25.3.05



radioharekrishna.com
Sua Divina Graça
A. C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupada
FUNDADOR ACARYA DA SOCIEDADE INTERNACIONAL PARA A CONCIENCIA DE KRISHNA

Prólogo

Desde o começo, eu senti que Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada era a pessoa mais extraordinária que eu já havia encontrado. O primeiro encontro ocorreu no verão de 1966, na cidade de Nova Iorque. Um amigo tinha me convidado para ouvir uma palestra de “um velho swami indiano” na parte baixa do Bowery em Manhattan. Tomado de curiosidade por um swami que dava palestras em meia a tremenda confusão, fui até lá, onde tive que enfrentar uma escadaria muito escura. Um som rítmico semelhante ao de um sino tornava-se cada vez mais alto à medida que eu subia as escadas. Finalmente, cheguei ao quarto andar. Abri a porta, e lá estava ele.
A cerca de cinco metros de onde eu estava, na outra extremidade de um quarto estreito e escuro, ele estava sentado sobre um pequeno estrado, com o rosto e a veste açafroada radiantes sob uma luz tênue. Ele era idoso, por volta de sessenta anos, pensei eu, e sentava-se com as pernas cruzadas numa postura erecta e solene. Tinha a cabeça raspada, e seu rosto vigoroso e avermelhados óculos de aro de cláxon davam-lhe a aparência de um monge que passara a maior parte da vida absorto em estudos. Mantinha os olhos cerrados e cantava suavemente uma simples oração em sânscrito enquanto tocava um tambor de mão. A pequena audiência o acompanhava a intervalos, respondendo a seu canto. Alguns tocavam címbalos de mão, os quais reconheci pelos sons semelhantes aos de sino que ouvira. Fascinado, fiquei sentado quieto, atrás; tentei participar no canto e esperei.
Após alguns instantes, o swami começou a dar sua palestra em inglês, aparentemente baseado em um imenso volume em sânscrito que se encontrava à sua frente. Ocasionalmente, ele citava alguma passagem do livro, mas a maior parte das vezes citava de memória. O som do idioma era belo, e ele seguia cada passagem com explicações meticulosamente detalhadas.
Ele parecia um erudito, seu vocabulário intricadamente ornamentado com termos e frases filosóficas. Os elegantes gestos com as mãos e as animadas expressões faciais adicionavam um considerável impacto a seu discurso. O Assunto foi o mais sério que eu jamais tinha ouvido: “Eu não sou este corpo. Não sou um indiano... vocês não são americanos... todos nós somos almas espirituais...”
Após a palestra, alguém deu-me um panfleto impresso na Índia. Uma foto mostrava o swami dando três de seus livros ao Primeiro Ministro indiano, Lal Bahadur Shastri. A legenda citava o Sr. Shastri dizendo que todas as bibliotecas do governo indiano deviam encomendar os livros: “Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada está fazendo um trabalho grandioso,” dizia o Primeiro Ministro em outro trecho, “e seus livros são contribuições significativas para a salvação da humanidade.” Eu adquiri cópias dos livros, que, como fiquei sabendo, o swami havia trazido consigo da Índia. Após ler as orelhas da capa dos livros, o pequeno panfleto e vários outros textos, comecei a compreender que acabara de me encontrar com um dos mais respeitados líderes espirituais da Índia.
Mas não podia entender por que um cavalheiro tão distinto estava morando e dando palestras no Bowery, o pior dos piores lugares. Ele era certamente bem educado e, a julgar pelas aparências, havia nascido em aristocrática família indiana. Por que estava vivendo em tal pobreza? O que no mundo o havia trazido ali? Uma tarde, alguns dias depois, voltei para visitá-lo e descobrir os porquês.
Para minha surpresa, Srila Prabhupada (como posteriormente vim a chamá-lo) não estava muito atarefado para conversar comigo. De fato, ele parecia estar disposto a conversar o dia todo. Ele foi caloroso e amigável, e explicou-me que havia aceitado a ordem de vida renunciada na Índia em 1959, e que não lhe era permitido carregar ou ganhar dinheiro para suas necessidades pessoais. Ele tinha completado seus estudos na Universidade de Calcutá muitos anos atrás e tinha tido família, e depois deixara seus filhos mais velhos encarregados da família e dos assuntos financeiros, como prescreve a antiga cultura védica. Após aceitar a ordem renunciada, ele conseguira uma passagem de graça em cargueiro indiano (o Jaladuta da Companhia de Navegação Scindia) através de um velho amigo da família. Em setembro de 1965, ele acabara de atravessar por mar de Bombaim a Boston, equipado com apenas o equivalente a sete dólares em rúpias, um baú de livros e algumas roupas. Seu mestre espiritual, Sua Divina Graça Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, incumbira-o de transmitir os ensinamentos védicos ao mundo ocidental. E foi por isso que, aos sessenta e nove anos de idade, ele viera para a América. Disse-me que queria ensinar aos americanos a música, culinária, idiomas e diversas outras artes da Índia. Sem querer exagerar, eu estava espantado.
Vi que Srila Prabhupada dormia sobre um pequeno colchão e que suas roupas estavam penduradas em cordas na parte de trás do quarto, onde secavam ao calor da tarde de verão. Ele próprio as lavava e cozinhava sua própria comida em um engenhoso utensílio que ele fabricara com suas próprias mãos na Índia. Neste aparato de quatro níveis ele cozinhava quatro preparações de uma vez só. Amontoados por toda a sua volta, havia uma quantidade aparentemente ilimitada de manuscritos. Ele passava quase todo o tempo em que estava acordado – cerca de vinte horas em vinte e quatro, como fiquei sabendo – datilografando em sua antiquada máquina portátil a continuação dos três volumes que eu adquirira. Era uma obra projetada em sessenta volumes chamada Srimad-Bhagavatam, e era, por assim dizer, a enciclopédia da vida espiritual. Desejei-lhe boa sorte na publicação, e ele me convidou a voltar para as aulas de sânscrito aos sábados e para suas palestras noturnas às segundas, quartas e sextas. Eu aceitei o convite, agradeci-lhe, e saí, maravilhado com sua incrível determinação.
Algumas semanas mais tarde – era julho de 1966 – tive o privilégio de ajudar Srila Prabhupada a mudar-se para uma vizinhança um tanto respeitável, na Segunda Avenida. Alguns amigos e eu nos juntamos e alugamos uma loja de andar térreo e um apartamento de segundo andar, o qual dava para os fundos de um pátio, tudo no mesmo prédio. As palestras e cantos continuaram, e dentro de duas semanas uma congregação que crescia rapidamente cuidava da loja (que agora se transformara em templo) e do apartamento. Por essa época, Srila Prabhupada estava ensinando seus seguidores a imprimir e distribuir panfletos, e o proprietário de uma gravadora de discos o havia convidado a gravar um LP do canto Hare Krishna. Ele o fez, e foi um grande sucesso. Em seu novo endereço, ele ensinava canto, filosofia védica, música, meditação com japa, belas artes e culinária. A princípio, ele próprio cozinhava – ele sempre ensinou pelo exemplo. O resultado era as mais admiráveis refeições vegetarianas que eu jamais experimentei. (O próprio Srila Prabhupada era quem servia tudo que preparava!) Geralmente, as refeições consistiam de um tipo de arroz, um prato de legumes, capatis (pães achatados feitos de farinha integral) e dal (uma sopa bem temperada de feijão mung ou ervilha). A condimentação, o elemento básico para cozinhar – ghi, ou manteiga clarificada – e a concentrada atenção na temperatura apropriada para cozinhar e outros detalhes – tudo isso combinava-se para produzir deleites de paladar totalmente desconhecidos para mim. A opinião de outras pessoas sobre a comida, chamada prasada (“a misericórdia do Senhor”), concordava enfaticamente com a minha. Um assistente social que também era erudito em língua chinesa estava aprendendo com Srila Prabhupada a pintar no estilo clássico indiano. Fiquei impressionado com a alta qualidade de suas primeiras telas.
Em debates filosóficos e lógica, Srila Prabhupada era inderrotável e infatigável. Ele interrompia seu trabalho de tradução para ter discussões que às vezes chegavam a durar oito horas. Às vezes sete ou oito pessoas comprimiam-se no pequeno e imaculadamente limpo cômodo onde ele trabalhava, comia e dormia sobre uma almofada de espuma de duas polegadas de espessura. Srila Prabhupada constantemente enfatizava e exemplificava o que chamava de “vida simples com pensamento elevado.” Ele enfatizava que a vida espiritual era ciência provável através da razão e da lógica, e não mera questão de sentimentalismo ou fé cega. Ele deu início a uma revista mensal, e no outono de 1966 o New York Times publicou um artigo com foto favorável sobre ele e seus seguidores. Pouco tempo depois, um canal de televisão fez uma reportagem sobre eles.
Srila Prabhupada era uma pessoa emocionante de ser conhecida. Quer fosse por meu desejo de obter benefícios pessoais da yoga e do canto, quer fosse apenas por mera fascinação, eu sabia que queria acompanhar seu progresso a cada passo do seu caminho. Seus planos de expansão eram ousados e imprevisíveis, exceto pelo fato de que sempre pareciam suceder gloriosamente. Ele tinha os seus setenta anos e era um estranho para a América, e havia chegado praticamente sem nada; todavia, agora, após poucos meses, já havia, sozinho, dado início a um movimento! Era algo desconcertante.
Certa manhã de agosto no templo da loja da Segunda Avenida, Srila Prabhupada nos disse: “hoje é o dia do aparecimento do Senhor Krishna.” Observaríamos jejum por vinte e quatro horas e permaneceríamos dentro do templo. Naquela noite alguns visitantes da Índia também compareceram à reunião. Um deles – praticamente em lágrimas – descreveu sua infinita felicidade de ter encontrado este pedacinho da Índia autêntica no outro lado do mundo. Jamais em seus sonhos mais audaciosos poderia ele ter imaginado tal coisa. Ele ofereceu a Srila Prabhupada eloqüentes louvores e profundos agradecimentos, deixou uma doação e prostrou-se a seus pés. Todos ficaram profundamente comovidos. Mais tarde, Srila Prabhupada conversou com os cavalheiros em hindi, e, uma vez que eu não podia entender o que ele dizia, pude apenas observar como sua própria expressão e gestos tocavam o âmago da alma humana.
Posteriormente naquele ano, enquanto estive em San Francisco, enviei a Srila Prabhupada sua primeira passagem de avião, e ele voou de Nova Iorque para San Francisco. Um grupo bastante grande de nós saudou-o no aeroporto cantando o mantra Hare Krishna. Depois nós o levamos de carro à orla oriental do Golden Gate Park para um apartamento recém-alugado e um templo em loja de frente – um arranjo muito semelhante ao de Nova Iorque. Havíamos estabelecido um padrão. Srila Prabhupada estava extático.
Algumas semanas depois a primeira mrdanga (tambor feito de barro com duas extremidades para batuque) chegou a San Francisco, proveniente da Índia. Quando subi ao apartamento de Srila Prabhupada e lhe dei a notícia, ele arregalou os olhos e, com voz extasiada, mandou que eu descesse rapidamente e abrisse o engradado. Peguei o elevador, saltei no andar térreo e estava andando em direção à porta da frente quando Srila Prabhupada apareceu. Ele estava tão ávido de ver a mrdanga que desceu pela escada chegando primeiro que o elevador. Ele nos pediu para abrir o engradado, rasgou um pedaço da roupa açafroada que estava usando, e deixando apenas as extremidades para batuque expostas, envolveu toda a mrdanga com o pano. Então disse: “Isto nunca deve ser tirado,” e começou a dar instruções detalhadas sobre como tocar e cuidar do instrumento.
Ainda em San Francisco, em 1967, Srila Prabhupada inaugurou o Ratha-yatra, o Festival dos Carros, um dos vários festivais que, graças a ele, as pessoas podem assistir hoje em dia em todo o mundo. O Ratha-yatra acontece na cidade de Jagannatha Puri na Índia, ano após ano, desde há dois mil anos, e em 1975 o festival já tinha se tornado tão popular entre os San Franciscanos que o prefeito declarou este dia feriado na cidade – “Dia do Ratha-yatra em San Francisco.”
Em meados de 1966 Srila Prabhupada começara a aceitar discípulos. Ele era rápido em chamar a atenção das pessoas para o fato de que todos deviam considerá-lo, não como Deus, mas como servo de Deus, e criticava os gurus da moda que deixavam seus discípulos adorá-los como Deus. “Esses ‘deuses’ são muito baratos,” costumava dizer. Certo dia, depois que alguém perguntou, “O senhor é Deus?”, Srila Prabhupada respondeu: “Não, eu não sou Deus – sou servo de Deus.” Então ele refletiu por um momento e prosseguiu. “Na verdade, eu não sou servo de Deus. Estou tentando ser servo de Deus. Um servo de Deus não é algo comum.”
Em meados dos anos 70 o trabalho de tradução e publicação de Srila Prabhupada intensificou dramaticamente. Intelectuais em todo mundo fizeram comentários favoráveis sobre seus livros, e praticamente todas as universidades e faculdades dos Estados Unidos aceitaram-nos como texto padrão. Ao todo, ele produziu cerca de oitenta livros, os quais seus discípulos têm traduzido para vinte e cinco idiomas e dos quais já distribuíram cerca de vinte e cinco milhões de cópias. Ele estabeleceu cento e oito templos em todo o mundo, e tem cerca de dez mil discípulos iniciados e uma congregação de milhões de seguidores. Srila Prabhupada escreveu e traduziu até os últimos dias de sua estada de oitenta e um anos na Terra.
Srila Prabhupada não foi apenas outro erudito, guru, místico, professor de yoga ou instrutor de meditação oriental. Ele foi a corporificação de toda uma cultura, a qual implantou no Ocidente. Para mim e para muitos outros, ele foi, antes de mais nada, alguém que realmente se preocupou conosco, que sacrificou completamente o seu próprio conforto para trabalhar para o bem estar dos outros. Ele não tinha vida privada, senão que vivia apenas para os outros. Ensinou ciência espiritual, filosofia, bom senso, belas artes, idiomas, o modo védico de vida – higiene, nutrição, medicina, etiqueta, vida familiar, agricultura, organização social, educação escolar, economia – e muitas coisas mais a muitas pessoas. Para mim, ele foi u mestre, um pai e meu mais querido amigo.
Estou profundamente endividado com Srila Prabhupada, e é um dívida que jamais serei capaz de liquidar. Mas posso ao menos mostrar alguma gratidão, juntando-me a seus outros seguidores para satisfazer seu desejo mais íntimo – publicar e distribuir seus livros.
“Jamais morrerei,” disse Srila Prabhupada certa vez. “Viverei para sempre em meus livros.” Ele se foi deste mundo no dia 14 de novembro de 1977, mas sem dúvida ele viverá para sempre.
Michael Grant
(Mukunda dasa)

