia de Krishna e ó Senhor Krishna, por favor, ocupai-me em Vosso serviço eterno.” Por isso, abandonamos tudo e estamos simplesmente ocupados no serviço ao Senhor. O que Krishna nos mandar fazer é a nossa ocupação. Abandonamos todas as ações resultantes de karma, jnana e yoga; e este é o estágio de serviço devocional puro, bhaktir uttama.
Atenciosamente,
A. C. Bhaktivedanta Swami
25 de fevereiro de 1970
Swami A. C. Bhaktivedanta
Fundador-Acarya da
Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna
Caro Swamiji:
Fico muito agradecido por sua interessantíssima carta datada de 15 de fevereiro de 1970, com anexo.
Temo dizer que sempre que o senhor cita uma passagem tencionando mostrar que apenas o cantar do nome de Krishna é necessário, eu posso citar outra que exige algo mais, adicionando: yadi sloko’pi pramanam, ayam api slokah pramanam bhavitum arhati: “Se meros versos são autorizados, este verso também deveria ser considerado autorizado.” E talvez não haja fim para isto no futuro previsível, como também diz Patanjali: mahan hi sabdasya prayoga-visayah: Pois vasto é o domínio para o uso de palavras.”
Muito atenciosamente,
J. F. Staal
3764 Watseka Avenue
Los Angeles, Califórnia 90034
24 de abril de 1970
Caro Dr. Staal:
Fico-lhe muito agradecido por sua amável carta datada de 25 de fevereiro de 1970. Sinto não ter podido responder a sua carta antes, porque estava um pouco atarefado, negociando a aquisição de uma nova propriedade, que, anteriormente, era uma igreja, no endereço acima. Estabelecemos um lugar muito bom para um templo separado, uma sala de palestra, minha residência, e as acomodações dos devotos, tudo combinado em um belo local com todos os confortos modernos.
Aproveito para fazer-lhe o convite a que venha visitar-nos neste local quando lhe convier, e se o senhor me avisar de sua vinda com um dia de antecedência, meus estudantes terão todo o prazer em recebê-lo adequadamente.
Quanto à nossa correspondência, na verdade, esta citação e contra citação não pode solucionar o problema. Em uma corte, ambos os advogados eruditos citam passagens dos livros de lei, mas essa não é a solução para o caso. A determinação do caso é o julgamento do juiz presidente. De forma que a argumentação não pode nos levar a uma conclusão.
As citações escriturais são às vezes contraditórias, e todo filósofo tem uma opinião diferente, porque, sem apresentar uma tese diferente, ninguém pode tornar-se um filósofo famoso. Por isso, é difícil chegar a conclusão correta. A conclusão é, como mencionei acima, aceitar o julgamento da autoridade. Nós seguimos a autoridade do Senhor Caitanya Mahaprabhu, que não é diferente de Krishna, e Sua versão segundo a escritura védica é que nesta era este canto é a única solução para todos os problemas da vida. E isso está sendo realmente demonstrado pela experiência prática.
Recentemente, houve uma grande procissão de nossos estudantes em Berkeley no Dia do Advento do Senhor Caitanya, e o público observou o seguinte: “Essa multidão de homens não é como as demais, que se reúnem para quebrar janelas e criar confusão.” Isto também foi confirmado pela polícia com as seguintes palavras: “Os membros do movimento para a consciência de Krishna cooperam completamente com a polícia, e seus esforços em manter ordem pacífica durante toda a parada foram tão bem sucedidos que a interferência policial não foi praticamente necessária.”
Do mesmo modo, em Detroit houve uma grande marcha pela paz, e nossos homens foram apreciados como “anjos” na multidão. Assim, este movimento para a consciência de Krishna é realmente necessário no momento atual como a panacéia para todos os tipos de problemas da sociedade humana.
Outras citações não serão tão apreciáveis nesse momento. Em uma farmácia pode haver muitos remédios, e todos podem ser genuínos, mas é necessário que um médico experiente prescreva o remédio para cada paciente em particular. Neste caso não podemos dizer: “Isto também é remédio, e aquilo também é remédio.” Não. O remédio que é eficaz para uma pessoa em particular é o remédio receitado para ela – phalena pariciyate.
Muito atenciosamente
A. C. Bhaktivedanta Swami
Nota final de Srila Prabhupada
Em uma corte de justiça dois advogados apresentam seus respectivos argumentos relevantes, tirados dos livros de lei autorizados, para decidir uma questão, mas depende do juiz decidir o caso em favor de um dos litigantes. Quando os advogados opositores apresentam seus argumentos, ambos são legais e fidedignos, mas o julgamento é dado em relação ao arrazoado aplicável ao caso particular.
O Senhor Caitanya dá Seu julgamento, baseado na autoridade dos sastras, de que o cantar dos santos nomes do Senhor é o único meio para elevar alguém à plataforma transcendental, e realmente podemos ver que isso é eficiente. Cada um de nossos estudantes que tenha seriamente aceito este processo pode ser examinado individualmente, e qualquer juiz imparcial considerará fácil perceber que eles têm avançado mais em sua realização transcendental do que quaisquer filósofos, religiosos, yogis, karmis, etc.
Temos de aceitar tudo que seja favorável ao caso circunstancial. A rejeição de outros métodos em uma circunstância particular não significa que os métodos rejeitados não sejam autênticos. Mas, por agora, levando em consideração a era, o momento e o objeto, às vezes os métodos são rejeitados, apesar de serem autênticos. Temos que pôr tudo à prova através de seu resultado prático. Por esse teste, nesta era, o cantar constante do maha-mantra Hare Krishna mostra ser muito eficiente.
A. C. Bhaktivedanta Swami
Consciência de Krishna: culto hindu ou cul-
tura divina?
Ao situar o movimento da consciência de Krishna dentro de um contexto histórico-cultural conveniente, muita gente identifica o movimento com o hinduísmo. Mas isso é um erro. Srila Prabhupada nega por completo a relação com o panteísmo, o politeísmo e a consciência de casta que impera no hinduísmo moderno. Se bem que, a filosofia da consciência de Krishna e o hinduísmo moderno, compartilhem de uma raiz histórica comum – a antiga cultura védica da Índia – o hinduísmo, juntamente com as outras “grandes religiões”, se converteu em uma instituição sectária, enquanto que a filosofia da consciência de Krishna é universal, e transcende as relativas designações sectárias.
Faz-se idéia errada do movimento para a consciência de Krishna ao representá-lo como religião hindu. Entretanto, a consciência de Krishna não é alguma forma de fé ou religião que procure destruir qualquer outra fé ou religião. Pelo contrário, é um movimento cultural essencial para toda a sociedade humana e não se considera nenhuma fé sectária particular. Este movimento cultural destina-se especialmente a educar as pessoas como elas devem amar a Deus.
Às vezes, os indianos, tanto fora quanto dentro da Índia, pensam que estamos pregando a religião hindu, mas na verdade não é isso. Ninguém encontrará a palavra “hindu” no Bhagavad-gita. Na realidade, essa palavra “hindu” não existe em nenhuma parte da literatura védica. Esta palavra foi introduzida pelos muçulmanos provenientes das províncias próximas da Índia, como o Afeganistão, o Baluchistão e a Pérsia. Existe um rio chamado Sindhu que faz fronteira com as províncias situadas ao noroeste da Índia, e, uma vez que os muçulmanos daquela região não conseguiam pronunciar corretamente a palavra Sindhu, eles chamavam o rio de “Hindu” e os habitantes desta região de “hindus”. Na Índia, segundo o idioma védico, os europeus são chamados mlecchas ou yavanas. De modo similar, “hindu” é um nome dado aos indianos pelos muçulmanos.
A verdadeira cultura da Índia é descrita no Bhagavad-gita, onde se afirma que de acordo com as diferentes qualidades ou modos da natureza existem diferentes classes de homens, que geralmente são classificados dentro de quatro ordens sociais e quatro ordens espirituais. Esse sistema de divisão social e espiritual é conhecido como varnasrama-dharma. Os quatro varnas, ou ordens sociais, são brahmana, ksatriya, vaisya e sudra. Os quatro asramas, ou ordens espirituais, são brahmacarya, grhastha, vanaprastha e sannyasa. O sistema varnasrama é descrito nas escrituras védicas conhecidas como os Puranas. O objetivo desta instituição da cultura védica é educar todos os homens no avanço do conhecimento de Krishna, ou Deus. Nisto consiste todo o programa védico.
Ao conversar com o grande devoto Ramananda Raya, o Senhor Caitanya perguntou-lhe: “Qual é o princípio básico da vida humana?” Ramananda Raya respondeu que a civilização humana começa com a aceitação do varnasrama-dharma. Antes de se chegar ao padrão de varnasrama-dharma, não se pode falar de civilização humana. Portanto, o movimento da consciência de Krishna está tentando estabelecer este sistema correto de civilização humana, que é conhecido como consciência de Krishna, ou daiva-varnasrama – cultura divina.
Atualmente na Índia, o sistema varnasrama está sendo entendido de um modo pervertido, e assim um homem nascido na família de um brahmana (a ordem social superior) exige que o aceitem como um brahmana. Mas esta exigência não é aceita pelo sastra (escritura). Nosso antepassado pode ter sido um brahmana segundo a gotra, ou a ordem hereditária da família, mas o verdadeiro varnasrama-dharma baseia-se na qualidade concreta que tenhamos obtido, independentemente de nascimento ou hereditariedade. Portanto, não estamos pregando o atual sistema dos hindus, especialmente daqueles que estão sob a influência de Sankaracarya, pois Sankaracarya ensinou que a Verdade Absoluta é impessoal, negando, desse modo, indiretamente a existência de Deus.
A missão de Sankaracarya foi especial: ele apareceu para restabelecer a influência védica após a influência do budismo. Porque o budismo foi patrocinado pelo Imperador Asoka, há 2.600 anos atrás a religião budista tinha penetrado praticamente em toda a Índia. Segundo a literatura védica, Buddha é uma encarnação de Krishna dotada de poder especial que apareceu com um propósito especial. Seu sistema de pensamento, ou fé, foi largamente aceito, porém, Buddha rejeitou a autoridade dos Vedas. Enquanto o Budismo se espalhava, a cultura védica sofreu interrupção tanto na Índia quanto em outros lugares. Portanto, já que o único objetivo de Sankaracarya era acabar com o sistema filosófico de Buddha, ele introduziu o sistema chamado Mayavada.
Estritamente falando, a filosofia Mayavada é ateísta, pois é um processo no qual se imagina que Deus existe. Este sistema Mayavada de filosofia tem existido desde tempos imemoriais. O atual sistema indiano de religião ou cultura baseia-se na filosofia Mayavada de Sankaracarya, que se coaduna com a filosofia budista. Segundo a filosofia Mayavada, na verdade Deus não existe, ou, se Deus existe, Ele é impessoal e onipenetrante, e pode, portanto, ser imaginado sob qualquer forma. Esta conclusão não está de acordo com a literatura védica. Esta literatura menciona muitos semideuses, que são adorados para diferentes objetivos, mas em todos os casos o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, Visnu, é aceito como o controlador supremo. Esta é a verdadeira cultura védica.
A filosofia da consciência de Krishna não nega a existência de Deus e dos semideuses, ao passo que a filosofia Mayavada nega ambas, afirmando que nem os semideuses, nem Deus existem. Para os Mayavadis, em última análise tudo é nada. Eles dizem que se pode imaginar qualquer autoridade – seja Visnu, seja Durga, seja o Senhor Siva, seja o deus do sol – porque estes são os semideuses geralmente adorados na sociedade. Mas, de fato, a filosofia Mayavada não aceita a existência de nenhum deles. Os Mayavadis dizem que, como não podemos concentrar a mente no Brahman impessoal, podemos entretanto imaginar qualquer uma dessas formas. Este é um sistema novo, chamado pancopasana. Foi introduzido por Sankaracarya, mas o Bhagavad-gita não ensina doutrinas dessa espécie, que, portanto não são autorizadas.
O Bhagavad-gita aceita a existência dos semideuses. Os semideuses são descritos nos Vedas, e não se pode negar sua existência. Mas não devemos compreendê-los nem adorá-los de acordo com o método de Sankaracarya. A adoração a semideuses é rejeitada no Bhagavad-gita. O Gita [7.20] afirma claramente:
kamais tais tair hrta-jnanah
prapadyante ’ nya-devatah
tam tam niyamam asthaya
prakrtya niyatah svaya
“Aqueles cujas mentes são corrompidas por desejos materiais rendem-se aos semideuses e seguem as regras e regulações particulares de adoração, conforme a própria natureza deles.” Isto também é explicado mais detalhadamente no Bhagavad-gita [7.23]:
antavat tu phalam tesam
tad bhavaty alpa-medhasam
devan deva-yajo yanti
mad-bhakta yanti mam api
“Homens de pouca inteligência adoram os semideuses, e colhem frutos limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos alcançam Minha morada suprema”. As recompensas dadas pelos semideuses são temporárias porque qualquer vantagem material está necessariamente relacionada com o corpo temporário. Qualquer que seja a vantagem material obtida, seja mediante os modernos métodos científicos, seja mediante a obtenção de bênção dos semideuses – essas vantagens acabarão com o corpo. Mas o avanço espiritual não terá fim jamais.