Introdução

“Quem é Srila Prabhupada?”, as pessoas perguntam freqüentemente, e é sempre uma pergunta difícil de se responder. Pois Srila Prabhupada sempre eclipsou designações convencionais. Várias vezes as pessoas o têm chamado de erudito, filósofo, embaixador cultural, autor prolífico, líder religioso, mestre espiritual, crítico social e homem santo. Na verdade, ele foi tudo isso junto e mais. Decerto ninguém poderia tê-lo confundido com os modernos “gurus” empresariados que vêm para o Ocidente com versões habilidosamente empacotadas e água-com-açúcar de espiritualidade oriental (para satisfazer nossa premente necessidade de bem-estar instantâneo e explorar nossa bem-documentada ingenuidade espiritual). Srila Prabhupada foi, antes, um verdadeiro homem santo (sadhu) de profunda sensibilidade intelectual e espiritual – ele teve profunda preocupação e compaixão por uma sociedade que, em proporções muito salientes, carece de verdadeira dimensão espiritual.
Para a iluminação da sociedade humana, Srila Prabhupada produziu cerca de oitenta volumes de traduções e estudos sumários dos grandes clássicos espirituais da Índia, e sua obra tem sido impressa em muitas línguas em todos os continentes. Além disso, em 1944 Srila Prabhupada, sozinho, lançou uma revista chamada De Volta ao Supremo, que hoje em dia tem uma circulação mensal de mais de meio milhão de cópias apenas em inglês. Praticamente todas as entrevistas, palestras, ensaios e cartas escolhidas para o Ciência da Auto-realização apareceram primeiramente em De Volta ao Supremo.
Nessas páginas Srila Prabhupada apresenta a mesma mensagem que o grande sábio Vyasadeva registrou milhares de anos atrás, a mensagem dos textos védicos da Índia milenar. Como veremos, ele faz citações freqüentes do Bhagavad-gita, do Srimad-Bhagavatam e de outros clássicos textos védicos. Ele transmite em inglês moderno o mesmo conhecimento intemporal que outros grandes mestres auto-realizados têm falado desde há milênios – conhecimento que revela os segredos do eu dentro de nós, da natureza e do universo, e do Eu Supremo dentro e fora de nós. Srila Prabhupada fala com uma clareza admirável e uma espécie de eloqüência simples e convincente, provando quão relevante é a ciência da auto-realização para nosso mundo moderno e nossas próprias vidas.
Entre as dezenove seleções escolhidas para a primeira parte desta obra especial, ouvimos o comovente discurso de Srila Prabhupada em homenagem a seu mestre espiritual, seu intercâmbio com um renomado cardiologista sobre a “investigação da alma”, suas revelações à London Broadcasting Company sobre reencarnação, seus agudos comentários ao London Times dobre gurus falsos e verdadeiros, seu diálogo com um monge beneditino da Alemanha acerca de Krishna e Cristo, suas realizações sobre a superconsciência e a lei do karma e seu notável comentário ao profundo poema de Sripada Sankaracarya, a maior autoridade em filosofia impersonalista na Índia.
Leia as seleções em ordem, se quiser, ou comece com aqueles que de início despertarem seu interesse. (O glossário no final do livro explicará palavras e nomes pouco familiares.) A Ciência da Auto-realização desafiá-lo-á e dar-lhe-á inspiração e iluminação.
-Os Editores

I.
Aprendendo
A ciência da
alma
Considerando o objetivo
Da vida humana

Quem é você? Acaso você é seu corpo? Ou sua mente? Ou será você algo superior? Você sabe quem é você, ou você apenas acha que sabe? E isso é realmente importante? Nossa sociedade materialista, com sua liderança obscura, tem transformado em verdadeiro tabu a indagação acerca de nosso eu verdadeiro, superior. Ao invés, nós usamos nosso tempo valioso, mantendo, decorando e saciando o corpo para seu próprio benefício. Acaso há uma alternativa?