As pessoas não devem pensar que estamos pregando uma religião sectária. Não. Estamos simplesmente pregando como amar a Deus. Há muitas teorias sobre a existência de Deus. O ateísta, por exemplo, jamais acreditará em Deus. Ateístas como o professor Jacques Monod, que ganhou o Prêmio Nobel, declaram que tudo é acaso (teoria esta já advogada muito tempo atrás por filósofos ateístas da Índia, como Carvaka). Depois, outras filosofias, como a filosofia karma-mimamsa, aceitam que se continuamos trabalhando correta e honestamente, o resultado virá automaticamente, sem que precisemos recorrer a Deus. Para dar provas disto, os que propõem tais teorias citam o argumento de que, se alguém adoecer por causa de uma infecção e tomar remédio para neutralizá-la, a doença será neutralizada. Mas nosso argumento a este respeito é que mesmo que se dê o melhor remédio a uma pessoa, ela ainda poderá morrer. Os resultados nem sempre podem ser prognosticados. Portanto, existe uma autoridade superior, daiva-netrena, um diretor supremo. Senão, como é que o filho de um homem rico e piedoso se torna hippie na rua, ou que um homem que trabalha arduamente e enriquece ouve seu médico dizer: “agora o senhor não pode comer nada, somente sopa de cereais”?
A teoria karma-mimamsa advoga que o mundo continua existindo sem a direção suprema de Deus. Tais filosofias dizem que tudo acontece por luxúria (kama-haitukam). Através da luxúria, um homem sente-se atraído por uma mulher, e por acaso os dois fazem sexo, e a mulher fica grávida. Na verdade, não são feitos planos para engravidar a mulher, mas, dentro de uma seqüência natural, quando um homem e uma mulher unem-se, produz-se este resultado. A teoria ateísta, que é descrita no Décimo Sexto Capítulo do Bhagavad-gita como asurica, é que na verdade tudo está acontecendo dessa maneira por causa do acaso que resulta da atração natural. Esta teoria demoníaca apóia a idéia de que se quisermos evitar filhos, podemos utilizar um método anticoncepcional.
Na verdade, entretanto, há um plano superior para tudo – o plano védico. A literatura védica dá instruções sobre como homens e mulheres devem unir-se, como devem gerar filhos, e qual é o objetivo da vida sexual. Krishna diz no Bhagavad-gita que a vida sexual sancionada pela ordem védica, ou a vida sexual sob a orientação das regras e regulações védicas, é autêntica e aceitável para Ele. Mas a vida sexual indiscriminada não é aceitável. Se por acaso uma pessoa se sente atraída sexualmente e gera filhos, estes filhos são chamados varna-sankara, ou seja, população não desejada. É assim que fazem os animais inferiores: isto não é aceitável para os seres humanos. Para os seres humanos, há um plano. Não podemos aceitar a teoria de que não há plano algum para a vida humana, ou que tudo surge do acaso e da necessidade material.
A teoria de Sankaracarya de que Deus não existe e que podemos continuar com nosso trabalho, imaginando Deus sob qualquer forma só para manter a paz e a tranqüilidade na sociedade, também se baseia mais ou menos nesta idéia de acaso e necessidade. Nosso método, entretanto, que é completamente diferente, baseia-se na autoridade. É este varnasrama-dharma divino que Krishna recomenda, não o sistema de castas como é entendido hoje em dia. Este sistema moderno de castas da Índia de hoje também é condenado, e deve sê-lo, pois a classificação de diferentes espécies de homens de acordo com o nascimento não é o sistema de castas védico, ou divino.
Há muitas classes de homens na sociedade – uns são engenheiros, outros são médicos, químicos, comerciantes, homens de negócios e assim por diante. Estas variedades de classes não podem, entretanto, ser determinadas pelo nascimento, mas sim pela qualidade. Este sistema de castas por nascimento não é sancionado pela literatura védica, nem nós o aceitamos. Nada temos a ver com o sistema de castas, que atualmente também está sendo rejeitado pelo público na Índia. Ao contrário, damos a todos a oportunidade de se tornarem brahmanas e assim atingirem a posição mais elevada da vida.
Como atualmente há uma escassez de brahmanas, líderes espirituais, e de ksatriyas, administradores, e como o mundo inteiro está sendo governado por sudras, ou homens da classe dos trabalhadores braçais, há muitas discrepâncias na sociedade. É para mitigar todas estas discrepâncias que adotamos este movimento para a consciência de Krishna. Se a classe dos brahmanas for realmente estabelecida, as outras ordens de bem-estar social seguirão automaticamente, da mesma forma que se o cérebro está perfeitamente em ordem, as outras partes do corpo, tais como os braços, o estômago e as pernas, funcionarão muito bem.
O objetivo último deste movimento é educar as pessoas no amor a Deus. O Senhor Caitanya Mahaprabhu aprova a conclusão de que a perfeição máxima da vida humana é aprender a amar a Deus. O movimento para a consciência de Krishna nada tem a ver com a religião hindu ou qualquer outro sistema de religião. Nenhum cavalheiro cristão estará interessado em mudar sua fé cristã para a fé hindu. Da mesma forma, nenhum cavalheiro hindu, que seja culto, estará disposto a passar para a fé cristã. Mudanças desse tipo são para homens que não têm status social firmado. Mas todos estarão interessados em compreender a filosofia e ciência de Deus e levá-la a sério. Deve-se compreender claramente que o movimento para a consciência de Krishna não está pregando a suposta religião hindu. Estamos apresentando uma cultura espiritual que pode resolver todos os problemas da vida, e por isso ela está sendo aceita em todo o mundo.
IV.
Compreendendo
Krsna e
Cristo
Krsna ou Cristo – o nome é o mesmo
1974. Próximo ao centro da ISKCON em Frankfurt am Main, Alemanha Ocidental, Srila Prabhupada e vários de seus discípulos dão uma caminhada matinal com o Padre Emmanuel Jungclaussen, um monje beneditino do Mosteiro Niederalteich. Notando que Srila Prabhupada traz consigo contas de meditação semelhantes ao rosário, Padre Emmanuel explica que ele também canta uma oração constante: “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de nós”. A seguinte conversação sucede:
Srila Prabhupada: Qual é o significado da palavra Cristo?
Padre Emmanuel: Cristo vem do grego Christos, significando “o ungido.”
Srila Prabhupada: Christos é a versão grega da palavra Krsna.
Padre Emmanuel: Isso é muito interessante.
Srila Prabhupada: Quando uma pessoa indiana chama por Krsna, muitas vezes ela diz: “Krsta.” Krsta é uma palavra sânscrita que significa “atração.” Assim quando nos dirigimos a Deus como “Cristo”, “Krsta”, ou “Krsna”, indicamos a mesma Suprema Personalidade de Deus todo-atrativa. Quando Jesus dizia: “Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso nome,” esse nome de Deus era “Krsta” ou “Krsna.” O senhor concorda?
Padre Emmanuel: Creio que Jesus, como o filho de Deus, tem nos revelado o verdadeiro nome de Deus: Cristo. Podemos chamar Deus de “Pai”, mas se quisermos chamá-lO por Seu nome verdadeiro, teremos que dizer “Cristo.”
Srila Prabhupada: Sim. “Cristo” é outra forma de dizer Krsta, e “Krsta” é outra maneira de pronunciar Krsna, o nome de Deus. Jesus disse que devemos glorificar o nome de Deus, mas ontem eu ouvi um teólogo dizer que Deus não tem nome – que só podemos chamá-lO de “Pai.” Um filho pode chamar seu pai de “Pai,” mas o pai também tem um nome específico. De forma semelhante, “Deus” é o nome geral da Suprema Personalidade de Deus, cujo nome específico é Krsna. Portanto, quer o senhor chame Deus de “Cristo,” “Krsta,” ou “Krsna,” em última análise o senhor está se dirigindo à mesma Suprema Personalidade de Deus.
Padre Emmanuel: Sim, se falamos do verdadeiro nome de Deus, estão devemos dizer: “Christos.” Em nossa religião, temos a trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Cremos que só poderemos conhecer o nome de Deus pela revelação do Filho de Deus. Jesus Cristo revelou o nome do pai, e por isso consideramos Cristo como o nome revelado de Deus.
Srila Prabhupada: Na verdade, não importa-Krsna ou Cristo-o nome é o mesmo. O ponto principal é seguir os preceitos das escrituras védicas que recomendam o cantar do nome de Deus nesta era. O método mais fácil é cantar o maha-mantra: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare. Rãma e Krsna são nomes de Deus, e Hare é a energia de Deus. Então, quando cantamos o maha-mantra, dirigimo-nos a Deus juntamente com Sua energia. Esta energia é de dois tipos, a espiritual e a material. No momento estamos nas garras da energia material. Por isso, oramos a Krsna para que Ele, por favor, nos salve do serviço à energia material e nos aceite no serviço à energia espiritual. Essa é toda a nossa filosofia. Hare Krsna significa: “Ó energia de Deus, ó Deus [Krsna], por favor, ocupai-me em Vosso serviço.” É nossa natureza prestar serviço. De alguma forma, acabamos servindo a coisas materiais, mas, quando este serviço é transformado no serviço à energia espiritual, então nossa vida é perfeita. Praticar bhakti-yoga [serviço amoroso a Deus] significa livrar-se de designações, tais como “hindu,” “muçulmano,” “cristão,” isso ou aquilo, e simplesmente servir a Deus. Criamos as religiões cristã, hindu e maometana, mas quando chegamos a uma religião sem designações, em que não pensamos que somos hindus, ou cristãos, ou maometanos, então podemos falar de religião pura, ou bhakti.
Padre Emmanuel: Mukti?
Srila Prabhupada: Não, bhakti. Quando falamos de bhakti, mukti [liberação das misérias materiais] está incluída. Sem bhakti não há mukti, mas se agimos na plataforma de bhakti, então mukti está incluída. Aprendemos isso no Bhagavad-gita [14.26]:
mam ca yo ‘vyabhicarena
bhakti-yogena sevate
sa gunam samatityaitan
brahma-bhuyaya kalpate
“Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno, que não cai em nenhuma circunstância, imediatamente transcende os modos da natureza material e desse modo chega ao nível de Brahman.”
Padre Emmanuel: Por acaso Brahman é Krishna?
Srila Prabhupada: Krishna é Parabrahman. Brahman é compreendido sob três aspectos: como Brahman impessoal, como Paramatma localizado e como Brahman pessoal. Krishna é pessoal e é o Brahman Supremo, pois em última análise Deus é uma pessoa. No Srimad-Bhagavatam [1.2.11] isto é confirmado:
vadanti tat tattva-vidas
tattvam yaj-jnanam advayam
brahmeti paramatmeti
bhagavan iti sabdyate
“Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta chamam esta substância não dual de Brahman, Paramatma ou Bhagavan.” O aspecto da Personalidade Suprema é a compreensão última de Deus. Ele tem plenamente todas as seis opulências: Ele é o mais forte, o mais rico, o mais belo, o mais famoso, o mais sábio e o mais renunciado.
Padre Emmanuel: Sim, eu concordo.
Srila Prabhupada: Porque Deus é absoluto, Seu nome, Sua forma e Suas qualidades também são absolutas e não são diferentes dEle. Portanto, cantar o santo nome de Deus significa associar-se diretamente com Ele. Quando nos associamos com Deus, adquirimos qualidades divinas, e quando nos purificamos completamente, tornamo-nos companheiros do Senhor Supremo.
Padre Emmanuel: Mas nosso entendimento do nome de Deus é limitado.
Srila Prabhupada: Sim, nós somos limitados, mas Deus é ilimitado. E por Ele ser ilimitado, ou absoluto, Ele tem nomes ilimitados, cada um dos quais é Deus. Podemos entender Seus nomes na medida do desenvolvimento de nossa compreensão espiritual.
Padre Emmanuel: Posso fazer-lhe uma pergunta? Nós, cristãos, também pregamos o amor a Deus, e tentamos compreender o amor a Deus e prestar-Lhe serviço com todo o nosso coração e toda nossa alma. Agora, qual é a diferença entre o seu movimento e o nosso? Por que vocês mandam seus discípulos pregar o amor a Deus nos países ocidentais quando o evangelho de Jesus Cristo está propondo a mesma mensagem?
Srila Prabhupada: O problema é que os cristãos não seguem os mandamentos de Deus. O senhor não concorda comigo?
Padre Emmanuel: Sim, em grande parte o senhor está certo.
Srila Prabhupada: Então, qual é o significado do amor que os cristãos têm por Deus? Se o senhor não segue as ordens de Deus, então onde está o seu amor? Por isso, nós viemos ensinar o que significa amar a Deus: se o senhor O ama, não pode desobedecer às Suas ordens. E se o senhor é desobediente, o seu amor não é verdadeiro.
Em todo o mundo, as pessoas amam, não a Deus, mas sim a seus cães. O movimento para a consciência de Krishna é portanto necessário para ensinar as pessoas a reviver seu amor esquecido por Deus. Não somente os cristãos, mas também os hindus, os maometanos e todos os demais são culpados. Eles se rotulam como “cristão,” “hindu,” ou “maometano,” mas não obedecem a Deus. Esse é o problema.
Visitante: O senhor poderia dizer de que maneira os cristãos são desobedientes?
Srila Prabhupada: Sim. O primeiro ponto é que eles violam o mandamento “Não matarás,” mantendo matadouros. O senhor concorda que este mandamento está sendo violado?
Padre Emmanuel: Pessoalmente, eu concordo.
Srila Prabhupada: Bom. Então, se os cristãos querem amar a Deus, eles têm que parar de matar animais.
Padre Emmanuel: Mas o ponto mais importante...
Srila Prabhupada: Se deixar passar um ponto, haverá erro em seu cálculo. Não importando se o senhor vai adicionar ou subtrair depois disso, o erro já está no cálculo, e tudo que vier a seguir também será defeituoso. Não podemos simplesmente aceitar aquela parte da escritura da qual gostamos, e rejeitar o que não gostamos, e ainda assim esperar obter o resultado. Por exemplo, uma galinha põe ovos com sua parte traseira e come com seu bico. Talvez um fazendeiro considere: “A parte da frente da galinha dá muitos gastos, porque eu tenho que alimentá-la. É melhor tirá-la fora.” Mas se estiver faltando a cabeça, não haverá mais ovos porque o corpo estará morto. Analogamente, se rejeitamos a parte difícil das escrituras e obedecemos à parte que gostamos, tal interpretação não nos ajudará. Temos que aceitar todos os preceitos das escrituras tais como eles são dados, e não apenas aqueles que nos convêm. Se o senhor não segue a primeira ordem, “Não mataras,” então qual será a possibilidade de amar a Deus?