Este importantíssimo movimento para a consciência de Krishna destina-se a salvar a sociedade humana da morte espiritual. Atualmente, a sociedade humana está sendo desencaminhada por líderes cegos, pois eles não conhecem a meta e objetivo da vida humana, que é a auto-realização e o restabelecimento de nossa relação perdida com a suprema personalidade de Deus. É isto que está faltando. O movimento para a consciência de Krishna está tentando esclarecer a sociedade humana sobre este importante assunto.
Segundo a civilização védica, a perfeição da vida é compreendermos nosso relacionamento com Krishna, ou Deus. No Bhagavad-gita, que é aceito por todas as autoridades em ciência transcendental como a base de todo o conhecimento védico, aprendemos que não só os seres humanos mas também todas as entidades vivas são partes integrantes de Deus. A função das partes é servir ao todo, assim como as pernas, mãos, dedos e ouvidos destinam-se a servir ao corpo inteiro. Nós, entidades vivas, sendo partes integrantes de Deus, temos a obrigação de servi-lO.
Na verdade, nossa posição é que sempre estamos prestando serviço a alguém, seja nossa família, país ou sociedade. Se não temos ninguém a quem servir, às vezes criamos um cão ou um gato de estimação e prestamos-lhe serviço. Todos estes fatores provam que estamos constitucionalmente destinados a prestar serviço; porém, apesar de servirmos da melhor maneira possível, não ficamos satisfeitos. Tampouco a pessoa a quem prestamos o serviço fica satisfeita. Na plataforma material, todos estão frustrados. O motivo disso é que o serviço que está sendo prestado não está corretamente orientado. Por exemplo, se quisermos servir a uma árvore, teremos que molhar-lhe a raiz. Se molharmos as folhas, ramos e galhos, ela não vai aproveitar muito. Se a Suprema Personalidade de Deus é servida, todas as outras partes integrantes ficarão automaticamente satisfeitas. Conseqüentemente, todas as atividades beneficentes, bem como o serviço à sociedade, à família e à nação são realizados quando servimos à Suprema Personalidade de Deus.
É dever de todo ser humano entender sua posição constitucional em relação com Deus e agir de acordo com essa posição. Logo que isto for possível, nossas vidas vão ser bem sucedidas. Às vezes, entretanto, manifestamos um espírito desafiador e dizemos: “Deus não existe”, ou “Eu sou Deus”, ou mesmo “Não me importo com Deus.” Mas o fato é que este espírito desafiador não nos salvará. Deus existe e podemos vê-lO a cada momento. Se nos negarmos a ver Deus durante nossa vida, então Ele Se apresentará ante nós como a morte cruel. Se optamos por não vê-lO sob um aspecto, vê-lO-emos sob outro aspecto. Há diferentes aspectos da Suprema Personalidade de Deus porque Ele é a raiz original de toda a manifestação cósmica. Neste sentido, não é possível escaparmos dEle.
Este movimento para a consciência de Krishna não é um movimento de cego fanatismo religioso, nem é um movimento de revoltados criado por algum novo-rico atual; muito pelo contrário, é um movimento que aborda autorizada e cientificamente a questão de nossa necessidade eterna em relação com a Personalidade de Deus Absoluta, o Desfrutador Supremo. A Consciência de Krishna trata simplesmente de nosso relacionamento eterno com Ele e do processo de cumprir nossos deveres relativos a Ele. Deste modo, a consciência de Krishna capacita-nos a atingir a perfeição máxima da vida, obtenível na atual forma de existência humana.
Devemo-nos lembrar sempre de que esta forma particular de vida humana é alcançada após uma evolução de muito milhões de anos no ciclo transmigratório da alma espiritual. Nesta forma de vida em particular, a questão econômica é mais facilmente resolvida do que nas formas animais inferiores. Há suínos, cães, camelos, asnos e assim por diante cujas necessidades econômicas são tão importantes quanto as nossas, mas os problemas econômicos desses animais e outros são resolvidos sob condições primitivas, ao passo que o ser humano recebe das leis da natureza todas as oportunidades para levar uma vida confortável.
Por que o homem recebe melhores oportunidades para viver do que os suínos ou outros animais? Por que um alto funcionário do governo recebe melhores facilidades para uma vida confortável do que um funcionário comum? A resposta é muito simples: o funcionário importante tem que cumprir deveres de maior responsabilidade do que o funcionário comum. De modo semelhante, o ser humano tem que cumprir deveres superiores aos dos animais, que estão sempre atarefados enchendo seus estômagos famintos. Mas, devido às leis da natureza, o moderno padrão animalesco de civilização tem apenas aumentado os problemas de encher o estômago. Quando nos aproximamos de algum desses animais polidos propondo-lhes a vida espiritual, eles dizem que só querem trabalhar para a satisfação de seus estômagos e que não há necessidade de indagar sobre o Supremo. Não obstante, a despeito de sua avidez de trabalhar arduamente, há sempre o problema do desemprego e tantas outras contrariedades infligidas pelas leis da natureza. Apesar disso, eles ainda rejeitam a necessidade de reconhecer o Supremo.
Recebemos esta forma humana de vida não apenas para trabalhar arduamente como o suíno e o cão, mas também para alcançar a perfeição máxima da vida. Se não quisermos esta perfeição, teremos que trabalhar arduamente, pois seremos forçados a isso pelas leis da natureza. Nos últimos dias de Kali-yuga (esta era atual) os homens terão que trabalhar arduamente como asnos em troca de uma mísera migalha de pão. Este processo já começou, e a cada ano a necessidade de trabalhar mais arduamente em troca de remunerações sempre menores aumentará. Contudo, os seres humanos não estão destinados a trabalhar arduamente como animais, e, se um homem deixa de cumprir seus deveres como ser humano, ele é forçado a transmigrar para as espécies inferiores de vida pelas leis da natureza. O Bhagavad-gita descreve muito vividamente como a alma espiritual, de acordo com as leis da natureza, nasce e obtém um corpo e órgãos sensoriais adequados para desfrutar da matéria no mundo material.
No Bhagavad-gita também se afirma que aqueles que começam mas não prosseguem no caminho de se aproximar de Deus – em outras palavras, aqueles que não conseguem atingir o sucesso completo na consciência de Krishna – recebem a oportunidade de aparecer em famílias dos espiritualmente avançados ou em famílias de comerciantes financeiramente prósperos. Se aos mal sucedidos aspirantes espirituais são oferecidas tais oportunidades de parentesco nobre, o que se dizer daqueles que tenham realmente alcançado o sucesso esperado? Portanto, uma tentativa de voltar ao Supremo, mesmo que inacabada, garante um bom nascimento na próxima vida. Tanto a família espiritual quanto a financeiramente próspera são benéficas para o avanço espiritual, porque em ambas essas famílias pode-se obter uma boa oportunidade de progredir mais do ponto onde se parou em nascimento anterior. Na realização espiritual, a atmosfera gerada por uma boa família é favorável para o cultivo de conhecimento espiritual. O Bhagavad-gita lembra a tais pessoas afortunadas, nascidas em boas famílias, que sua boa sorte é devida a suas atividades devocionais passadas. Infelizmente, os filhos dessas famílias não consultam o Bhagavad-gita, sendo desencaminhados por maya (ilusão).
O nascimento em uma família próspera resolve o problema de ter alimentação suficiente desde o começo da vida, e, posteriormente, pode-se ter um modo de vida relativamente mais fácil e mais confortável. Estando nessa situação, uma pessoa tem uma boa oportunidade de avançar no caminho da realização espiritual, mas por uma questão de má sorte, devido à influência da atual era de ferro (que é cheia de máquinas e pessoas mecânicas) os filhos dos abastados são desencaminhados para o desfrute dos sentidos, e se esquecem da boa oportunidade que têm para a iluminação espiritual. Portanto, a natureza, através de suas leis, está deitando fogo a tais lares de ouro. Assim aconteceu à dourada cidade de Lanka, sob o regime do demoníaco Ravana, que foi reduzida a cinzas. Esta é a lei da natureza.
O Bhagavad-gita é o estudo preliminar da transcendental ciência da consciência de Krishna, e é dever de todos os chefes de estado responsáveis planejar seus projetos econômicos e outros projetos, recorrendo ao Bhagavad-gita. Não estamos destinados a resolver apenas os problemas econômicos da vida, equilibrando-nos em uma plataforma vacilante; ao contrário, nosso objetivo é resolver os problemas fundamentais da vida que surgem devido às leis da natureza. A civilização permanece estática a menos que haja movimento espiritual. A alma movimenta o corpo, e o corpo vivo movimenta o mundo. Estamos preocupados com o corpo, mas não temos conhecimento do espírito que está movimentando esse corpo. Sem o espírito, o corpo permanece imóvel, ou morto.
O corpo humano é um excelente veículo através do qual podemos alcançar a vida eterna. É um barco raro e muito importante para atravessar o oceano da ignorância que é a existência material. Neste barco, há o serviço a um hábil barqueiro, o mestre espiritual. Pela divina graça, o barqueiro singra o oceano com vento favorável. Com todos esses fatores auspiciosos, quem não aproveitaria a oportunidade para atravessar o oceano da ignorância? Se uma pessoa negligencia esta boa oportunidade, pode-se considera-la como alguém que está simplesmente cometendo suicídio.
Há sem dúvida bastante conforto no vagão de primeira classe de um trem, mas se o trem não anda em direção a seu destino, qual a vantagem de se ter um compartimento com ar condicionado? A civilização contemporânea está demasiadamente interessada em dar conforto ao corpo material, mas ninguém tem informação do verdadeiro destino da vida, que é voltar ao Supremo. Não devemos ficar apenas sentados em um compartimento confortável; devemos examinar se nosso veículo está indo ou não para o seu verdadeiro destino. Não há vantagem alguma em dar conforto ao corpo material às custas do esquecimento da principal necessidade da vida, que é recuperar nossa identidade espiritual perdida. O barco da vida humana é construído de tal maneira que deve dirigir-se a um destino espiritual. Infelizmente, este corpo está ancorado na consciência mundana através de cinco fortes correntes, que são: (1) apego ao corpo material devido à ignorância de fatos espirituais, (2) apego a parentes devido a relações corpóreas, (3) apego à terra natal e a posses materiais tais como casa, móveis, bens, propriedades, documentos, etc., (4) apego à ciência material, que sempre permanece obscura por falta de luz espiritual, e (5) apego a formas religiosas e rituais sagrados sem conhecimento da Personalidade de Deus ou Seus devotos, que os tornam sagrados. Esses apegos, que ancoram o barco do corpo humano, são explicados detalhadamente no Décimo Quinto Capítulo do Bhagavad-gita. Eles são comparados a uma figueira-de-bengala de raízes profundas que está constantemente aumentando sua aderência à terra. È muito difícil desenraizar essa forte figueira-de-bengala, mas o Senhor recomenda o seguinte processo: “A forma real desta árvore não pode ser percebida neste mundo. Ninguém pode entender onde ela termina, onde começa ou onde está sua base. Porém, com determinação, deve-se buscar aquele local do qual, uma vez lá chegando, nunca se retorna, e ali render-se àquela Suprema Personalidade de Deus de quem tudo começou e em quem tudo está apoiado desde tempos imemoriais.” [Bg. 15.3-4] Até agora, nem os cientistas nem os filósofos especulativos chegaram a conclusão alguma relativa à situação cósmica. Tudo o que eles têm feito é apresentar diferentes teorias sobre a situação cósmica. Alguns deles dizem que o mundo material é real, outros dizem que é um sonho, e há outros ainda que dizem que ele existe eternamente. Dessa maneira, os eruditos mundanos mantêm diferentes pontos de vista, mas o fato é que nenhum cientista mundano ou filosofo especulativo conseguiu jamais descobrir o começo do cosmo ou seus limites. Ninguém pode dizer quando ele começou ou como ele flutua no espaço. Eles teoricamente propõem algumas leis, como a lei da gravitação, mas na verdade eles não podem pôr esta lei em prática. Por falta de conhecimento real da verdade, todos estão ansiosos em promover sua própria teoria para conseguir alguma fama, mas o fato verdadeiro é que este mundo material é cheio de misérias e que ninguém pode supera-las simplesmente por promover algumas teorias sobre o assunto. A Personalidade de Deus, que é plenamente conhecedora de tudo em Sua criação, informa-nos que é para o nosso próprio benefício que desejemos livrar-nos desta existência miserável. Para fazermos o melhor uso de um mau negócio, nossa existência material deve ser cem por cento espiritualizada. O ferro não é fogo, mas pode ser convertido em fogo pelo contato constante com o fogo. Analogamente, o desapego das atividades materiais pode ser efetuado através de atividades espirituais, e não pela inércia material. A inércia material é o lado negativo da ação material, mas a atividade espiritual é não apenas a negação da ação material, como também a ativação de nossa vida verdadeira. Devemos estar ansiosos por buscar a vida eterna, ou a existência espiritual em Brahman, O Absoluto. O reino eterno de Brahman é descrito no Bhagavad-gita como aquele país eterno do qual não se regressa. Este é o reino de Deus.
Não é possível remontarmos ao começo de nossa atual vida material, nem é necessário que saibamos como nos tornamos condicionados na existência material. Temos que nos satisfazer com o entendimento de que de alguma forma esta vida material tem acontecido desde tempos imemoriais e agora nosso dever é render-nos ao Senhor Supremo, que é a causa original de todas as causas. A qualificação preliminar para se voltar ao Supremo é dada no Bhagavad-gita [15.5]: “Aquele que é livre da ilusão, do falso prestígio e da falsa associação, que entende o eterno, que acabou com a luxúria material e está livre da dualidade de felicidade e tristeza, e que sabe como se render à Pessoa Suprema atinge esse reino eterno.”
Aquele que está convencido de sua identidade espiritual e está livre da concepção material de existência, que está livre da ilusão e é transcendental aos modos da natureza material, que se ocupa constantemente em entender o conhecimento espiritual e que se afastou completamente do gozo dos sentidos pode voltar ao Supremo. Uma pessoa assim chama-se amudha, em contraposição com o mudha, ou o tolo e ignorante, pois ela está livre da dualidade de felicidade e tristeza.
E qual é a natureza do reino de Deus? Ele é descrito no Bhagavad-gita [15.6] da seguinte maneira: “Essa Minha morada não é iluminada pelo sol ou pela lua, nem por eletricidade. Aquele que a alcança jamais retorna a este mundo material.”
Embora todos os locais na criação estejam dentro do reino de Deus, porque o Senhor é o proprietário supremo de todos os planetas, há ainda a morada pessoal do Senhor, que é completamente diferente do universo em que estamos vivendo agora. E essa morada chama-se paramam, ou a morada suprema. Mesmo na Terra há países onde o padrão de vida é elevado e países onde o padrão de vida é baixo. Além da Terra, há inumeráveis outros planetas distribuídos por todo o universo, e alguns são considerados locais superiores e outros, locais inferiores. De qualquer maneira, todos os planetas dentro da jurisdição da energia externa, natureza material, precisa dos raios de um sol ou da luz do fogo para manter sua existência, porque o universo material é uma região de escuridão. Além dessa região, contudo, está o reino espiritual, que, como se descreve, funciona sob a natureza superior de Deus. Esse reino é descrito nos Upanisads desse modo: “Lá não há necessidade de sol, lua ou estrelas, nem essa morada é iluminada pela eletricidade ou qualquer outra forma de fogo. Todos esses universos materiais são iluminados por um reflexo dessa luz espiritual, e, porque essa natureza superior é sempre auto-luminosa, podemos experimentar um brilho de luz mesmo na mais densa escuridão da noite.” No Hari-vamsa, a natureza espiritual é explicada pelo próprio Senhor Supremo da seguinte maneira: “A resplandecente refulgência do Brahman impessoal [o Absoluto impessoal] ilumina todas as existências, tanto as materiais quanto as espirituais. Mas, ó Bharata, deves entender que esta iluminação Brahman é a refulgência de Meu corpo.” No Brahma-samhita também se confirma esta conclusão. Não devemos pensar que podemos atingir essa morada por algum meio material, como naves espaciais, por exemplo, mas devemos ter a certeza de que aquele que pode atingir essa morada espiritual de Krishna pode desfrutar de bem-aventurança e conhecimento. Na existência material, somos governados pela concepção material do corpo e da mente, mas, na existência espiritual podemos sempre saborear o contato feliz e transcendental com a Personalidade de Deus. Na existência espiritual, nunca nos perdemos do Senhor.
O movimento para a consciência de Krishna está tentando trazer essa existência espiritual para a humanidade em geral. Em nossa atual consciência material, estamos apegados à concepção material sensorial de vida, mas esta concepção pode ser eliminada imediatamente através do serviço devocional a Krishna, ou consciência de Krishna. Se adotarmos os princípios do serviço devocional, poderemos nos tornar transcendentais às concepções materiais de vida e nos libertarmos dos modos de bondade, paixão e ignorância, mesmo em meio a várias ocupações materiais. Todos que estão ocupados em afazeres materiais podem obter o mais elevado benefício das páginas da revista De Volta ao Supremo e das outras obras deste movimento para a consciência de Krishna. Essas obras ajudarão todas as pessoas a cortar as raízes da infatigável figueira-de-bengala da existência material. Essas obras são autorizadas para nos treinar a renunciar a tudo que esteja relacionado com a concepção material de vida e a saborear néctar espiritual em todos os objetos. Este estágio só pode ser obtido através do serviço devocional, e nada mais. Prestando tal serviço, pode-se imediatamente obter liberação (mukti) mesmo durante a vida atual. A maioria dos esforços espirituais são matizados com as cores do materialismo, mas o serviço devocional puro é transcendental a toda contaminação material. Aqueles que desejam voltar ao Supremo necessitam apenas adotar os princípios deste movimento para a consciência de Krishna e simplesmente voltar sua consciência para os pés de lótus do Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, Krishna.