Visitante: Os cristãos consideram este mandamento aplicável aos seres humanos, e não aos animais.
Srila Prabhupada: Isso significa que Cristo não era inteligente o bastante para usar a palavra certa: assassinar. Há o termo matar e o termo assassinar. O termo assassinar refere-se aos seres humanos. O senhor acha que Jesus não era inteligente o bastante para usar a palavra certa-assassinar-em vez da palavra matar? Matar significa qualquer tipo de matança, e especialmente matança de animais. Se Jesus tivesse querido se referir simplesmente à matança de seres humanos, ele teria usado a palavra assassinar.
Padre Emmanuel: Mas no Velho Testamento o mandamento “Não matarás” refere-se a assassínio. E quando Jesus dizia, “Não matarás,” ele estendia este mandamento para significar que um ser humano deve não somente abster-se de matar outro ser humano, mas também deve tratá-lo com amor. Ele jamais falou sobre a relação do homem com outras entidades vivas, mas somente sobre sua relação com outros seres humanos. Quando ele dizia, “Não matarás,” ele também se referia ao sentido mental e emocional – de que não devemos insultar ninguém nem magoar ninguém, nem tratar mal, e assim por diante.
Srila Prabhupada: Não estamos interessados neste ou naquele testamento, mas apenas nas palavras usadas nos mandamentos. Se o senhor quer interpretar essas palavras, isso é outra coisa. Entendemos o significado direto. “Não matarás” significa, “os cristãos não devem matar.” O senhor poderá propor interpretações a fim de manter o atual modo de ação, mas nós entendemos claramente que não há necessidade de interpretação. A interpretação se faz necessária quando as coisas não estão claras. Mas aqui o significado é claro. “Não matarás” é uma instrução clara. Por que haveríamos de interpretá-la?
Padre Emmanuel: Mas comer plantas também não é matar?
Srila Prabhupada: A filosofia Vaisnava ensina que nem as plantas nós devemos matar desnecessariamente. No Bhagavad-gita [9.26], Krishna diz:
patram puspam phalam toyam
yo me bhaktya prayacchati
tad aham bhakti-upahrtam
asnami prayatatmanah
“Se alguém Me oferecer, com amor e devoção, uma folha, uma flor, uma fruta ou um pouco dágua, Eu aceitarei.” Nós só oferecemos a Krishna o tipo de alimento que Ele exige, e então comemos os restos. Se oferecer alimentos vegetarianos a Krishna fosse pecaminoso, então este seria um pecado de Krishna, e não nosso. Mas Deus é apapa-viddha – as reações pecaminosas não são aplicáveis a Ele. Ele é como o sol, o qual é tão poderoso que pode purificar até mesmo a urina – algo que para nós é impossível. Krishna também pode ser comparado a um rei, que pode mandar enforcar um assassino, mas que está além da punição, por ser muito poderoso. Comer alimentos oferecidos primeiramente também pode ser comparado a um soldado que mata durante o tempo de guerra. Durante uma guerra, quando o comandante manda um homem atacar, o soldado obediente que mata o inimigo receberá uma medalha. Mas se o mesmo soldado matar alguém por sua própria conta, ele será castigado. De modo semelhante, quando comemos apenas prasada [os restos do alimento oferecido a Krishna], não cometemos nenhum pecado. Isso é confirmado no Bhagavad-gita [3.13]:
yajna-sistasinah santo
mucyante sarva-kilbisaih
bhunjate te tv agham papa
ye pacanty atma-karanat
“Os devotos do Senhor são liberados de todos os tipos de pecado porque comem alimentos que são primeiramente oferecidos em sacrifício. Os demais, que preparam os alimentos para desfrute pessoal dos sentidos, na verdade comem apenas pecado.”
Padre Emmanuel: Krishna não pode dar permissão para se comer animais?
Srila Prabhupada: Sim – no reino animal. Mas o ser humano civilizado, o ser humano religioso, não se destina a matar e comer animais. Se o senhor parar de matar animais e cantar o santo nome Cristo, tudo será perfeito. Eu não estou aqui para ensiná-lo, mas sim para solicitar-lhe que, por favor, cante o nome de Deus. A Bíblia também exige isto de vocês. Portanto, cooperemos amavelmente e cantemos, e se o senhor tem preconceito contra cantar o nome Krishna, então cante “Christos” ou “Krishta” – não há diferença. Sri Caitanya dizia: namnam akari bahudha nija-sarva-saktih. “Deus tem milhões e milhões de nomes, e, porque não há diferença entre o nome de Deus e Ele mesmo, cada um desses nomes tem a mesma potência que Deus.” Portanto, mesmo que o senhor aceite designações, tais como “hindu”, “cristão”, ou “maometano”, se o senhor simplesmente cantar o nome de Deus encontrado em suas próprias escrituras, o senhor alcançará a plataforma espiritual. A vida humana destina-se à auto-realização – a aprender como amar a Deus. Essa é a beleza eterna do homem. Quer o senhor cumpra este dever como hindu, cristão ou maometano, isso não importa – mas cumpra-o!
Padre Emmanuel: Concordo com o senhor.
Srila Prabhupada: [apontando para um colar com 108 contas para meditação]: Nós sempre levamos essas contas conosco, assim como o senhor tem seu rosário. O senhor está cantando, mas por que os outros cristãos também não cantam? Por que haveriam eles de perder essa oportunidade como seres humanos? Os cães e gatos não podem cantar, mas nós podemos porque temos uma língua humana. Se cantarmos os santos nomes de Deus, nada teremos a perder; pelo contrário, ganharemos e muito. Meus discípulos praticam o cantar de Hare Krishna constantemente. Eles poderiam também ir ao cinema, ou fazer tantas outras coisas, mas eles abandonaram tudo. Eles não comem peixe, nem carne, nem ovos; eles não tomam intoxicantes, não bebem, não fumam, não jogam, não especulam e não tem relações sexuais ilícitas. Mas eles cantam o santo nome de Deus. Se o senhor quer cooperar conosco, então vá às igrejas e cante, “Cristo”, “Krsta” ou “Krsna.” Qual poderia ser a objeção?
Padre Emmanuel: Nenhuma. Por mim, eu teria prazer em me juntar a vocês.
Srila Prabhupada: Não, estamos falando com o senhor como representante da Igreja Cristã. Em vez de manter as igrejas fechadas, por que não dá-las a nós? Cantaríamos o santo nome de Deus ali por vinte e quatro horas diariamente. Em muitos lugares compramos igrejas que estavam praticamente fechadas porque ninguém as estava freqüentando. Em Londres, vi centenas de igrejas que estavam fechadas ou eram usadas para propósitos mundanos. Compramos uma de tais igrejas em Los Angeles. Ela foi-nos vendida porque ninguém a freqüentava mais. Mas se o senhor visitar essa mesma igreja hoje em dia, encontrará milhares de pessoas. Qualquer pessoa inteligente pode entender o que é Deus em cinco minutos; não são necessárias cinco horas.
Padre Emmanuel: Compreendo.
Srila Prabhupada: Mas as pessoas não. A doença delas é que elas não querem compreender.
Padre Emmanuel: Eu acho que compreender Deus não é uma questão de inteligência, mas sim de humildade.
Srila Prabhupada: Humildade significa inteligência. Os mansos e humildes têm o reino de Deus. Isso é afirmado na Bíblia, não é? Mas a filosofia dos patifes é que todos são Deus, e hoje em dia esta idéia tem se tornado popular. Portanto, ninguém é manso e humilde. Se todos acham que são Deus, por que seriam mansos e humildes? Por isso, eu ensino a meus discípulos como se tornar manso e humilde. Eles sempre oferecem suas respeitosas reverências no templo e ao mestre espiritual, e dessa maneira eles avançam. As qualidades de humildade e mansidão nos levam rapidamente à compreensão espiritual. Nas escrituras védicas se diz: “Àqueles que têm fé firme em Deus e no mestre espiritual, que é Seu representante, o significado das escrituras védicas é revelado.”
Padre Emmanuel: Mas essa humildade não deveria ser oferecida a todos os demais também?
Srila Prabhupada: Sim, mas há dois tipos de respeito: o especial e o comum. Sri Krishna Caitanya ensinou-nos que não devemos esperar honra para nós próprios, mas devemos sempre respeitar a todos os demais, mesmo aqueles que nos desrespeitem. Mas, deve-se dar respeito especial a Deus e a Seu devoto puro.
Padre Emmanuel: Sim, eu concordo com o senhor.
Srila Prabhupada: Acho que os sacerdotes cristãos devem cooperar com o movimento para a consciência de Krishna. Eles devem cantar o nome Cristo ou Christos e devem parar de indultar a matança de animais. Este programa obedece aos ensinamentos da Bíblia; não é minha filosofia. Por favor, aja de acordo com esses ensinamentos e o senhor verá que a situação do mundo mudará.
Padre Emmanuel: Muito obrigado.
Srila Prabhupada: Hare Krishna.
Cristo, cristãos e Krishna
O líder espiritual do movimento Hare krishna reconhece aqui o Senhor Jesus Cristo como “o filho de Deus, o representante de Deus...nosso guru...nosso mestre espiritual”. Não obstante, tem umas palavras duras para aqueles que atualmente declaram ser seguidores de Cristo...
O Srimad-Bhagavatam afirma que qualquer pregador autêntico da consciência de Deus deve ter as qualidades de titiksa (tolerância) e karuna (compaixão). No caráter do Senhor Jesus Cristo encontramos ambas as qualidades. Ele era tão tolerante que mesmo enquanto estava sendo crucificado, não condenou ninguém. E era tão compassivo que orou ao Senhor para perdoar as muitas pessoas que estavam tentando matá-lo. (Evidentemente, elas não poderiam matá-lo realmente. Mas, por pensarem que ele poderia ser morto, estavam cometendo uma grande ofensa.) Enquanto Cristo estava sendo crucificado ele orava: “Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que estão fazendo.”
Um pregador da consciência de Deus é um amigo para todos os seres vivos. O Senhor Jesus Cristo exemplificou isto ensinando: “Não matarás.” Mas os cristãos gostam de interpretar mal esta instrução. Eles acham que os animais não têm alma, e por isso acham que podem livremente matar bilhões de animais inocentes nos matadouros. Então, embora haja muitas pessoas que professem ser cristãs, seria muito difícil encontrar uma que siga estritamente as instruções do Senhor Jesus Cristo.
Um vaisnava fica infeliz de ver o sofrimento dos outros. Por isso, o Senhor Jesus Cristo concordou em ser crucificado – para livrar os outros do sofrimento deles. Mas seus seguidores são tão infiéis que tomaram a seguinte decisão: “Que Cristo sofra por nós, e nós continuaremos pecando.” Eles amam tanto a Cristo que pensam: “Meu caro Cristo, somos muito fracos. Não podemos abandonar nossas atividades pecaminosas. Então, por favor, sofre por nós.”
Jesus Cristo ensinou: “Não matarás.” Mas agora seus seguidores decidiram: “Vamos matar mesmo assim,” e abrem grandes matadouros modernos e científicos. “Se houver algum pecado nisso, Cristo sofrerá por nós.” Esta é uma conclusão muito abominável.
Cristo pode aceitar os sofrimentos pelos pecados anteriores de seus devotos. Mas primeiramente eles têm de ser sensatos: “Por que deveria eu fazer Jesus Cristo sofrer por meus pecados? Vou parar com minhas atividades pecaminosas.”
Suponhamos que um homem – o filho favorito de seu pai – cometa um assassinato. E suponhamos que ele pense: “Se eu tiver que ser castigado, meu pai poderá sofrer por mim.” Acaso a lei permitirá isso? Quando o assassino for preso e disser: “Não, não. Soltem-me e prendam meu pai; eu sou seu filho predileto,” acaso os policiais acederão ao pedido desse tolo? Ele cometeu o assassinato, mas pensa que seu pai deve sofrer o castigo! Acaso esta é uma proposta sensata? “Não. Você cometeu o assassinato; você tem que ser enforcado.” De modo semelhante, quando você comete atividades pecaminosas, você tem que sofrer – e não Jesus Cristo. Esta é a lei de Deus.
Jesus Cristo era uma personalidade tão grandiosa – o filho de Deus, o representante de Deus. Ele não tinha defeitos. Mesmo assim, foi crucificado. Ele quis transmitir a consciência de Deus, mas, como retribuição, eles o crucificaram – como foram ingratos! Não souberam dar valor a sua pregação. Mas nós o sabemos e damos-lhe toda a honra devida ao representante de Deus.
Evidentemente, a mensagem que Cristo pregou estava em conformidade com sua época, local e país particulares, e era adequada para um grupo particular de pessoas. Mas não resta dúvida de que ele é o representante de Deus. Por isso, adoramos o Senhor Jesus Cristo e oferecemos-lhe reverências.
Certa vez, em Melbourne, um grupo de ministros cristãos veio visitar-me. Eles perguntaram: “Que idéia tem o senhor de Jesus Cristo?” Eu lhe respondi: “Ele é nosso guru. Como ele está pregando a consciência de Deus, ele é nosso mestre espiritual.” Os ministros apreciaram muito isto.
Na verdade, qualquer pessoa que esteja pregando as glórias de Deus deve ser aceita como um guru. Jesus Cristo é uma grande personalidade assim. Não devemos considerá-lo um ser humano comum. As escrituras dizem que qualquer um que considere o mestre espiritual um homem comum tem a mentalidade diabólica. Se Jesus Cristo fosse um homem comum, ele não poderia ter transmitido a consciência de Deus.
Não matarás
Julho de 1973. Próximo a Paris, em um retiro monástico, Srila Prabhupada conversou com o Cardeal Jean Daniélou: “...A Bíblia não diz unicamente: ‘Não mate o ser humano’. Diz em geral: ‘Não matarás’,... por que o senhor interpreta isto à sua própria conveniência?”
Srila Prabhupada: Jesus Cristo disse: “Não matarás,” Por que é, então, que o povo cristão está matando animais?
Cardeal Daniélou: Sem dúvida, no cristianismo, é proibido matar, mas acreditamos que há uma diferença entre a vida de um ser humano e a vida das bestas. A vida de um ser humano é sagrada porque o homem é feito à imagem de Deus; por isso, matar um ser humano é proibido.
Srila Prabhupada: Mas a Bíblia não diz apenas: “Não mate o ser humano.” Ela diz em sentido mais amplo: “Não matarás.”
Cardeal Daniélou: Acreditamos que apenas o ser humano é sagrado.
Srila Prabhupada: Esta é uma interpretação sua. O mandamento é “Não matarás.”
Cardeal Daniélou: É necessário que o homem mate animais para ter o que comer.
Srila Prabhupada: Não. O homem pode comer cereais, legumes, frutas e leite.
Cardeal Daniélou: Nenhuma carne?
Srila Prabhupada: Não. Os seres humanos destinam-se a comer alimento vegetariano. O tigre não vem comer suas frutas. Seu alimento prescrito é a carne animal. Mas o alimento do homem são os legumes, frutas, cereais e produtos lácteos. Como, então, pode o senhor dizer que matar animais não é pecado?
Cardeal Daniélou: Acreditamos que isso é uma questão de motivação. Se o animal é morto para dar de comer aos famintos, então isso se justifica.
Srila Prabhupada: Mas considere a vaca: nós bebemos o seu leite; por isso ela é nossa mãe. O senhor concorda?
Cardeal Daniélou: Sim, certamente.
Srila Prabhupada: Então se a vaca é sua mãe, como o senhor pode deixar que a matem? O senhor tira o leite dela, e quando ela está velha e não dá mais leite, o senhor corta-lhe a garganta. Acaso isto é humano? Na Índia, aqueles que comem carne são aconselhados a matar animais inferiores, tais como as cabras, os porcos ou búfalo. Mas matar vacas é o maior dos pecados. Ao pregar a consciência de Krishna, nós pedimos às pessoas que não comam nenhum tipo de carne, e meus discípulos seguem este princípio estritamente. Mas se, sob certas circunstâncias, os outros são obrigados a comer carne, então eles devem comer a carne de algum animal inferior. Não matem vacas. Este é o maior dos pecados. E enquanto o homem for pecaminoso, ele não poderá entender Deus. A principal missão do ser humano é entender Deus e amá-lO. Mas se o senhor continuar pecando, não será capaz de entender Deus – isto para não falar de amá-lO.
Cardeal Daniélou: Creio que talvez este não seja um ponto essencial. O importante é amar a Deus. Os mandamentos práticos podem variar de uma religião para outra.Srila Prabhupada: Então, na Bíblia o mandamento prático de Deus é que o senhor não pode matar; portanto matar vacas é um pecado para o senhor.
Cardeal Daniélou: Deus diz aos indianos que matar não é bom, e diz aos judeus que...
Srila Prabhupada: Não, não. Jesus Cristo ensinou: “Não matarás.” Por que o senhor interpreta isso de modo a se ajustar a sua própria conveniência?
Cardeal Daniélou: Mas Jesus permitiu o sacrifício do Cordeiro Pascal.
Srila Prabhupada: Mas ele jamais manteve um matadouro.
Cardeal Daniélou: [Ri] Não, mas ele comeu carne.
Srila Prabhupada: Quando não há alimento, alguém pode comer carne para não morrer de fome. Isto é outra coisa. Mas é muito pecaminoso regularmente manter matadouros apenas para a satisfação da língua. Na verdade, vocês nunca terão nem mesmo uma sociedade humana até que se suspenda este costume cruel de manter matadouros. E, embora a matança de animais às vezes seja necessária para a sobrevivência, pelo menos o animal-mãe, a vaca, não deve ser morto. Isto é apenas uma questão de decoro humano. No movimento para a consciência de Krishna nosso costume é que não permitimos a matança de nenhum animal. Krishna diz: patram puspam phalam toyam yo me bhaktya prayacchati: “Legumes, frutas, leite e cereais devem ser oferecidos a Mim com devoção.” [Bhagavad-gita 9.26] Só tomamos os restos do alimento de Krishna (prasada). As árvores oferecem-nos muitas variedades de frutas, mas as árvores não são mortas. Evidentemente, uma entidade viva é alimento para outra entidade viva, mas isto não significa que o senhor pode matar sua mãe para se alimentar. As vacas são inocentes; elas nos dão o leite. O senhor tira-lhes o leite – e depois mata-as no matadouro. Isto é pecaminoso.
Estudante: Srila Prabhupada, a sansão do cristianismo de comer carne baseia-se no ponto de vista de que as espécies inferiores de vida não tem uma alma como a dos seres humanos.
Srila Prabhupada: Isso é tolice. Antes de mais nada, precisamos entender a evidência da presença da alma dentro do corpo. Daí então poderemos investigar se o ser humano tem uma alma e a vaca não. Quais são as características que diferenciam a vaca do homem? Se encontrarmos uma diferença nas características, poderemos dizer que no animal não existe alma. Mas se vemos que o animal e o ser humano têm as mesmas características, como, então, vocês podem dizer que o animal não tem alma? Os sintomas gerais são que o animal come, vocês comem; o animal dorme, vocês dormem; o animal reproduz, vocês reproduzem; o animal se defende e vocês se defendem. Onde está a diferença?
Cardeal Daniélou: Admitimos que no animal pode haver o mesmo tipo de existência biológica que no homem, mas não existe alma. Cremos que a alma é uma alma humana.
Srila Prabhupada: Nosso Bhagavad-gita diz que sarva-yonisu: “Em todas as espécies de vida existe alma.” O corpo é como um conjunto de roupas. O senhor está usando vestes negras; eu estou usando vestes açafroadas. Mas, por detrás das vestes, o senhor é um ser humano, e eu também sou um ser humano. De modo semelhante, os corpos das diferentes espécies são assim como diferentes tipos de roupa. Há 8.400.000 espécies, ou roupas, mas dentro de cada uma delas há uma alma espiritual, uma parte integrante de Deus. Suponhamos que um homem tem dois filhos, não igualmente meritórios. Pode ser que um seja juiz da Corte Suprema e o outro seja um operário comum, mas o pai considera ambos como filhos. Ele não faz distinção de que o filho que é juiz é muito importante, e o filho operário não é importante. E se o filho juiz disser, “meu caro pai, seu outro filho é inútil; vou decapitá-lo e comê-lo,” acaso o pai permitirá isso?
Cardeal Daniélou: Certamente que não, mas a idéia de que toda a vida faz parte da vida de Deus é difícil para nós aceitarmos. Há uma grande diferença entre a vida humana e a vida animal.
Srila Prabhupada: Essa diferença deve-se ao desenvolvimento da consciência. No corpo humano, há consciência desenvolvida. Mesmo uma árvore tem alma, mas a consciência da árvore não é muito desenvolvida. Se o senhor corta uma árvore, ela não resiste. Na verdade, ela resiste, mas apenas até certo ponto. Há um cientista chamado Jagadish Chandra Bose que fez uma máquina a qual mostra que as árvores e plantas são capazes de sentir dor quando cortadas. E podemos ver diretamente que quando alguém vem matar um animal, este resiste, chora e emite um som horrível. De maneiras que é uma questão de desenvolvimento de consciência. Mas a alma existe dentro de todos os seres vivos.
Cardeal Daniélou: Porém, metafisicamente, a vida do homem é sagrada. Os seres humanos pensam em um nível superior ao dos animais.Srila Prabhupada: Que nível superior é esse? O animal come para manter seu corpo, e o senhor também come a fim de manter seu corpo. A vaca come capim no campo, e o ser humano come carne de um enorme matadouro cheio de máquinas modernas. Mas só porque o senhor tem grandes máquinas e uma cena horripilante, enquanto o animal simplesmente come capim, isso não significa que o senhor é tão avançado que somente dentro de seu corpo existe uma alma e que não há alma dentro do corpo do animal. Isto é ilógico. Podemos ver que as características básicas são as mesmas no animal e no ser humano.
Cardeal Daniélou: Mas somente nos seres humanos encontramos uma busca metafísica do sentido da vida.
Srila Prabhupada: Sim. Então, investigue metafisicamente por que o senhor crê que não existe alma dentro do animal – isto é metafísica. Se o senhor está pensando metafisicamente, não tem problema. Mas se o senhor está pensando como um animal, para que serve o seu estudo metafísico? Metafísico significa “acima do físico” ou, em outras palavras, “espiritual.” No Bhagavad-gita Krishna diz: sarva-yonisu kaunteya: “Em todos os seres vivos existe uma alma espiritual.” Isto é entendimento metafísico. Agora, ou o senhor aceita os ensinamentos de Krishna como metafísicos, ou terá de se valer da opinião de um tolo de terceira classe, considerando-a metafísica. Qual o senhor aceita?Cardeal Daniélou: Mas por que Deus cria alguns animais que comem outros animais? Parece haver um defeito na criação.Srila Prabhupada: Não há defeito algum. Deus é muito bondoso. Se o senhor quer comer animal, então Ele dar-lhe-á toda a facilidade. Deus dar-lhe-á o corpo de um tigre em sua próxima vida para que o senhor possa comer carne à vontade. “Por que vocês estão mantendo matadouros? Vou lhes dar presas e patas. Agora comam.” De modo que os comedores de carne têm reservado para si este castigo. Os comedores de animais tornam-se tigres, lobos, gatos e cães em sua próxima vida – para terem mais facilidade.
V.
Praticando
Yoga na era
das desavenças
Superconsciência
As metas dos entusiastas da yoga ocidental dos dias que correm tornam-se insignificantes quando comparadas com as realizações dos yogis da Índia antiga, que, segundo registros históricos, conseguiam tornar-se menores que átomos e mais leves que o ar, e que podiam viajar, sem veículos, por qualquer parte do universo. Todavia, mesmo essas super-realizações, diz Srila Prabhupada, são “apenas um passo adiante.” Como o verdadeiro pináculo da perfeição humana, a superconsciência, é obtenível – aqui e agora – é revelado por Srila Prabhupada na seguinte palestra dada em 1967.
A consciência de Krishna é a mais elevada prática de yoga aceita por treinados yogis devocionais. O sistema de yoga, como se afirma na fórmula de prática de yoga padrão dada pelo Senhor Krishna no Bhagavad-gita, e como se recomenda na disciplina da yoga de Patanjali, é diferente da hatha-yoga praticada hoje em dia, como é geralmente entendida nos países ocidentais.
Real pratica de yoga significa controlar os sentidos e, depois que tal controle é estabelecido, concentrar a mente na forma de Narayana da Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna. O Senhor Krishna é a original Personalidade Absoluta, a Divindade, e todas as outras formas de Visnu – com quatro mãos, decoradas com búzio, lótus, maça e roda – são expansões plenárias de Krishna.
No Bhagavad-gita recomenda-se que devemos meditar na forma do Senhor. Para praticar a concentração da mente, é preciso sentar-se em local solitário e santificado por uma atmosfera sagrada, e o yogi deve observar as regras e regulações de brahmacarya – levar uma vida de estrita auto-abstinência e celibato. Ninguém pode praticar yoga em cidades congestionadas, levando uma vida de extravagâncias, incluindo práticas sexuais irrestritas e adultério da língua.
Já afirmamos que prática de yoga significa controlar os sentidos, e começamos a controlar os sentidos controlando a língua. Não podemos permitir que a língua tome todos os tipos de alimentos e bebidas proibidos, e ao mesmo tempo nos aprimoremos na prática da yoga. É um fato muito lamentável que muitos ditos yogis, não autorizados e transviados, venham agora para o Ocidente e explorem a inclinação das pessoas pela yoga. Esses yogis não autorizados ousam mesmo dizer publicamente que se pode beber e ao mesmo tempo praticar meditação.
Há cinco mil anos, no diálogo Bhagavad-gita, o Senhor Krishna recomendou a prática da yoga a Seu discípulo Arjuna, mas Arjuna abertamente expressou sua incapacidade de seguir as estritas regras e regulações da yoga. Devemos ser práticos em todos os campos de atividades. Não devemos perder nosso tempo precioso simplesmente praticando alguns exercícios de ginástica em nome da yoga. Verdadeira yoga é buscar a Superalma de quatro mãos dentro de nosso coração, e vê-lO perpetuamente em meditação. Essa meditação contínua chama-se samadhi. Se, contudo, quisermos meditar em algo vazio ou impessoal, será necessário um tempo muito prolongado para atingir algo através da pratica de yoga. Não podemos concentrar nossa mente em algo vazio ou impessoal. Verdadeira pratica da yoga significa fixar a mente na pessoa do Narayana de quatro mãos que mora no coração de todos.
Às vezes se diz que através da meditação alguém compreenderá que Deus está situado sempre dentro do coração, mesmo quando não se sabe disso. Deus está situado dentro do coração de todos. Ele está situado não somente no coração do ser humano, mas também nos corações dos cães e gatos. O Bhagavad-gita atesta isto com a declaração de que Isvara, o supremo controlador do mundo, está situado no coração de todos. Ele está presente não apenas no coração de todos, como também dentro dos átomos. Nenhum lugar é vazio; nenhum lugar é desprovido da presença do Senhor.