”Sua consciência original é a consciência de Krishna”


A seguinte entrevista com a repórter free-lance Sandy Nixon ocorreu em julho de 1975, nos aposentos de Srila Prabhupada no centro da ISKCON de Filadélfia. Esta discussão serve como magnífica introdução à consciência de Krishna e cobre temas básicos, tais como o mantra Hare Krishna, a relação entre o mestre espiritual e Deus, a diferença entre gurus genuínos e farsantes, o papel da mulher na consciência de Krishna, o sistema de castas indiano, e a relação entre consciência de Cristo e consciência de Krishna.

Srta. Nixon: Minha primeira pergunta é muito básica. Que é a consciência de Krishna?
Srila Prabhupada: “Krishna” significa Deus. Todos nós estamos intimamente relacionados com Ele porque Ele é nosso pai original. Mas nos esquecemos dessa ligação. Quando nos interessamos em saber: “Qual é minha relação com Deus? Qual é o objetivo da vida?”, então podemos ser chamados de conscientes de Krishna.
Srta. Nixon: Como a consciência de Krishna se desenvolve no praticante?
Srila Prabhupada: A consciência de Krishna já existe no âmago do coração de todos. Mas, por causa de nossa vida materialmente condicionada, esquecemo-nos dela. O processo de cantar o maha-mantra Hare Krishna – Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rãma, Hare Rãma, Rãma Rãma, Hare Hare – revive a consciência de Krishna que nós já temos. Por exemplo, há alguns meses atrás esses rapazes e moças americanos e europeus não conheciam Krishna, mas ontem mesmo nós os vimos cantando Hare Krishna e dançando em êxtase durante toda a procissão Ratha-yatra [um festival anual patrocinado pelo movimento para a consciência de Krishna em cidades de todo o mundo]. Você acha que aquilo foi artificial? Não. Artificialmente, ninguém pode cantar e dançar por horas a fio. Eles realmente despertaram sua consciência de Krishna por terem seguido um processo genuíno. Isto é explicado no Caitanya-caritamrta [Madhya 22.107]:

nitya-siddha krsna-prema ‘sadhya’ kabhu naya
sravanadi-suddha-citte karaye udaya

A consciência de Krishna está adormecida no coração de todos, e, quando uma pessoa entra em contato com devotos, ela é desperta. A consciência de Krishna não é algo artificial. Assim como um rapaz desperta sua atração natural por uma moça na companhia dela, de modo semelhante, se alguém ouve a respeito de Krishna na companhia de devotos, ele desperta sua consciência de Krishna adormecida.
Srta. Nixon: Qual é a diferença entre consciência de Krishna e consciência de Cristo?
Srila Prabhupada: Consciência de Cristo também é consciência de Krishna, mas, porque atualmente as pessoas não seguem as regras e regulações do cristianismo – os mandamentos de Jesus Cristo – elas não chegam ao padrão de consciência de Deus.
Srta. Nixon: O que é comum sobre o tema consciência de Krishna entre todas as religiões?
Srila Prabhupada: Primeiramente, religião significa conhecer Deus e amá-lO. Isto é religião. Hoje em dia, por falta de treinamento, ninguém conhece Deus, isto para não falar de amá-lO. As pessoas se contentam apenas com ir à igreja e orar: “Ó Deus! Dai-nos o pão de cada dia.” No Srimad-Bhagavatam isto se chama religião enganadora, porque o objetivo não é conhecer e amar a Deus, mas sim obter alguma vantagem pessoal. Em outras palavras, se eu ingresso numa religião, mas não sei quem é Deus nem como amá-lO, estou praticando uma religião enganadora. Quanto à religião cristã, ela concede boa oportunidade de conhecer Deus, mas ninguém está tirando proveito dessa oportunidade. Por exemplo, a Bíblia contém o mandamento “Não matarás”, mas os cristãos têm construído os melhores matadouros do mundo. Como eles podem se tornar conscientes de Deus se desobedecem aos mandamentos do Senhor Jesus Cristo? E isto está acontecendo não só na religião cristã, mas também em todas as religiões. O título “hindu”, “muçulmano” ou “cristão” é um mero rótulo. Nenhum deles sabe quem é Deus e como amá-lO.
Srta. Nixon: Como podemos diferenciar um mestre espiritual fidedigno de um trapaceiro?
Srila Prabhupada: Quem quer que ensine como conhecer Deus e como amá-lO é um mestre espiritual. Às vezes patifes falsos desencaminham o povo. “Eu sou Deus”, afirmam eles, e as pessoas que não sabem o que é Deus acreditam neles. Você tem que estudar seriamente para entender quem é Deus e como amá-lO. Caso contrário, vai simplesmente perder seu tempo. Então, a diferença entre os outros e nós é que somos o único movimento que pode realmente ensinar como conhecer Deus e como amá-lO. Estamos apresentando a ciência de como uma pessoa pode conhecer Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, praticando os ensinamentos do Bhagavad-gita e do Srimad-Bhagavatam. Esses livros nos ensinam que nosso único dever é amar a Deus. Nossa missão não é pedir nossas provisões a Deus. Deus dá recursos a todos – mesmo a quem não tem religião. Por exemplo, os cães e gatos não têm religião, todavia Krishna lhes fornece os recursos da vida. Por que, então molestaríamos Krishna com pedidos do pão nosso de cada dia? Ele já o está fornecendo. Verdadeira religião significa aprender como amá-lO. O Srimad-Bhagavatam [1.2.6] diz:

sa vai pumsam paro dharma
yato bhaktir adhoksaje
ahaituky apratihata
yayatma suprasidati

A religião de primeira classe ensina-nos como amar a Deus sem nenhum interesse. Se eu sirvo a Deus em troca de algum lucro, isto é comércio – e não amor. O verdadeiro amor a Deus é ahaituky apratihata: não pode ser impedido por nenhuma causa material. É incondicional. Para aquele que quer realmente amar a Deus não há obstáculos. Podemos amá-lO, quer sejamos pobres ou ricos, jovens ou idosos, negros ou brancos.
Srta. Nixon: Todos os caminhos levam ao mesmo fim?
Srila Prabhupada: Não. Há quatro tipos de homens – os karmis, os jnanis, os yogis, e os bhaktas – e cada um deles atinge uma meta diferente. Os karmis trabalham em troca de algum lucro material. Por exemplo, na cidade, muitas pessoas trabalham arduamente dia e noite com o objetivo de obter algum dinheiro. Deste modo, eles são trabalhadores fruitivos, ou karmis. O jnani é a pessoa que pensa: “Por que estou trabalhando tão arduamente? As aves, as abelhas, elefantes e outras criaturas não tem profissão, porém também estão comendo. Por que, então, deveria eu desnecessariamente trabalhar dessa maneira? Deixe-me, antes, tentar resolver os problemas da vida – nascimento, morte, velhice e doença.” Os jnanis tentam tornar-se imortais. Eles pensam que se submergirem na existência de Deus, então tornar-se-ão imunes ao nascimento, morte, velhice e doença. E os yogis tentam adquirir algum poder místico para exibir um show maravilhoso. Por exemplo, um yogi pode tornar-se muito pequeno: se você o coloca em um cômodo fechado, ele pode sair por algum espaço minúsculo. Demonstrando este tipo de mágica, o yogi é imediatamente aceito como um homem muito admirável. Evidentemente, os yogis modernos mostram simplesmente algumas ginásticas – poder mesmo eles não têm. O yogi verdadeiro tem poder, porém este não é espiritual, mas material. De modo que o yogi busca poder místico, o jnani busca salvação das misérias da vida e o karmi busca lucro material. Mas o bhakta – o devoto – não busca nada para si mesmo. Ele apenas quer servir a Deus por amor, assim como a mãe serve ao filho. Está fora de cogitação o lucro no serviço que a mãe presta ao filho. Por pura afeição e amor, é que ela cuida dele.
Quando você chega ao estágio de amor a Deus, você chega à perfeição. Nem o karmi, nem o jnani, nem o yogi podem conhecer a Deus – somente o bhakta. Como Krishna diz no Bhagavad-gita [18.55], bhaktya mam abhijanati: “Somente através do processo de bhakti pode alguém entender Deus.” Krishna nunca diz que alguém pode entendê-lO mediante outros processos. Não. Somente através de bhakti. Se você está interessada em conhecer Deus e amá-lO, então tem que aceitar o processo devocional. Nenhum outro processo vai ajudá-la.
Srta. Nixon: A que transformação temos que nos submeter no caminho...
Srila Prabhupada: Nenhuma transformação – sua consciência original é a consciência de Krishna. Agora sua consciência está coberta com muitas imundícies. Você tem que limpá-la, e surgirá a consciência de Krishna. Nossa consciência é como a água. A água é por natureza clara e transparente, mas às vezes ela se torna lamacenta. Se você filtra toda a lama da água, ela volta outra vez a seu estado original, claro e transparente.
Srta. Nixon: Uma pessoa pode servir melhor à sociedade tornando-se consciente de Krishna?
Srila Prabhupada: Sim, você pode ver que meus discípulos não são beberrões nem comedores de carne, e do ponto de vista filosófico eles são muito limpos – eles nunca serão atacados por doenças sérias. Na verdade, abandonar o comer de carne não é uma questão de consciência de Krishna, mas sim de vida humana civilizada. Deus deu à sociedade humana muitas coisas para comer – boas frutas, legumes, cereais e o leite de primeira classe. Com o leite, pode-se preparar centenas de alimentos nutritivos, mas ninguém conhece essa arte. Ao invés disso, as pessoas mantêm grandes matadouros e comem carne. Elas não são nem sequer civilizadas. Quando o homem é incivilizado, ele mata os pobres animais e os come.
Os homens civilizados conhecem a arte de preparar alimentos nutritivos com o leite. Por exemplo, em nossa fazenda New Vrndavana na Virgínia Ocidental, fazemos centenas de preparações de primeira classe com o leite. Sempre que vêm visitantes, eles ficam admirados de que todos esses alimentos podem ser preparados com o leite. O sangue da vaca é muito nutritivo, mas os homens civilizados utilizam-no sob a forma do leite. O leite nada mais é do que o sangue da vaca transformado. Você pode transformar o leite em muitas coisas – iogurte, coalhada, ghee (manteiga clarificada) e assim por diante – e, combinando esses produtos lácteos com cereais, frutas e vegetais, você pode fazer centenas de preparações. Isto é vida civilizada – não diretamente matar um animal e comer sua carne. A vaca inocente está simplesmente comendo o capim dado por Deus e fornecendo o leite, com o qual você pode manter-se. Você acha que cortar a garganta da vaca e comer sua carne é civilizado?
Srta. Nixon: Não, eu concordo com o senhor cem por cento. Uma coisa que me desperta muita curiosidade: os Vedas podem ser interpretados simbolicamente, bem como literalmente?
Srila Prabhupada: Não. Eles devem ser considerados tais como são, e não simbolicamente. É por isso que estamos apresentando o Bhagavad-gita Como Ele É.
Srta. Nixon: O senhor está tentando reviver o antigo sistema de castas indiano no Ocidente? O Gita menciona o sistema de castas...
Srila Prabhupada: Em que parte do Bhagavad-gita se menciona o sistema de castas? Krishna diz: catur-varnyam maya srstam guna-karma-vibhagasah: “Eu criei quatro divisões de homens de acordo com sua qualidade e trabalho.” [Bg. 4.13] Por exemplo, você pode entender que há engenheiros, como também há médicos na sociedade. Você diz que eles pertencem a diferentes castas – que um é da casta dos engenheiros e o outro é da casta dos médicos? Não. Se um homem se qualifica na escola de medicina, você o aceita como médico; e se outro homem tem um diploma de engenharia, você o aceita como engenheiro. Analogamente, o Bhagavad-gita define quatro classes de homens na sociedade: uma classe de homens altamente inteligentes, uma classe de administradores, uma classe de produtores e os trabalhadores comuns. Essas divisões são naturais. Por exemplo, uma classe de homens é muito inteligente. Mas, para realmente preencherem os requisitos de homens de primeira classe, como se descreve no Bhagavad-gita, eles precisam ser treinados, assim como um rapaz inteligente precisa ser treinado em uma faculdade para tornar-se um médico qualificado. Da mesma forma, no movimento para a consciência de Krishna estamos treinando os homens inteligentes como devem controlar suas mentes, como controlar seus sentidos, como tornar-se verazes, como tornar-se limpos interna e externamente, como tornar-se sábios, como aplicar seu conhecimento na vida prática e como tornar-se conscientes de Deus. Todos esses rapazes [aponta para os discípulos presentes] têm inteligência de primeira classe, e agora nós os estamos treinando em usá-la adequadamente.
Não estamos introduzindo o sistema de castas, em que qualquer patife nascido em família de brahmanas é automaticamente um brahmana. Ele pode ter os hábitos de um homem de quinta classe, mas é aceito como um de primeira classe por causa de seu nascimento em família de brahmanas. Nós não aceitamos isto. Reconhecemos que um homem é de primeira classe se ele é treinado como um brahmana. Não importa que ele seja indiano, europeu ou americano; de nascimento humilde ou de nascimento nobre – isto não importa. Qualquer homem inteligente pode ser treinado na aquisição de hábitos de primeira classe. Queremos refutar a idéia disparatada de que estamos impondo o sistema de castas indiano a nossos discípulos. Estamos simplesmente recrutando homens com inteligência de primeira classe e treinando-os na arte de serem de primeira classe sob todos os aspectos.
Srta. Nixon: O que o senhor pensa sobre a liberação feminina?
Srila Prabhupada: Os ditos direitos de igualdade para as mulheres significam que os homens enganam as mulheres. Suponha que um homem e uma mulher se encontram, tornam-se amantes, fazem sexo, a mulher fica grávida e o homem vai embora. A mulher tem que cuidar do filho e pedir esmolas ao governo, ou então ela mata a criança fazendo aborto. Esta é a independência da mulher. Na Índia, mesmo que uma mulher seja muito pobre, ela se mantém sob os cuidados do esposo, e ele se responsabiliza por ela. Quando ela fica grávida, ela não é forçada a matar a criança ou mantê-la pedindo esmolas. Então, qual é a verdadeira independência – permanecer sob os cuidados do esposo ou ser desfrutada por todos?
Srta. Nixon: E quanto à vida espiritual – as mulheres também podem ter sucesso na consciência de Krishna?
Srila Prabhupada: Não fazemos distinção quanto ao sexo. Damos a consciência de Krishna tanto aos homens quanto às mulheres, igualmente. Damos nossas boas-vindas às mulheres, aos homens, aos pobres, aos ricos – a todos. Krishna diz no Bhagavad-gita [5.18]:
vidya-vinaya-sampane
brahmane gavi hastini
suni caiva svapake ca
panditah sama-darsinah