O aspecto do Senhor através do qual Ele está presente em toda a parte chama-se Paramatma. Atma significa a alma individual, e Paramatma significa a Superalma individual. Tanto a atma quanto o Paramatma são pessoas individuais. A diferença entre eles, contudo, é que a atma, ou alma, está presente apenas em um local particular, ao passo que o Paramatma está presente em toda a parte.
A este respeito, o exemplo do sol é muito bom. Uma pessoa individual pode estar situada em um local, mas o sol, apesar de ser uma entidade viva específica, está presente sobre a cabeça de todas as pessoas individuais. No Bhagavad-gita isto é muito bem explicado. Portanto, muito embora as qualidades de todas as entidades, incluindo o Senhor, sejam iguais, a Superalma é diferente da alma individual por quantidade de expansão. O Senhor, ou a Superalma, pode Se expandir em milhões de formas diferentes, ao passo que a alma individual não pode fazê-lo.
A Superalma, estando situada no coração de todos, pode testemunhar as atividades de todos, no passado, no presente e no futuro. Nos Upanisads se diz que a Superalma está pousada ao lado da alma individual como um amigo e testemunha. Como amigo, Ela está sempre ansiosa por trazer a alma individual de volta ao lar, de volta ao Supremo. Como testemunha, Ela é quem concede todas as bênçãos que resultam das ações do indivíduo. A Superalma dá à alma individual toda a facilidade de atingir tudo o que ela possa desejar. Mas Ela dá instruções a Seu amigo, para que ele por fim abandone todas as outras ocupações e simplesmente se renda a Deus para a bem-aventurança perpétua e vida eterna, plena de conhecimento. Esta é a última instrução do Bhagavad-gita, o mais autorizado e amplamente lido livro sobre todas as formas de yoga.
A última palavra do Bhagavad-gita, como afirmado acima, é a última palavra quanto ao aperfeiçoamento do sistema de yoga. É afirmado ainda no Bhagavad-gita que uma pessoa que está sempre absorta em consciência de Krishna é o yogi mais elevado. Que é esta consciência de Krishna?
Assim como a alma individual está presente no corpo através de sua consciência, Paramatma está presente em toda criação através de Sua superconsciência. Esta superconsciência não pode ser imitada pela alma individual, que tem conhecimento limitado: eu posso ter consciência de meu corpo, da mesma forma a Superalma sabe o que esta acontecendo dentro de meu corpo limitado, mas não posso sentir o que está acontecendo no corpo de outrem. Eu estou presente em todo o meu corpo através de minha consciência, mas não estou presente no corpo de ninguém mais através de minha consciência. Contudo, a Superalma, ou Paramatma, estando presente dentro de todos, situada em toda a parte, é consciente de toda a existência. A teoria de que a alma e a Superalma são iguais não é aceitável, porque a consciência da alma individual não pode agir em superconsciência. Esta superconsciência só pode ser atingida, ajustando-se a consciência individual à superconsciência; e este processo de ajustamento é chamado rendição, ou consciência de Krishna.
Nos ensinamentos do Bhagavad-gita aprendemos claramente que no começo Arjuna não queria lutar com seus parentes, mas, após entender o Bhagavad-gita, quando ajustou sua consciência à superconsciência de Krishna, sua consciência tornou-se consciência de Krishna. Uma pessoa em plena consciência de Krishna age segundo os ditames de Krishna, e dessa maneira Arjuna concordou em lutar na batalha de Kuruksetra.
No começo da consciência de Krishna este ditame do Senhor é recebido através do meio transparente do mestre espiritual. Quando uma pessoa está suficientemente treinada e age com submissa fé e amor por Krishna, sob a orientação do mestre espiritual fidedigno, o processo de ajustamento torna-se mais firme e acurado. Neste estágio Krishna dá ordens internamente. Externamente, o devoto é ajudado pelo mestre espiritual, o representante fidedigno de Krishna, e internamente o Senhor ajuda o devoto como caitya-guru, estando situado dentro do coração de todos.
Simplesmente entender que Deus está situado no coração de todos não é a perfeição. É preciso familiarizar-se com Deus interna e externamente e desse modo agir em consciência de Krishna. Este é o mais elevado estágio perfectivo para a forma humana de vida, e o estágio mais elevado em todos os sistemas de yoga.
Para um yogi perfeito há oito tipos de super-realizações:
1. Ele pode tornar-se menor que o átomo.
2. Ele pode tornar-se maior que uma montanha.
3. Ele pode tornar-se mais leve que o ar.
4. Ele pode tornar-se mais pesado que qualquer metal
5. Ele pode realizar qualquer efeito material que deseje (criar um planeta, por exemplo).
6. Ele pode, assim como o Senhor, controlar os outros.
7. Ele pode viajar por qualquer parte dentro (ou além) do universo.
8. Ele pode escolher seu próprio momento e local de morte, e renascer onde quer que deseje.
Mas, quando nos elevamos ao estágio perfectivo de receber ordens do Senhor, estamos acima do estágio das realizações materiais acima mencionadas.
O exercício respiratório do sistema de yoga que geralmente é praticado é apenas o começo do sistema. Meditação na Superalma é apenas um passo adiante. Obtenção de admirável sucesso material também é apenas um passo adiante. Mas, atingir contato direto com a Superalma e receber ordens dEla é o mais elevado estágio perfectivo.
Os exercícios respiratórios e as práticas de meditação da yoga são muito difíceis nesta era. Mesmo há cinco mil anos atrás eram muito difíceis, pois, senão, Arjuna não teria rejeitado a proposta de Krishna. Esta era de Kali é considerada uma era decaída. No momento atual, as pessoas em geral têm vida curta e são muito lentas para o entendimento da auto-realização, ou vida espiritual. Elas são, na sua maioria, desventuradas, e, sendo assim, se alguém desperta um pouquinho de interesse pela auto-realização, é desencaminhado por muitas fraudes. O único método verdadeiro para compreensão do estágio perfeito da yoga é seguir os princípios do Bhagavad-gita tais como foram postos em prática pelo Senhor Caitanya Mahaprabhu. Esta é a mais simples e a mais elevada perfeição da prática de yoga.
O Senhor Caitanya demonstrou praticamente a yoga da consciência de Krishna, simplesmente cantando os santos nomes de Krishna, tais como são mencionados no Vedanta, no Srimad-Bhagavatam e em Puranas muito importantes. A grande maioria dos indianos segue esta prática de yoga, e em muitas cidades dos Estados Unidos e outros países também esta prática está crescendo gradualmente. Ela é muito fácil e exeqüível para esta era, especialmente para aqueles que estão seriamente interessados em alcançar sucesso na yoga. Nenhum outro processo pode ser bem sucedido nesta era.
O processo de meditação adotado com seriedade era possível na Era Dourada, Satya-yuga, porque as pessoas naquela época vivam cem mil anos em média.
Na era atual, contudo, se você quer sucesso em yoga prática, adote o cantar de Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare, e sinta você mesmo que está avançando. Devemos nós mesmos saber o quanto estamos avançando na prática de yoga.
No Bhagavad-gita, esta prática da consciência de Krishna é descrita como raja-vidya, o rei de toda a erudição; raja-guhyam, o mais confidencial sistema de compreensão espiritual; pavitram, o mais puro de tudo que é puro; susukham, executado muito alegremente; e avyayam, inexarível.
Aqueles que adotaram este muito sublime sistema de bhakti-yoga, está prática de serviço devocional com amor transcendental por Krishna, podem atestar como estão desfrutando agradavelmente de sua alegre e fácil execução. Yoga significa controlar os sentidos, e bhakti-yoga significa purificar os sentidos. Quando os sentidos se purificam, eles também são, automaticamente, controlados. Você não pode suspender as atividades dos sentidos por meios artificiais, mas, se você purifica os sentidos, não somente eles se abstêm de ocupações imundas, mas também ocupam-se positivamente no transcendental serviço ao Senhor.
A consciência de Krishna não foi fabricada por nós através da especulação mental. Ela é prescrita no Bhagavad-gita, o qual diz que quando pensamos em Krishna, cantamos em Krishna, vivemos em Krishna, comemos em Krishna, conversamos em Krishna, esperamos em Krishna e nos sustemos em Krishna, regressamos a Krishna sem sombra de dúvida. E esta é a essência da consciência de Krishna.
A encarnação do amor a Deus
Faz somente quinhentos anos, o Senhor Caitanya Mahaprabhu, um grande santo e místico, profetizou que o mantra Hare Krishna seria executado em todos os povoados e aldeias do mundo. Em uma época em que o homem ocidental estava dirigindo seu espírito explorador para estudos sobre o universo físico e a circunavegação do globo, na Índia, Sri Caitanya estava inaugurando e dirigindo uma revolução canalizada para o eu interno do indivíduo. Seu movimento inundou o subcontinente, conquistou milhões de seguidores, e influenciou profundamente o futuro do pensamento filosófico e religioso tanto da Índia como do Ocidente. No seguinte discurso apresentado em novembro de 1969 no Conway Hall de Londres, Srila Prabhupada descreve a divina aparição de Sri Caitanya.
Sri Caitanya Mahaprabhu, o avatara dourado, apareceu na Índia há aproximadamente quinhentos anos. Na Índia é costume chamar um astrólogo quando nasce uma criança. Quando o Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, apareceu há cinco mil anos atrás, Seu pai mandou chamar Gargamuni, e este disse: “Esta criança encanrnou-Se anteriormente em três cores: branco, vermelho e dourado, e agora Ele aparece em cor negra.” Nas escrituras descreve-se que a cor de Krishna é negra, assim como a cor de uma nuvem. Entende-se que o Senhor Caitanya é Krishna que aparece com tez dourada.
Há muitas evidências na literatura védica de que Caitanya Mahaprabhu é uma encarnação de Krishna, e isto é confirmado por eruditos e devotos. No Srimad-Bhagavatam confirma-se que a encarnação de Krishna, ou Deus, nesta era atual, Kali-yuga, estará sempre ocupada em descrever Krishna. Ele é Krishna, mas, como um devoto de Krishna, Ele Se descreve. E nesta era a cor de Seu corpo não será negra. Isto significa que poderia ser branca, vermelha ou amarela porque essas quatro cores – branco, vermelho, amarelo e negro – são as cores assumidas pelas encarnações para as diferentes eras. Portanto, uma vez que as cores vermelha, branca e negra já haviam sido assumidas por encarnações anteriores, a cor restante, dourada, é assumida por Caitanya Mahaprabhu. Sua tez não é negra, mas Ele é Krishna.
Outra característica deste avatara é que Ele está sempre acompanhado por Seus associados. No quadro de Caitanya Mahaprabhu encontrá-lO-emos acompanhado por muitos devotos cantando. Sempre que Deus Se encarna Ele tem duas missões, como se afirma no Bhagavad-gita. Ali Krishna diz: “Sempre que Eu apareço, Minha missão é salvar os devotos piedosos e aniquilar os demônios.” Quando Krishna apareceu, Ele teve que matar muitos demônios. Se virmos um quadro de Visnu, perceberemos que Ele tem um búzio, uma flor de lótus, maça e disco. Estes dois últimos artigos destinam-se a matar demônios. Dentro deste mundo há duas classes de homens – os demônios e os devotos. Os devotos chamam-se semideuses; eles são quase como Deus porque têm qualidades divinas. Aqueles que são devotos são chamados pessoas divinas, e aqueles que são não-devotos, ateístas, são chamados demônios. De modo que Krishna, ou Deus, vem com duas missões: dar proteção aos devotos e destruir os demônios. Nesta era, a missão de Caitanya Mahaprabu também é essa: salvar os devotos e aniquilar os não devotos, os demônios. Mas nesta era Ele tem uma arma diferente. Essa arma não é uma maça, nem disco, nem qualquer arma mortal – Sua arma é o movimento sankirtana. Ele matou a mentalidade demoníaca das pessoas introduzindo o movimento sankirtana. Esta é a importância específica do Senhor Caitanya. Nesta era, as pessoas já estão se matando. Elas têm descoberto armas atômicas com as quais se matam, de modo que não há necessidade de que Deus venha matá-las. Porém, Ele apareceu para matar a mentalidade demoníaca delas. Isto é possível através deste movimento para a consciência de Krishna.
Portanto, no Srimad-Bhagavatam se diz que esta é a encarnação de Deus para esta era. E quem O adora? O processo é muito simples. Simplesmente mantenha um quadro do Senhor Caitanya com Seus associados. O Senhor Caitanya está no meio, acompanhado por Seus associados principais – Nityananda, Advaita, Gadadhara e Srivasa. Tem-se simplesmente que manter este quadro. Podemos mantê-lo em qualquer parte. Não é que seja preciso as pessoas virem até nós para ver este quadro. Qualquer um pode ter seu quadro em casa, cantar este mantra Hare Krishna e desse modo adorar o Senhor Caitanya. É este o simples método. Mas quem entenderá este simples método? Aqueles que têm inteligência. Sem muito incômodo, alguém que simplesmente mantenha um quadro de Sri Caitanya Mahaprabhu em casa e cante Hare Krishna, compreenderá Deus. Qualquer um pode adotar este simples método. Não é dispendioso, é isento de impostos, e não é necessário construir igreja ou templo. Qualquer um, em qualquer parte, pode sentar-se na rua ou debaixo de uma árvore, cantar o mantra Hare Krishna e adorar Deus. Portanto, está é uma grande oportunidade. Por exemplo, no comércio ou na política, às vezes encontramos uma grande oportunidade. Aqueles que são políticos inteligentes aproveitam essas boas oportunidades e fazem sucesso imediatamente. De modo semelhante, nesta era, aqueles que têm inteligência suficiente adotam este movimento sankirtana, e avançam rapidamente.
O Senhor Caitanya é chamado “o avatara dourado.” Avatara significa “descer, advir.” Assim como alguém pode descer do quinto andar ou do centésimo andar de um prédio, da mesma forma um avatara desce dos planetas espirituais no céu espiritual. O céu que vemos a olho nu ou com um telescópio é apenas o céu material. Mas, além deste há outro céu, que não podemos ver com nossos olhos ou com instrumentos. Esta informação encontra-se no Bhagavad-gita; não é imaginação. Krishna diz que além do céu material existe outro céu, o céu espiritual.
Temos de aceitar as palavras de Krishna tais como elas são. Por exemplo, ensinamos às crianças que além da Inglaterra há outros lugares chamados Alemanha e Índia, e as crianças têm de aprender esse assunto através da versão do professor, porque esses lugares estão além de sua esfera. Analogamente, além deste céu material existe outro céu. Não podemos esperar encontrá-lo, assim como uma criança não pode esperar achar a Alemanha ou a Índia. Isso não é possível. Se quisermos obter conhecimento, teremos de aceitar uma autoridade. De modo semelhante, se quisermos conhecer o que está além do mundo material, teremos de aceitar a autoridade védica, senão não haverá possibilidade de conhecer esse assunto. Isso está além do conhecimento material. Não podemos ir nem sequer aos planetas distantes deste universo, e o que dizer de ir além deste universo? Faz-se a estimativa de que, para ir ao planeta mais elevado deste universo, com máquinas modernas, seria preciso viajar durante quarenta mil anos luz. Não podemos nem sequer viajar dentro deste céu material. Nossa vida e nossos meios são tão limitados que não podemos ter conhecimento apropriado nem sequer deste mundo material.
No Bhagavad-gita, quando Arjuna perguntou a Krishna, “podeis, por favor explicar as dimensões dentro das quais Vossas energias funcionam?”, o Senhor Supremo deu-lhe muitos exemplos, e por fim disse, “Meu caro Arjuna, que poderei explicar sobre Minhas energias? Na verdade, não é possível que tu entendas. Porém, podes apenas imaginar a expansão de Minhas energias: este mundo material, que consiste em milhões de universos, é manifestação de apenas uma quarta parte de Minha criação.” Não podemos nem sequer avaliar a posição de um só universo, e há milhões de universos. Depois, além disso está o céu espiritual, e existem milhões de planetas espirituais. Toda esta informação é dada pela literatura védica. Se aceitamos a literatura védica, podemos adquirir este conhecimento. Se não a aceitamos, não há outra alternativa. Essa é a nossa escolha. Portanto, segundo a civilização, sempre que um acarya fala ele imediatamente cita referências da literatura védica. Então outras pessoas aceitá-la-ão: “Sim, isto é correto.” Em uma corte judicial o advogado cita referências de julgamentos passados da corte, e se o caso é justo, o juiz aceita. Analogamente, se alguém pode dar evidências dos Vedas, sua posição é compreendida como real.
O avatara para esta era, Senhor Caitanya, é descrito na literatura védica. Não podemos aceitar qualquer um como avatara a não ser que seus sintomas sejam descritos nas escrituras. Não aceitamos caprichosamente o Senhor Caitanya como avatara, na base da votação. Hoje em dia tornou-se moda qualquer homem vir e dizer que é Deus ou encarnação de Deus; e há alguns tolos e patifes que o aceitarão: “Oh! ele é Deus!” Não aceitamos um avatara assim. Baseamo-nos nas evidências dos Vedas. È preciso que os sintomas do avatara coincidam com as descrições dos Vedas. Aí então o aceitamos; de outro modo, não. Para cada avatara há uma descrição nos Vedas: Ele aparecerá em tal e tal lugar, com tal e tal forma, e agirá assim. Essa é a natureza das evidências védicas.
No Srimad-Bhagavatam, há uma lista dos avataras, a qual menciona o nome do Senhor Buddha. Este Srimad-Bhagavatam foi escrito há cinco mil anos, e menciona diferentes nomes para tempos futuros. Ele diz que no futuro o Senhor apareceria como o Senhor Buddha, o nome de sua mãe seria Anjana, e ele apareceria em Gaya. Assim é que Buddha apareceu há dois mil e seiscentos anos, e o Srimad-Bhagavatam, que foi escrito há cinco mil anos, mencionou que ele apareceria no futuro. De modo semelhante, faz-se menção do Senhor Caitanya, e do mesmo modo o último avatara desta Kali-yuga é mencionado no Bhagavatam. Menciona-se que a última encarnação desta era é Kalki. Ele aparecerá como o filho de um brahmana cujo nome é Visnu-yasa, em um local chamado Sambhala. Há um local na Índia com esse nome, de modo que talvez seja lá que o Senhor aparecerá.
Assim, um avatara tem seus sintomas confirmados pelas descrições encontradas nos Upanisads, Srimad-Bhagavatam, Mahabharata e outros textos védicos. Baseados na autoridade da literatura védica e no comentário de grandes e resolutos gosvamis como Jiva Gosvami, que foi o maior erudito e filósofo do mundo, podemos aceitar o Senhor Caitanya como uma encarnação de Krishna.
Por que o Senhor Caitanya apareceu? No Bhagavad-gita o Senhor Krishna diz, “Abandona todas as outras ocupações e simplesmente ocupa-te em Meu serviço, Hei de proteger-te de todos os resultados de ações pecaminosas.” Neste mundo material, na vida condicionada, simplesmente criamos reações pecaminosas. Isso é tudo. E por causa das reações pecaminosas, recebemos este corpo. Se nossas reações pecaminosas cessassem, não precisaríamos aceitar um corpo material; obteríamos um corpo espiritual.
Que é um corpo espiritual? O corpo espiritual é um corpo livre de morte, nascimento, doença e velhice. É um corpo eterno, pleno de conhecimento e bem-aventurança. Diferentes corpos são criados por diferentes desejos. Enquanto tivermos desejos de diferentes tipos de desfrute, teremos de aceitar diferentes tipos de corpos materiais. Krishna, Deus, é tão bondoso que nos concede tudo o que quisermos. Se quisermos um corpo de tigre, com força e dentes de tigre para poder capturar animais e sugar sangue fresco, então Krishna dar-nos-á esta oportunidade. Se quisermos o corpo de uma pessoa santa, um devoto ocupado apenas no serviço ao Senhor, Ele dar-nos-á este corpo. Isso é afirmado no Bhagavad-gita.
Se uma pessoa ocupada em yoga, o processo de auto-realização, de alguma forma não consegue completar o processo, ela recebe outra oportunidade; Ela nasce em família de um brahmana puro ou de um homem rico. Se alguém tem a fortuna de nascer em tal família, ela obtém todas as facilidades para compreender a importância da auto-realização. Já desde o começo da vida, nossos filhos conscientes de Krishna estão tendo a oportunidade de aprender a cantar e a dançar, de modo que, ao crescerem, não mudarão, mas, ao invés, automaticamente farão progresso. Eles são muito afortunados. Quer nasça na América ou na Europa, a criança avançará se seu pai e sua mãe forem devotos. Ela terá esta oportunidade. Se uma criança nasce em família de devotos, isto significa que em sua vida passada ela já havia aceitado o processo de yoga, mas, de algum modo, não pôde completá-lo. Portanto, a criança recebe outra oportunidade de avançar mais sob os cuidados de um bom pai e uma boa mãe para que possa continuar avançando. Dessa maneira, assim que completamos nosso desenvolvimento de consciência de Deus, não precisamos mais nascer neste mundo material, senão que regressamos ao mundo espiritual.
Krishna diz no Bhagavad-gita: “Meu caro Arjuna, se alguém compreende Meu aparecimento, desaparecimento e atividades, simplesmente por causa desta compreensão ele recebe a oportunidade de nascer no mundo espiritual após abandonar este corpo.” Temos que abandonar este corpo – hoje, amanhã ou talvez depois de amanhã. É compulsório. Mas uma pessoa que tenha compreendido Krishna não terá que aceitar outro corpo material. Ela irá diretamente ao mundo espiritual e nascerá em um dos planetas espirituais. Então Krishna diz que tão logo obtenhamos este corpo atual – não importa que seja da Índia, ou da lua, ou do sol, ou de Brahmaloka, ou de qualquer parte deste mundo material – devemos entender que isto se deve a nossas atividades pecaminosas. Há gradações de atividades pecaminosas, de modo que, conforme o grau de pecaminosidade, toma-se um corpo material determinado. Portanto, nosso problema verdadeiro não é como comer, dormir, acasalar-se e defender-se – nosso problema mesmo é como obter um corpo que não seja material, mas sim espiritual. Esta é a solução final para todos os problemas. Assim Krishna garante que se alguém se render a Ele, se alguém se tornar plenamente consciente de Krishna, então Ele protege-lo-a de todas as reações à vida pecaminosa.
Esta certeza foi dada por Krishna no Bhagavad-gita, mas havia muitos tolos que não puderam compreender Krishna. No Bhagavad-gita eles são descritos como mudhas. Mudha significa “patife,” e Krishna diz no Gita, “Eles não sabem o que Eu sou realmente.” De maneiras que muitas pessoas mal entenderam Krishna. Embora Krishna nos desse esta mensagem no Bhagavad-gita para que pudéssemos compreendê-lO, muitas pessoas perderam a oportunidade. Por isso Krishna, por Sua compaixão, veio novamente, como um devoto, e nos mostrou como render-nos a Krishna. O próprio Krishna veio ensinar-nos a rendição. Sua última instrução no Bhagavad-gita é a rendição, mas as pessoas – mudhas, patifes – diziam, “Por que deveria eu me render?” Portanto, embora Caitanya Mahaprabhu seja o próprio Krishna, dessa vez Ele nos ensina praticamente a como executar a missão do Bhagavad-gita. Isso é tudo. Caitanya Mahaprabhu não está ensinando nada de extraordinário; nada mais que o processo de render-se à Suprema Personalidade de Deus, que já fora ensinado no Bhagavad-gita. Não há outro ensinamento, mas o mesmo ensinamento é apresentado de diferentes maneiras para que diferentes tipos de pessoas o adotem e aproveitem a oportunidade para se aproximarem de Deus.
Caitanya Mahaprabhu nos dá a oportunidade de chegar a Deus diretamente. Quando Rupa Gosvami, o principal discípulo do Senhor Caitanya, viu o Senhor Caitanya pela primeira vez, ele era ministro no governo da Bengala, mas queria juntar-se ao movimento de Caitanya Mahaprabhu. Então ele abandonou sua posição como ministro, e, após juntar-se ao movimento de Caitanya, ao render-se, ele Lhe ofereceu uma bela oração. Esta oração diz:
namo maha-vadanyaya
krishna-prema-pradaya te
krishnaya Krishna-caitanya-
namne gaura-tvise namah
“Meu caro Senhor, sois a mais magnânima de todas as encarnações.” Por que? Krishna-prema-pradya te: “Estais diretamente dando amor a Deus. Não tendes outro objetivo. Vosso processo é tão maravilhoso que uma pessoa pode imediatamente aprender a amar a Deus. Por isso, sois a mais magnânima de todas as encarnações. Não é possível que alguma personalidade, exceto o próprio Krishna, conceda esta bênção; é por isso que digo que Vós sois Krishna.” Krishnaya krishna-caitanya-namne: “Vós sois Krishna, mas assumistes o nome de Krishna Caitanya. Rendo-me a Vós.”
Então é este o processo. Caitanya Mahaprabhu é o próprio Krishna, e está ensinando a como desenvolver amor por Deus através de um método muito simples. Ele diz simplesmente para cantar Hare Krishna.
harer nama harer nama
harer namaiva kevalam
kalau nasty eva nasty eva
nasty eva gatir anyatha
“Nessa era, simplesmente prossiga cantando o mantra Hare Krishna. Não há outra alternativa.” Como as pessoas estão embaraçadas com tantos métodos de realização, elas não podem adotar os verdadeiros processos ritualísticos de meditação ou yoga; isto não é possível. Por isso, o Senhor Caitanya diz que se alguém aceitar este processo de cantar, imediatamente poderá alcançar a plataforma da realização.
O processo de cantar oferecido pelo Senhor Caitanya para atingir amor a Deus é chamado sankirtana. Sankirtana é uma palavra sânscrita. Sam significa samyak—“completo.” E kirtana significa “glorificar” ou “descrever.” Assim, descrição completa significa glorificação completa do Supremo, ou o Completo Todo Supremo. Não é que alguém possa descrever qualquer coisa ou glorificar qualquer coisa e isso será kirtana. Do ponto de vista gramatical isso pode ser kirtana, mas, segundo o sistema védico, kirtana significa descrever a autoridade suprema, a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus. Isso se chama kirtana.
Este serviço devocional começa com o método de sravana. Sravana significa “ouvir,” e kirtana significa “descrever.” Alguém deve descrever, e outrem deve ouvir. Ou a mesma pessoa pode fazer ambas as coisas, descrever e ouvir. Ela não precisa da ajuda de ninguém. Quando cantamos Hare Krishna, cantamos e ouvimos. Isto é completo. Este é um método completo. Mas o que é este cantar e ouvir? Deve-se cantar e ouvir sobre Visnu, Krishna. E não sobre qualquer coisa. Sravanam kirtanam visnoh: podemos compreender Visnu, a onipenetrante Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus, pelo método de ouvir.
Temos que ouvir; se alguém simplesmente ouve, este é o começo. Não é necessário ter alguma educação ou desenvolvimento de conhecimento material. A criança, por exemplo: Assim que ela ouve, imediatamente pode responder e dançar. Assim, por natureza, Deus nos deu estes ótimos instrumentos—ouvidos—para que possamos ouvir. Mas devemos ouvir da fonte correta. Isso é afirmado no Srimad-Bhagavatam. Deve-se ouvir daqueles que são devotados à Suprema Personalidade de Deus. Eles são chamados satam. Se ouvimos da fonte certa, de uma alma realizada, isto surtirá efeito. E essas palavras de Deus, ou Krishna, são muito saborosas. Se uma pessoa for inteligente o bastante, ouvirá o que fala a alma realizada. Então brevemente ela se libertará dos enredamentos materiais.