“O sábio humilde, em virtude do conhecimento verdadeiro, considera em pé de igualdade um brahmana erudito e nobre, uma vaca, um elefante, um cachorro e um comedor de cachorro.”
Srta. Nixon: O senhor poderia explicar o significado do mantra Hare Krishna?
Srila Prabhupada: É muito simples. Hare significa “ó energia do Senhor”, e Krishna significa “ó Senhor Krishna.” Assim como há machos e fêmeas no mundo material, de modo semelhante, Deus é o macho original (purusa), e Sua energia (prakrti) é a fêmea original. Assim, quando cantamos Hare Krishna, estamos dizendo: “Ó Senhor Krishna, ó energia de Krishna, por favor, ocupai-me em Vosso serviço.”
Srta. Nixon: O senhor poderia me falar um pouco sobre sua vida e como o senhor soube que era o mestre espiritual do movimento para a consciência de Krishna?
Srila Prabhupada: Minha vida é simples. Eu era pai de família com esposa e filhos – agora tenho netos – quando meu mestre espiritual mandou que eu viesse aos países ocidentais e pregasse o culto da consciência de Krishna. Então, eu deixei tudo por ordem de meu mestre espiritual, e agora estou tentando executar suas ordens e as ordens de Krishna.
Srta. Nixon: Quantos anos o senhor tinha quando lhe disse que viesse para o Ocidente?
Srila Prabhupada: Em nosso primeiro encontro, ele mandou que eu pregasse a consciência de Krishna no Ocidente. Naquela época eu tinha vinte e cinco anos, era casado e tinha dois filhos. Tentei o melhor que pude executar suas ordens e comecei a publicar a revista De Volta ao Supremo em 1944, quando ainda era casado. Comecei a escrever livros em 1959 após retirar-me da vida familiar, e em 1965 vim para os Estados Unidos.
Srta. Nixon: O senhor disse que não é Deus, e mesmo assim a mim me parece, como uma leiga, que seus devotos o tratam como se o senhor fosse Deus.
Srila Prabhupada: Sim, este é o dever deles. Porque o mestre espiritual está executando a ordem de Deus, ele deve se respeitado tanto quanto Deus, assim como um funcionário do governo deve ser respeitado tanto quanto o governo porque ele executa a ordem do governo. Mesmo um policial comum, você tem que respeitá-lo porque ele é um homem do governo. Sakasad-dharitvena samasta-sastrair/ uktas tatha bhavyata eva sadbhih: “O mestre espiritual deve ser honrado tanto quanto o Senhor Supremo porque ele é o servo mais confidencial do Senhor. Isto é reconhecido em todas as escrituras reveladas e seguido por todas as autoridades.”
Srta. Nixon: Também me pergunto sobre as muitas e belas coisas materiais que os devotos lhe trazem. Por exemplo, o senhor saiu do aeroporto em um belo carro último tipo. Eu me pergunto sobre isso porque...
Srila Prabhupada: Isso ensina os discípulos a como considerar o mestre no mesmo nível que Deus. Se você respeita o representante do governo tanto quanto respeita o governo, então você tem que trata-lo opulentamente. Se você respeita o mestre espiritual tanto quanto Deus, então você tem que lhe oferecer as mesmas facilidades que ofereceria a Deus. Deus viaja em um carro de ouro. Se os discípulos oferecem um carro comum ao mestre espiritual, isto não seria suficiente porque o mestre espiritual tem que ser tratado como Deus. Se Deus viesse a sua casa, você O traria em um carro comum – ou providenciaria um carro de ouro?
Srta. Nixon: Um dos aspectos mais difíceis da consciência de Krishna para um leigo aceitar é a Deidade no templo – como ela representa Krishna. O senhor poderia falar um pouco sobre isso?
Srila Prabhupada: Sim. Atualmente, porque você não está treinada para ver Krishna, Ele bondosamente aparece perante você para que você possa vê-lO. Você pode ver madeira e pedra, mas não pode ver o que é espiritual. Suponha que seu pai está no hospital e morre. Você fica chorando no leito de morte: “Ah! meu pai se foi!” Mas por que você diz que ele se foi? Que coisa é essa de se foi?
Srta. Nixon: Bem, seu espírito foi embora.
Srila Prabhupada: E você viu o espírito?
Srta. Nixon: Não.
Srila Prabhupada: Então você não pode ver o espírito, e Deus é o Espírito Supremo. Na realidade, Ele é tudo – espírito e matéria – mas você não pode vê-lO em Sua identidade espiritual. Por isso, para mostrar bondade para com você, Ele aparece por Sua ilimitada misericórdia sob a forma de uma Deidade de madeira ou de pedra para que você possa vê-lO.
Srta. Nixon: Muito obrigada.
Srila Prabhupada: Hare Krishna!


”Avanço verdadeiro
significa conhecer a Deus”

Os conceitos sobre Deus do homem moderno são muitos e variados. As crianças têm a tendência a imaginar que Deus é um velhinho de barbas brancas. Muitos adultos consideram Deus uma força invisível, ou um conceito mental, ou toda a humanidade, ou o universo, ou mesmo eles mesmos. Nesta palestra, Srila Prabhupada descreve em detalhes o conceito consciência de Krishna – uma visão surpreendentemente íntima de Deus.

Senhoras e senhores, agradeço a todos por estarem gentilmente participando deste movimento para a consciência de Krishna. Quando esta sociedade foi registrada em Nova Iorque no ano de 1966, um amigo sugeriu que eu a chamasse de Sociedade para a Consciência de Deus. Ele achava que o nome Krishna era sectário. O dicionário também diz que Krishna é o nome de um deus hindu. Mas, na verdade, se podemos atribuir algum nome a Deus, este nome é “Krishna”.
Na verdade, Deus não tem um nome particular. Ao dizermos que Ele não tem nome, queremos dizer que ninguém sabe quantos nomes Ele tem. Uma vez que Deus é ilimitado, Seus nomes também têm que ser ilimitados. Portanto, não podemos nos basear em um único nome. Por exemplo, Krishna às vezes é chamado de Yasoda-nandana, o filho de mãe Yasoda; ou Devaki-nandana, o filho de Devaki; ou Vasudeva-nandana, o filho de Vasudeva; ou Nanda-nandana, o filho de Nanda. Às vezes Ele é chamado de Partha-sarathi, indicando que Ele agiu como o quadrigário de Arjuna, o qual às vezes é chamado de Partha, o filho de Prtha.
Deus tem muitos entretenimentos com Seus muitos devotos, e , de acordo com esses entretenimentos, Ele é chamado por determinados nomes. Uma vez que ele tem inumeráveis devotos e inumeráveis relações com eles, Ele também tem nomes inumeráveis. Não podemos considerar apenas um nome. Mas o nome Krishna significa “todo atrativo.” Deus atrai a todos; está é a definição de “Deus.” Temos visto muitos quadros de Krishna, e percebemos que Ele atrai as vacas, os bezerros, as aves, as bestas, as árvores, as plantas e até mesmo a água de Vrndavana. Ele é atrativo para os vaqueirinhos, para as gopis, para Nanda Maharaja, para os Pandavas e para toda a sociedade humana. Por isso, se algum nome particular pode ser dado a Deus, esse nome é “Krishna.”
Parasara Muni, um grande sábio e o pai de Vyasadeva, o qual compilou todas as literaturas védicas, deu a seguinte definição de Deus:

aisvaryasya samagrasya
viryasya yasasah sriyah
jnana-vairagyayos caiva
sannam bhaga itingana

Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, é assim definido por Parasara Muni como aquele que é pleno de seis opulências – que tem toda a força, toda a fama, toda riqueza, todo conhecimento, toda beleza e toda renúncia.
Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, é o proprietário de todas as riquezas. Há muitos homens ricos no mundo, mas ninguém pode afirmar que possui toda a riqueza. Tampouco pode alguém afirmar que ninguém é mais rico que ele. Aprendemos no Srimad-Bhagavatam, entretanto, que quando Krishna esteve presente na Terra Ele teve 16.108 esposas, e cada esposa vivia em um palácio feito de mármore e ornado com jóias. Os cômodos eram cheios de móveis feitos de marfim e ouro, e havia grande opulência em toda a parte. Essas descrições são dadas vividamente no Srimad-Bhagavatam. Na história da sociedade humana, não podemos encontrar ninguém que tivesse dezesseis mil esposas ou dezesseis mil palácios. Tampouco Krishna passava um dia com uma esposa e outro dia com outra. Não, Ele estava pessoalmente presente em todos os palácios ao mesmo tempo. Isso significa que Ele Se expandiu em 16.108 formas. Isso é impossível para um homem comum, mas não é muito difícil para Deus. Se Deus é ilimitado, Ele pode Se expandir em formas ilimitadas, senão o termo “ilimitado” não teria sentido. Deus é onipotente; Ele pode manter não somente dezesseis mil esposas, mas também dezesseis milhões e mesmo assim não encontrar dificuldade em manter toda a manifestação cósmica, senão o termo “onipotente” não teria sentido. Quão belo Ele deve ser – Ele que criou toda a beleza.
Todos esses aspectos são atrativos. Concordamos que, neste mundo material, se um homem é muito rico, ele é atrativo. Na América, por exemplo, Rockfeller e Ford são muito atrativos por causa de suas riquezas. Eles são atrativos apesar de não possuírem toda a riqueza do mundo. Quão mais atrativo, então, é Deus, que possui todas as riquezas.
De modo semelhante, Krishna tem força ilimitada. Sua força se manifestou desde o momento de Seu nascimento. Quando Krishna tinha apenas três meses de idade, a demônia Putana tentou matá-lO, mas, em vez disso, ela foi morta por Krishna. Isso é Deus é Deus desde o começo. Ele não Se torna Deus mediante alguma meditação ou poder místico. Krishna não é esse tipo de Deus. Krishna foi Deus desde o próprio começo de Seu aparecimento.
Krishna também tem fama ilimitada. Evidentemente, nós somos devotos de Krishna e O conhecemos e O glorificamos, mas, além de nós, muitos milhões de pessoas no mundo conhecem a fama do Bhagavad-gita. Em todos países em todo o mundo o Bhagavad-gita é lido por filósofos, psicólogos e religiosos. Nós também estamos encontrando um bom mercado para o nosso Bhagavad-gita Como Ele É. Isto porque a mercadoria é ouro puro. Há muitas edições do Bhagavad-gita, mas elas não são puras. A nossa está vendendo mais porque estamos apresentando o Bhagavad-gita como ele é. A fama do Bhagavad-gita é a fama de Krishna.
Beleza, outra opulência – Krishna a possui ilimitadamente. O próprio Krishna é muito bonito, assim como todos os Seus companheiros. Aqueles que foram piedosos em uma vida anterior recebem uma oportunidade neste mundo material de nascerem em boas famílias e boas nações. O povo americano é muito rico e belo, e essas opulências são resultados de atividades piedosas. Em todo o mundo as pessoas são atraídas pelos americanos porque eles são avançados em conhecimento científico, riquezas, beleza e assim por diante. Este planeta é um planeta insignificante dentro do universo, porém, dentro deste planeta, um país – Estados Unidos – tem muitos aspectos atrativos. Podemos apenas imaginar, então, quantos aspectos atrativos deve possuir Deus, que é o criador de tudo que existe.
Uma pessoa é atrativa não apenas por causa de sua beleza, mas também por causa de seu conhecimento. Um cientista ou filósofo podem ser atrativos por causa de seu conhecimento, mas que conhecimento é mais sublime que aquele dado por Krishna no Bhagavad-gita? Não há comparação no mundo material para tal conhecimento. Ao mesmo tempo, Krishna possui total renúncia (vairagya). Muitas coisas funcionam sob a direção de Krishna neste mundo material, mas na verdade Krishna não está presente aqui. Uma grande fábrica pode continuar funcionando, mesmo que seu proprietário não esteja presente. Analogamente, as potências de Krishna continuam funcionando sob a direção de Seus assistentes, os semideuses. Deste modo, o próprio Krishna está à parte do mundo material. Tudo isto é descrito nas escrituras reveladas.
Deus, portanto, tem muitos nomes de acordo com Suas atividades, mas, porque Ele possui tantas opulências e porque com essas opulências Ele atrai a todos, Ele é chamado de Krishna. A literatura védica afirma que Deus tem muitos nomes, mas “Krishna” é o nome principal.
O objetivo deste movimento para a consciência de Krishna é propagar o nome de Deus, as glórias de Deus. Há muitas coisas dentro deste mundo material, e todas elas estão dentro de Krishna. O aspecto mais proeminente deste mundo material é o sexo, e o sexo também está presente em Krishna. Nós adoramos Radha e Krishna, e existe atração entre eles, mas a atração material e a atração espiritual não são a mesma coisa. Em Krishna, o sexo é real, mas aqui no mundo material o sexo é irreal. Tudo com que lidamos aqui está presente no mundo espiritual, mas aqui nada tem de valor real. Tudo é apenas um reflexo. Nas vitrinas vemos muitos manequins, mas ninguém liga para eles porque sabe que eles são falsos. Pode ser que um manequim seja muito belo, mas ainda assim é falso. Quando as pessoas vêem uma mulher bonita, entretanto, elas se sentem atraídas porque pensam que ela é real. Na verdade, os ditos vivos também estão mortos porque este corpo não passa de um pedaço de matéria; assim que a alma deixar o corpo, ninguém vai se interessar em ver o assim chamado belo corpo da mulher. O fator real, a verdadeira força de atração, é a alma espiritual.
No mundo material tudo é feito de matéria morta; portanto, não passa de mera imitação. A realidade das coisas existe no mundo espiritual. Aqueles que têm lido o Bhagavad-gita podem entender como é o mundo espiritual, pois ali se descreve:

paras tasmat tu bhavo’ nyo
vyakto’ vyaktat sanatanah
yah sa sarvesu bhutesu
nasyatsu na vinasyati

“Contudo, existe outra natureza, que é eterna e transcendental a esta matéria manifesta e imanifesta. Ela é suprema e nunca é aniquilada. Quando tudo neste mundo é aniquilado, aquela parte permanece tal como é.” [Bhagavad-gita 8.20]
Os cientistas estão tentando calcular as dimensões deste mundo material, mas eles nem conseguem começar. Eles levariam milhares de anos simplesmente para viajar até a estrela mais próxima. E o que dizer do mundo espiritual? Uma vez que não podemos conhecer o mundo material, como poderemos conhecer o que está além dele? A idéia é que devemos tomar conhecimento dessas coisas através de fontes autorizadas.
A fonte mais autorizada é Krishna, pois Ele é o reservatório de todo o conhecimento. Ninguém é mais sábio ou mais erudito que Krishna. Krishna nos informa que além deste mundo material está o céu espiritual, que é cheio de inumeráveis planetas. Esse céu é muitíssimo maior do que o espaço material, que constitui apenas uma quarta parte de toda a criação. De modo semelhante, as entidades vivas dentro do mundo material são apenas uma pequena porção das entidades vivas em toda a criação. Este mundo material é comparado a uma prisão, e, assim como os prisioneiros representam apenas uma pequena percentagem da população total, da mesma forma as entidades vivas dentro do mundo material constituem apenas uma porção fragmentária de todas as entidades vivas.
Aqueles que se revoltaram contra Deus – que são criminosos – são colocados neste mundo material. Às vezes os criminosos dizem que não se importam com o governo, mas, não obstante, eles são presos e castigados. Analogamente, as entidades vivas que declaram sua desobediência a Deus são colocadas no mundo material.
Originalmente, todas as entidades vivas são partes integrantes de Deus e se relacionam com Ele assim como os filhos se relacionam com o pai. Os cristãos também consideram Deus como o pai supremo. Os cristãos vão á igreja e rezam: “Pai nosso que estais no céu.” O conceito de Deus como pai também se encontra no Bhagavad-gita [14.4]

sarva-yonisu kaunteya
murtayah sambhavanti yah
tasam brahma mahad yonir
aham bija-pradah pita