Esta vida humana destina-se ao avanço no caminho da liberação. Isto se chama apavarga, libertação do enredamento. Estamos todos enredados. O fato de termos aceitado este corpo material significa que já estamos enredados. Mas não devemos progredir no processo de enredamento. Este processo chama-se karma. Enquanto a mente estiver absorta em karma, teremos que aceitar um corpo material. No momento da morte, nossa mente poderá estar pensando: “Oh! não pude completar este trabalho. Oh! estou morrendo! Tenho que fazer isso! Tenho que fazer aquilo!” Isto significa que Krishna dar-nos-a outra oportunidade de fazê-lo, e desse modo teremos que aceitar outro corpo. Ele dar-nos-a a oportunidade: “Está bem. Você não pode fazê-lo. Agora faça-o. Tome este corpo.” Por isso o Srimad-Bhagavatam diz: “Esses patifes embriagaram-se loucamente; por causa da embriaguez estão fazendo algo que não deveriam ter feito.” Que estão fazendo? Maharaja Dhrtarastra é um ótimo exemplo disso. Maharaja Dhrtarastra estava astutamente planejando matar os Pandavas a fim de favorecer seus próprios filhos. Então Krishna mandou Seu tio, Akrura, aconselhá-lo a não fazer aquilo. Dhrtarastra compreendeu os conselhos de Akrura, mas disse: “Meu caro Akrura, o que estás dizendo é totalmente correto, mas não entra em meu coração; portanto não posso mudar minha política. Tenho que seguir esta política e deixar acontecer o que tiver que acontecer.”
Assim, quando os homens querem satisfazer seus sentidos, eles ficam loucos, e nesta loucura são capazes de fazer qualquer coisa. Por exemplo, há muitos casos na vida material em que alguém enlouqueceu por algo e por causa disso chegou a cometer assassinato: não conseguiu se conter. De forma semelhante, estamos acostumados ao gozo dos sentidos. Estamos loucos, e por isso nossas mentes estão completamente absortas em karma. Isto é muito triste porque nosso corpo, embora temporário, é o reservatório de todos os infortúnios e misérias; ele está sempre nos dando trabalho. Esses assuntos devem ser estudados. Não devemos ser loucos. A vida humana não foi feita para isso. O defeito da civilização atual é que as pessoas andam loucas atrás de gozo dos sentidos. Isso é tudo. Elas não conhecem o real valor da vida, e por isso estão negligenciando a forma mais valiosa da vida, esta forma humana.
Quando este corpo se acaba não há garantia de que tipo de corpo se obterá a seguir. Suponha que em minha próxima vida eu por acaso obtenha o corpo de uma árvore. Por milhares de anos terei que ficar parado, de pé. Mas as pessoas não são muito sérias. Elas chegam mesmo a dizer: “Que é isso? Mesmo que eu tenha que ficar de pé, me esquecerei disso.” As espécies inferiores de vida estão situadas no esquecimento. Se uma árvore não estivesse no esquecimento ser-lhe-ia impossível viver. Suponha que nos dissessem: “fique aí de pé durante três dias!” Como não estamos no esquecimento, ficaríamos loucos com isso. Assim, pela lei da natureza, todas essas espécies inferiores de vida estão no esquecimento. A consciência delas não é desenvolvida. Uma árvore tem vida, mas mesmo que alguém a corte, por sua consciência não ser desenvolvida, ela não reage. De forma que devemos ser muito cuidadosos em utilizar esta forma humana de vida apropriadamente. O movimento para a consciência de Krishna destina-se àqueles que desejam alcançar a perfeição na vida. Não se trata de farsa ou exploração, mas infelizmente as pessoas estão acostumadas a ser trapaceadas. Há um verso de um poeta indiano: “se alguém falar coisas sensatas, as pessoas brigarão com ele: “Oh! que disparate estás a falar.’ Mas, se ele as trapacear, elas ficarão muito contentes.” Se um trapaceiro diz: “Faça isso, dê-me uma gratificação e dentro de seis meses você tornar-se-a Deus,” eles concordarão: “Sim, tome aí sua gratificação, que dentro de seis meses tornar-me-ei Deus.” Não. Esses processos enganosos não resolverão nosso problema. Se alguém quiser realmente solucionar os problemas da vida nesta era, então terá que aceitar este processo de kirtana. É este o processo recomendado.
harer nama harer nama
harer namaiva kevalam
kalau nasty eva nasty eva
nasty eva gatir anyatha
Nesta era, Kali-Yuga, não se pode executar nenhum processo de auto-realização ou perfeição da vida, exceto o processo de kirtana. Kirtana é essencial nesta era.
Em todos os textos védicos confirma-se que devemos meditar na Suprema Verdade Absoluta, Visnu, e não em algo mais. Mas há diferentes processos de meditação recomendados para diferentes eras. O processo de meditação da yoga mística era possível em Satya-yuga, quando os homens viviam por muitos milhares de anos. Atualmente as pessoas não acreditam nisso, mas em uma era anterior havia pessoas que viviam cem mil anos. Essa era chamava-se Satya-yuga, e a meditação da yoga mística era possível naquele tempo. Nessa era, o grande yogi Valmiki Muni meditou durante sessenta mil anos. Portanto este é um processo que requer um período prolongado, não sendo possível executá-lo nesta era. Se alguém deseja fazer uma farsa, isso é outra coisa. Mas aquele que quer realmente praticar tal meditação levará um tempo extremamente prolongado para aperfeiçoar-se. Na era seguinte, Treta-yuga, o processo de realização consistia em executar os vários sacrifícios ritualísticos recomendado nos Vedas. Na era seguinte, Dvapara yuga, o processo era a adoração no templo. Na era atual, o mesmo resultado pode ser atingido através do processo de hari-kirtana, glorificação de Hari, Krishna, a Suprema Personalidade de Deus.
Nenhum outro kirtana é recomendado. Este hari-kirtana foi iniciado há quinhentos anos na Bengala pelo Senhor Caitanya. Na Bengala, há competição entre os Vaisnavas e os saktas. Os saktas introduziram certo tipo de kirtana chamado kali-kirtana. Porém, nas escrituras védicas, não se recomenda kali-kirtana. Kirtana significa hari-kirtana. Ninguém pode dizer: “Ah! O senhor é vaisnava. O senhor pode executar hari-kirtana. Eu executarei siva-kirtana ou devi-kirtana ou ganesa-kirtana.” Não. As escrituras védicas não autorizam nenhum kirtana além do hari-kirtana. Kirtana significa hari-kirtana, a glorificação de Krishna.
De modo que este processo de hari-kirtana é muito simples: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare. Na realidade, são apenas três palavras: Hare, Krishna e Rãma. Mas elas são tão bem dispostas para o canto que todos podem pegar o mantra e cantar Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Desde que começamos este movimento nos países ocidentais, europeus, americanos, africanos, egípcios e japoneses estão cantando. Não há dificuldade. Eles estão cantando com muita alegria, e estão obtendo os resultados. Qual seria a dificuldade? Estamos distribuindo este canto sem cobrar nada, e ele é muito simples. Simplesmente por cantar, podemos ter auto-realização, realização de Deus, e, quando há realização de Deus, a realização da natureza também está incluída. Por exemplo, se alguém aprende um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e zero, então já estudou toda a matemática, porque matemática significa simplesmente mudar esses dez algarismos de lugar. Isso é tudo. De modo semelhante, se simplesmente estudarmos Krishna, então todo o nosso conhecimento será perfeito. E Krishna é facilmente compreendido simplesmente por se cantar este mantra, Hare Krishna. Por que, então, não aproveitar esta oportunidade?
Aproveite esta oportunidade que está sendo oferecida à sociedade humana. É algo muito antigo e científico. Não se trata de uma invenção que perdurará apenas três ou quatro anos. Não. No Bhagavad-gita o próprio Krishna diz: “Esta filosofia é inexaurível e indestrutível. Jamais se perde nem se destrói.” Pode ser que por algum tempo fique coberta, mas nunca é destruída. Por isso ela é chamada avyayam. Vyaya significa “exaustão.” Por exemplo, pode ser que alguém tenha cem dólares, mas, se os for gastando, um após o outro, chegará um dia a ter zero dólar. Isso é vyaya, exaurível. Mas a consciência de Krishna não é assim. Se você cultivar este conhecimento da consciência de Krishna, ele aumentará. Isso é atestado pelo Senhor Caitanya Mahaprabhu. Anandambudhi-vardanam. Ananda significa “prazer”, “bem-aventurança transcendental,” e ambudhi significa “oceano.” No mundo material, vemos que o oceano não aumenta. Mas, se alguém cultivar consciência de Krishna, sua bem-aventurança transcendental aumentará. Anandambudhi-vardhanam. E eu devo sempre lembrar a todos que o processo é muito simples. Qualquer um pode cantar, em qualquer parte, sem pagar impostos nem perder nada, mas o lucro é muito grande.
Sri Caitanya Mahaprabhu explica este movimento kirtana em Seu Siksastaka. Siksa significa “instrução,” e astaka significa “oito.” Ele nos deu oito versos para nos ajudar a compreender este movimento para a consciência de Krishna, e agora vou explicar a primeira dessas instruções. O Senhor diz: ceto-darpana-marjanam: deve-se purificar o coração. Tenho explicado isso várias vezes, mas a repetição dessa explicação nunca se torna monótona. É assim como o cantar de Hare Krishna: nunca se torna cansativo. Nossos estudantes podem cantar o mantra Hare Krishna vinte e quatro horas por dia, que nunca ficarão cansados. Eles continuarão a dançar e a cantar. E qualquer um pode experimentar isso; por não ser algo material, uma pessoa jamais se cansará de cantar Hare Krishna. No mundo material, se alguém canta algo, qualquer nome de sua predileção, três, quatro ou dez vezes, ficará cansado disso. Isso é um fato. Mas, porque Hare Krishna não é material, aquele que cantar este mantra jamais se cansará dele. Quanto mais cantar, mais seu coração se purificará da sujeira material e mais os problemas de sua vida dentro deste mundo material serão resolvidos.
Qual é o problema de nossas vidas? Isso nós não sabemos. A educação moderna não dá nenhum esclarecimento sobre o verdadeiro problema da vida, que é indicado no Bhagavad-gita. Aqueles que são educados e estão avançando em conhecimento devem saber qual é o problema da vida. Este problema é declarado no Bhagavad-gita: devemos sempre considerar as inconveniências do nascimento, da morte, da velhice e da doença. Infelizmente ninguém presta atenção a esses problemas. Quando um homem está doente ele pensa: “Tudo bem. Deixe-me ir ao médico. Ele me receitará algum remédio e eu ficarei bom.” Mas ele não medita seriamente sobre o problema. “Eu não queria ficar doente. Por que existe doença? Acaso não é possível tornar-se livre de doenças?” Ele nunca pensa assim. Isto porque sua inteligência é de nível muito baixo, tal qual a de um animal. O animal sofre, mas não tem consciência disso. Se um animal é trazido para o matadouro e vê que o animal à sua frente está sendo morto, ele ainda assim permanece ali, alegremente comendo capim. Isso é vida animal. Ele não sabe que vai ser o próximo a ser sacrificado. Eu tive a oportunidade de ver isso. Em um templo de Kali vi uma cabra parada, prestes a ser sacrificada, enquanto outra cabra alegremente comia capim.
De forma semelhante, Maharaja Yudhisthira foi indagado por Yamaraja: “Qual é a coisa mais admirável que há neste mundo? Poderias explicar-me isso?” Então Maharaja Yudhisthira respondeu: “sim. A coisa mais admirável é que a cada momento alguém pode ver que seus amigos, seus pais e seus parentes estão morrendo, mas ainda assim ele pensa, ‘Eu viverei para sempre.’” Ele nunca pensa que morrerá, assim como um animal nunca pensa que no próximo momento poderá ser sacrificado. Ele se satisfaz com o capim, isso é tudo. Ele se satisfaz com o gozo dos sentidos. Ele não sabe que também vai morrer.
Meu pai morreu, minha mãe morreu, ele morreu, ela morreu. De modo que eu também terei de morrer. Então o que acontece após a morte? Eu não sei. Este é o problema. As pessoas não levam este problema a sério, mas o Bhagavad-gita indica que isto é educação verdadeira. Educação verdadeira é indagar por que, apesar de não querermos morrer, a morte vem. Isto é educação verdadeira. Não queremos nos tornar velhos. Por que a velhice nos ataca? Temos muitos problemas, mas esta é a essência de todos eles.
A fim de solucionar este problema, o Senhor Caitanya Mahaprabhu prescreve o cantar de Hare Krishna. Tão logo nosso coração se purifique através do cantar deste mantra Hare Krishna, o fogo ardente de nossa problemática existência material se extingue. Como ele se extingue? Quando purificamos nosso coração compreenderemos que não pertencemos a este mundo material. Porque as pessoas estão se identificando com este mundo material, elas estão pensando: “eu sou indiano, eu sou inglês, eu sou isso, eu sou aquilo.” Mas aquele que cantar o mantra Hare Krishna compreenderá que não é este corpo material. “Eu não pertenço a este corpo material nem a este mundo material. Sou alma espiritual, parte integrante do Supremo. Estou eternamente relacionado com Ele, e nada tenho a ver com o mundo material.” Isso se chama liberação, conhecimento. Se eu nada tenho a ver com este mundo material, então estou liberado. E este conhecimento chama-se brahma-bhuta.
Uma pessoa com esta compreensão não tem dever a cumprir. Porque agora estamos identificando nossa existência com este mundo material, temos muitos deveres. O Srimad-Bhagavatam diz que enquanto não houver auto-realização, teremos muitos deveres e dívidas. Temos dívidas para com os semideuses. Os semideuses não são apenas personagens fictícias. Eles são reais. Há semideuses controlando o sol, a lua e o ar. Assim como há diretores dos departamentos governamentais, da mesma forma para o departamento de calefação existe o deus do sol, para o departamento de circulação do ar existe Varuna, e, de modo semelhante, existem outros semideuses setoriais. Nos Vedas eles são descritos como deidades controladoras, de maneiras que não podemos negligenciá-los. Além disso, existem grandes sábios e filósofos que nos dão conhecimento, e nós temos dívidas para com eles. Assim, tão logo nasçamos estamos em dívida com tantas entidades vivas, mas é impossível liquidar todas essas dívidas. Portanto, a literatura védica recomenda que nos refugiemos aos pés de lótus de Krishna. E Krishna diz: “Se alguém se refugia em Mim não tem que se refugiar em ninguém mais.”
Portanto, aqueles que são devotos conscientes de Krishna refugiam-se em Krishna, e o começo do processo é ouvir e cantar. Sravanam kirtanam visnoh. Então, nosso apelo fervoroso e humilde a todos é que, por favor, aceitem este canto. Este movimento da consciência de Krishna foi introduzido pelo Senhor Caitanya há quinhentos anos na Bengala, e agora em toda Índia e especialmente na Bengala há milhões de seguidores de Caitanya Mahaprabhu. Agora este movimento está começando nos países ocidentais, por isso tentem entendê-lo seriamente. Não criticamos nenhuma outra religião. Não considerem que o façamos. Não temos nenhum interesse em criticar qualquer outro processo de religião. A consciência de Krishna está dando às pessoas a mais sublime religião—o amor a Deus. Isso é tudo. Estamos ensinando o amor a Deus. Todos já estão amando, mas esse amor está sendo mal empregado. Amamos este rapaz, ou esta moça, ou este país, ou aquela sociedade, ou mesmo os cães e os gatos, mas não estamos satisfeitos. Por isso devemos depositar nosso amor em Deus. Se depositarmos nosso amor em Deus seremos felizes.
Não pensem que este movimento para a consciência de Krishna é um novo tipo de religião. Qual é a religião que não reconhece Deus? Podemos chamar Deus de “Alá” ou “Krishna” ou algo mais, mas qual é a religião que não reconhece Deus? Estamos ensinando que as pessoas devem simplesmente tentar amar a Deus. Sentimo-nos atraídos por tantas coisas, mas se nosso amor for depositado em Deus, ai então seremos felizes. Não é preciso aprender a amar ninguém mais; tudo o mais estará automaticamente incluído. Apenas tentem amar a Deus. Não tentem amar apenas a árvores, ou plantas, ou insetos. Isso jamais será satisfatório. Aprendam a amar a Deus. Esta é a missão de Caitanya Mahaprabhu; esta é a nossa missão.
Glossário
Adhibhautika – misérias causadas pelo conflito com outras entidades vivas.
Adhidaivika – misérias causadas pelas forças da natureza.
Adhyatmika – misérias causadas pela própria mente e corpo.
Asramas – as quatro divisões védicas de desenvolvimento do ciclo de vida humana que destinam-se a elevar-nos à perfeição espiritual; essas divisões começam com brahmacarya (celibato e estudo), procedendo a grhastha (vida familiar) e vanaprastha (retiro), e culminando em sannyasa (renúncia completa à vida familiar e as obrigações materiais). Veja também VARNASRAMA-DHARMA.
Astanga-yoga – o processo de meditação de oito fases, começando com as posturas sentadas e controle respiratório, e culminando na realização da forma do Senhor dentro do coração.
Avatara – uma “descida”, ou aparecimento na Terra do Senhor Supremo ou Seu representante.
Bhagavad-gita – a escritura superior da tradição védica, contendo os ensinamentos do Senhor Krishna a Seu devoto ARJUNA e expondo a devoção ao Senhor Supremo como tanto o meio principal quanto o fim último da perfeição espiritual.
Bhagavan – o Senhor Supremo, que é o possuidor último de todas as variedades de opulências.
Bhakta – um devoto do Senhor Supremo
Bhakti (bhakti-yoga) – a prática de serviço devocional ao Senhor Supremo.
Bhaktisiddhanta Sarasvati – (1874 – 1936) o “avô” da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna; o mestre espiritual de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada.
Bhaktivedanta – um título significando “aquele que compreendeu que o serviço devocional ao Senhor Supremo é a meta de todo o conhecimento.”
Bhisma – o mais poderoso e mais velho guerreiro na Batalha de KURUKSETRA; ele é reconhecido como uma das principais autoridades em serviço devocional ao Senhor.
Brahma – o primeiro ser vivo criado no universo; ele cria a multiplicidade de formas de vida, planetas e condições de vida sob a supervisão do Senhor Supremo.
Brahmacari, brahmacarya – veja ASRAMAS.
Brahmajyoti – a refulgência corpórea do Senhor Supremo.
Brahman – o aspecto impessoal, onipenetrante do Senhor Supremo.
Brahma-samhita – uma descrição resumida das glórias do Senhor, incluindo orações ao Senhor oferecidas por Brahma.
Buddha – uma encarnação disfarçada do Senhor Supremo que pregou ateísmo a fim de fazer com que as pessoas daquela época parassem de abusar dos sacrifícios ritualísticos dos VEDAS como uma licença para matança de animais.
Caitanya Mahaprabhu – a encarnação do Senhor Supremo disfarçada como o Seu próprio devoto, que desceu para ensinar amor a Deus através do processo do canto congregacional dos santos nomes do Senhor.
Caitya-guru – o Senhor Supremo, que aconselha um devoto avançado de dentro do coração.
Daridra-narayana – a concepção errônea de que uma vez que o Senhor Supremo está no coração de todos, por isso qualquer homem pode ser aceito como Deus, e assim a adoração aos pobres é o mesmo que a adoração ao Senhor.
Ganesa – o semideus encarregado da riqueza material.
Ganges (ganga) – o mais sagrado rio da Índia.
Goloka – o planeta supremo no mundo espiritual.
Gopis – as amigas vaqueirinhas do Senhor KRISHNA em VRNDAVANA, que são Seus devotos muito rendidos e confidenciais.
Gosvami – veja SVAMI.
Govinda – um nome da Suprema Personalidade de Deus que significa “aquele que dá prazer à terra, às vacas e aos sentidos.”
Grhastha – veja ASRAMAS.
Guru – um mestre espiritual que tem perfeita compreensão de Deus e que só fala e age de acordo com as escrituras.
Guru-kula – uma escola de aprendizado védico; os meninos começam aos cinco anos de idade e vivem como estudantes celibatários, orientados por um mestre espiritual.
Hare (Hara) – veja RADHA.
Hari – um nome da Suprema Personalidade de Deus que significa “aquele que elimina todos os obstáculos no progresso espiritual.
Indra – o rei dos planetas celestiais e chefe dos semideuses administrativos.
Isopanisad – veja UPANISADS.
Jagad-guru – “mestre espiritual do universo.”
Jiva – a entidade viva individual, que é uma eterna e diminuta parte integrante do Senhor Supremo.
Jnani – aquele que tenta alcançar o Absoluto Supremo através do cultivo de conhecimento empírico especulativo.
Kali – veja DURGA.
Kali-yuga – a atual era histórica védica (quarta e última em um ciclo de quatro eras que vão progressivamente se degenerando), caracterizada por um declínio progressivo em conhecimento espiritual e, conseqüentemente, a degeneração da civilização humana.
Karma – atividade no mundo material, que sempre nos envolve com alguma reação, quer boa, quer má.
Karma-kanda – rituais recomendados nos VEDAS para os interessados em benefícios materiais.
Karmi – uma pessoa que está tentando desfrutar dos resultados de suas atividades materiais.
Krishna – a Suprema Personalidade de Deus, aparecendo em Sua forma original de dois braços, que é a origem de todas as outras formas e encarnações do Senhor.
Krishnaloka – veja GOLOKA.
Krishna-prema – veja PREMA
Ksatriya – veja VARNAS
Kuruksetra – um antigo local de peregrinações próximo a Nova Delhi onde se travou a Batalha de Kuruksetra e o BHAGAVAD-GITA foi falado. Veja também DHRTARASTRA e PANDAVAS.
Laksmi – a deusa da fortuna e eterna consorte da Suprema Personalidade de Deus Narayana.
Maha-mantra – o grande canto para a salvação: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare.
Maharaja – um título. Veja nomes específicos.
Mahatma – uma “grande alma”; devoto de Deus.
Mantra – uma sílaba, palavra ou verso com especial potência espiritual cantada ou meditada para invocar entendimento espiritual ou realização.
Maya – a energia material; a energia ilusória do Senhor que ilude a entidade viva fazendo-a esquecer-se de sua verdadeira natureza espiritual.
Mayavada – a filosofia monista de que não há diferença entre Deus e as entidades vivas. Veja também SANKARACARYA.
Mukti – liberação do ciclo de repetidos nascimentos e mortes.
Narayana – um nome da suprema personalidade de Deus que significa “aquele que é a fonte e a meta de todos os seres vivos.”
Nityananda Prabhu – uma encarnação do Senhor que apareceu como o principal associado de outra encarnação, o Senhor CAITANYA MAHAPRABHU.
Omkara – o som sagrado om, que é o começo de muitos mantras védicos, e que representa o Senhor Supremo.
O Néctar da Devoção – um estudo sumário por Sua Divina Graça A C Bhaktivedanta Swami Prabhupada do livro BHAKTI-RASAMRTA-SINDHU de RUPA GOSVAMI.
Para-brahman – a Suprema Personalidade de Deus, que é superior a Seu aspecto impessoal de BRAHMAN.
Paramatma – a forma do Senhor Supremo que mora no coração de toda entidade viva e a acompanha enquanto a entidade viva transmigra de corpo a corpo no mundo material.
Prakrti – as energias predominadas do Senhor Supremo, que são em número de duas: as entidades vivas, e a natureza material, ou matéria morta. Veja também PURUSA.
Prasada – alimento que é santificado por ser primeiramente oferecido ao Senhor para Seu desfrute.
Prema – amor por Deus que está livre de qualquer motivação egoísta.
Puranas – os dezoito textos que expõem os ensinamentos dos VEDAS através de narrações históricas e alegóricas.
Purusa – o Senhor Supremo como o supremo predominador de PRAKRTI.
Radha (Radharani) – a mais íntima consorte eterna do Senhor KRISHNA, que é a personificação de Sua potência de prazer espiritual.
Rãma – um nome da Suprema Personalidade de Deus que significa “a fonte de todo o prazer.”
Rãmacandra – encarnação do Senhor que demonstrou o comportamento de um rei perfeito.
Rasa – o “sabor” específico de um relacionamento pessoal específico com o Senhor Supremo.
Rupa Gosvami – o principal dos seis mestres espirituais Vaisnavas que diretamente seguiram o Senhor CAITANYA MAHAPRABHU e sistematicamente apresentaram Seus ensinamentos.
Sac-cid-ananda – existência espiritual perfeita, que é eterna (sat), plena de conhecimento (cit) e completamente alegre (ananda).
Samadhi – meditação fixa na forma pessoal do Senhor.
Sama Veda – um dos quatro VEDAS originais, que contém orações sacrificiais e suas marcações melódicas e métricas.
Sanatana Gosvami – um dos seis mestres espirituais Vaisnavas que diretamente seguiram SRI CAITANYA MAHAPRABHU e sistematicamente apresentaram Seus ensinamentos.
Sankhya – o ramo de filosofia que trata da análise dos elementos do mundo material.
Sankirtana – canto congregacional dos santos nomes de Deus.
Sannyasa –veja ASRAMAS.
Sastras – escrituras autorizadas. Veja também LITERATURA VÉDICA.
Satya-yuga – uma era histórica védica (primeira e melhor em um ciclo de quatro eras que se degeneram progressivamente) caracterizada por uma civilização humana muito avançada espiritualmente. Veja também KALY-YUGA.
Sloka – uma unidade de verso sânscrito.
Smrti –literatura suplementar aos quatro VEDAS, como, por exemplo, os PURANAS, O BHAGAVAD-GITA e o MAHABHARATA.
Sraddha – a fé necessária para ouvir submissamente de uma autoridade apropriada.
Sudra – veja VARNAS.
Sukadeva Gosvami – o sábio que falou o SRIMAD-BHAGAVATAM ao rei PARIKSIT justamente antes da morte do rei.
Svami – aquele que através da força espiritual torna-se senhor dos sentidos.
Tamas – o modo material da ignorância, caracterizado pela ignorância, letargia e loucura.
Tapasya – austeridade; inconveniência material aceita na busca da realização espiritual.
Upanisads – a divisão filosófica dos Vedas, destinada a aproximar o estudante mais do entendimento da natureza pessoal da Verdade Absoluta.
Vaikuntha – o mundo espiritual eterno além do cosmo material.
Vaisnava – devoto de Krishna, ou de qualquer outra forma da Suprema Personalidade de Deus.
Leia mais em:
http://gratisilumminacao.blogspot.com/
*
http://auto-realizacao.blogspot.com/
*
http://gratisprazerinfinito.blogspot.com/
*
http://gratissolucoes.blogspot.com/
*
http://www.harekrishna.com.br/
*
http://gratiskrishna.blogspot.com/
*
http://aulavedica.blogspot.com/
*
http://gratissolucoes3.blogspot.com/
*
http://gratisdietanatural.blogspot.com/
*
http://nayanadas.blogspot.com/
*
http://ograndesabio.blogspot.com/
*
http://www.flogao.com.br/harekrishna
*
http://livrogita.blogspot.com
*