“Deve-se entender que todas as espécies de vida, ó filho de Kunti, são possibilitadas pelo nascimento nesta natureza material, e que Eu sou o pai que dá a semente.”
Existem 8.400.000 espécies de vida – incluindo os seres aquáticos, as plantas, as aves, as bestas, os insetos e os seres humanos. Das espécies humanas, a maior parte são incivilizadas, e das poucas espécies civilizadas apenas um pequeno número de seres humanos adota a vida religiosa. Dentre muitos ditos religiosos, a maior parte identificam-se por designações, afirmando: “eu sou hindu”, “eu sou muçulmano”, “eu sou cristão” e assim por diante. Alguns dedicam-se à filantropia, outros dão caridade aos pobres e abrem escolas e hospitais. Este processo altruísta chama-se karma-kanda. Dentre milhões desses karma-kandis, pode ser que haja um jnani (“aquele que conhece”). Dentre milhões de jnanis, pode ser que um seja liberado, e dentre bilhões de almas liberadas, pode ser que uma seja capaz de entender Krishna. Esta é, então, a posição de Krishna. Como o próprio Krishna diz no Bhagavad-gita [7.3]:

manusyanam sahasresu
kascid yatati siddhaye
yatatam api siddhanam
kascin mam vetti tattvatah

“Dentre muitos milhares de homens, pode ser que um se esforce por alcançar a perfeição, e daqueles que alcançam a perfeição, dificilmente um Me conhece realmente.”
De maneira que entender Krishna é muito difícil. Mas embora o entendimento de Deus seja um assunto difícil, Deus se revela no Bhagavad-gita. Ele diz: “Eu sou isso e Eu sou aquilo. A natureza material é desse jeito e a natureza espiritual é daquele jeito. As entidades vivas são assim e a Alma suprema é assim.” Desta maneira, tudo é completamente descrito no Bhagavad-gita. Embora entender Deus seja muito difícil, isto não é difícil quando o próprio Deus nos dá o Seu próprio conhecimento. Na realidade, este é o único processo pelo qual podemos entender Deus. Entendermos Deus através de nossa própria especulação não é possível, pois Deus é ilimitado, e nós somos limitados. Se tanto o nosso conhecimento quanto nossa percepção são muito limitados, como poderemos entender o ilimitado ? Se simplesmente aceitarmos a versão do ilimitado, poderemos chegar a entendê-lO. Esse entendimento é a nossa perfeição.
O conhecimento especulativo de Deus não nos levará a arte alguma. Se um menino quer saber quem é o seu pai, o processo simples é perguntar a sua mãe. A mãe então dirá: “Este é seu pai.” Essa é a forma de adquirir conhecimento perfeito. Evidentemente, uma pessoa poderá especular sobre quem é seu pai, investigando se é este homem ou aquele homem, ou poderá errar por toda a cidade, perguntando: “O senhor é meu pai? O senhor é meu pai?” O conhecimento obtido através de tal processo, entretanto, permanecerá sempre imperfeito. Uma pessoa nunca encontrará seu pai dessa maneira. O processo simples é aceitar o conhecimento de uma autoridade – neste caso, a mãe. Ela simplesmente dirá: “Meu caro filho, eis aqui o seu pai.” Deste modo nosso conhecimento é perfeito. O conhecimento transcendental é semelhante. Há alguns momentos eu falava de um mundo espiritual. Este mundo espiritual não está sujeito a nossa especulação. Deus diz: “Há um mundo espiritual, e lá é minha sede.” Dessa maneira, recebemos conhecimento de Krishna, a melhor autoridade. Talvez não sejamos perfeitos, mas nosso conhecimento é perfeito porque é recebido da fonte perfeita.
O movimento para a consciência de Krishna destina-se a dar conhecimento perfeito à sociedade humana. Através desse conhecimento, podemos entender quem nós somos, quem é Deus, o que é o mundo material, por que viemos parar aqui, por que temos de nos submeter a tanta tribulação e miséria e por que temos de morrer. Evidentemente, ninguém quer morrer, mas a morte virá. Ninguém quer envelhecer, mas mesmo assim a velhice vem. Ninguém quer padecer de doenças, mas com toda a certeza a doença vem. Estes são os verdadeiros problemas da vida humana, e ainda estão para ser resolvidos. A civilização tenta aprimorar o comer, o dormir, o acasalar-se e o defender-se, mas esses não são os verdadeiros problemas. O homem dorme, mas o cão também dorme. O homem não é mais avançado simplesmente porque tem um bom apartamento. Em ambos os casos, a função é a mesma – dormir. O homem tem descoberto armas atômicas para a defesa, mas o cão também tem dentes e patas e também pode se defender. Em ambos os casos, há a defesa. O homem não pode dizer que, por ele ter a bomba atômica, ele poderá conquistar o mundo inteiro ou o universo inteiro. Isso não é possível. Pode ser que o homem possua um método elaborado para defesa, ou um requintado método para comer, dormir e acasalar-se, mas isso não o faz avançado. Podemos chamar seu avanço de animalismo polido, e isso é tudo.
Verdadeiro avanço significa conhecer a Deus. Se não temos conhecimento de Deus, não somos realmente avançados. Muitos patifes negam a existência de Deus, porque, não havendo Deus, eles podem continuar suas atividades pecaminosas. Talvez para eles seja muito bom pensar que Deus não existe, mas Deus não morrerá simplesmente porque o negamos. Deus existe, e Sua administração existe. Por Suas ordens, o sol está nascendo, a lua está nascendo, a água corre e o oceano mantém-se fiel a maré. Assim tudo funciona sob Sua ordem. Uma vez que tudo está acontecendo tão harmoniosamente, como pode alguém objetivamente pensar que Deus está morto? Quando há má administração, podemos dizer que não há governo, mas, sob uma boa administração, como poderemos dizer que não há governo? Apenas porque as pessoas não conhecem a Deus, elas dizem que Deus está morto, que Deus não existe, ou que Deus não tem forma. Mas nós estamos firmemente convencidos de que Deus existe e que Krishna é Deus. Por isso, O adoramos. Este é o processo da consciência de Krishna. Tentem entende-lo. Muito obrigado.


Reencarnação e além

Em agosto de 1976, Srila Prabhupada passou algumas semanas na Bhaktivedanta Manor, vinte quilômetros ao norte de Londres. Durante essa época, Mike Robinson, da London Broadcasting Company, entrevistou-o em seus aposentos. Em sua conversa, que foi difundida na Inglaterra algum tempo depois, Srila Prabhupada revelou que a consciência de Krishna “não é uma cerimônia ritualística de ‘eu creio, você crê,’” mas um sistema filosófico profundo em que a ciência da reencarnação é explicada nítida e conscientemente.

mike Robinson: O senhor pode me dizer qual é sua crença – qual vem a ser a filosofia do movimento Hare Krishna?
Srila Prabhupada: Sim. A consciência de Krishna não é uma questão de crença; é uma ciência. Em primeiro lugar, devemos saber qual é a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Qual é a diferença? A diferença é que quando alguém morre, a alma espiritual, ou força viva, abandona o corpo. Aí, portanto, o corpo é considerado “morto.” Logo, há duas coisas; uma: este corpo; e a outra: a força viva dentro do corpo. Referimo-nos à força viva que existe dentro do corpo. Esta é a diferença entre a ciência da consciência de Krishna, que é espiritual, e a ciência material comum. Como tal, no começo é muito, muito difícil que um homem comum aprecie nosso movimento. A pessoa deve compreender primeiro que é uma alma, ou algo diferente do corpo.
mike Robinson: E quando compreenderemos isto?
Srila Prabhupada: Você pode compreender dum momento para outro, mas isto requer um pouco de inteligência. À medida que uma criança cresce, por exemplo, ela se torna um adolescente, o adolescente se torna moço, o moço se torna adulto e o adulto envelhece. Por todo esse tempo, apesar de seu corpo ter passado por transformações, desde a infância até a velhice, você ainda sente que é o mesmo, com a mesma identidade. Veja bem: o corpo está mudando, mas o ocupante do corpo, a alma, permanece a mesma. Portanto, devemos concluir logicamente que quando nosso presente corpo morre, obtemos outro corpo. Isto se chama transmigração da alma.
mike Robinson: Então quando se morre é apenas o corpo físico que morre?
Srila Prabhupada: Sim. Isto está explicado de forma bastante elaborada no Bhagavad-gita [2.20]: na jayate mriyate va kadacin, na hanyate hanyamane sarire
mike Robinson: Vocês citam textos com freqüência?
Srila Prabhupada: Sim, citamos muitos textos. A consciência de Krishna é uma educação séria, não é uma religião comum. [Para um devoto:] Encontre este verso no Bhagavad-gita.
Discípulo:

na jayate mriyate va kadacin
nayam bhutva bhavita va na bhuyah
ajo nityah sasvato ‘yam purano
na hanyate hanyamane sarire

“Para a alma, nunca há nascimento nem morte, nem, uma vez que exista, ela vai deixar de existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente, imortal e primordial. Ela não morre quando o corpo morre.”
mike Robinson: Muito obrigado por tê-lo lido. Agora, o senhor pode me explicar um pouco mais? Se a alma é imperecível, isto quer dizer que a alma de todos nós irá ter com Deus após a morte ?
Srila Prabhupada: Não necessariamente. Se a pessoa é qualificada – se ela se prepara nesta vida para voltar ao lar, voltar ao Supremo – então ela pode ir. Se ela não se prepara, então obtém outro corpo material. E existem 8.400.000 formas corpóreas diferentes. De acordo com os desejos e o karma da pessoa, as leis da natureza dão-lhe um corpo apropriado. Tome a analogia de um homem que contrai uma doença e esta nele se desenvolve. É difícil compreender isto?
mike Robinson: Isso tudo é muito difícil de compreender.
Srila Prabhupada: Suponha que alguém tenha contraído varíola. Assim, após sete dias ele desenvolve os sintomas da doença. Como se chama este período de sete dias?
mike Robinson: Incubação?
Srila Prabhupada: Incubação. Portanto você não pode evitar este período. Se você contraiu uma doença, ela se desenvolverá com a sansão da lei da natureza. De maneira semelhante, durante esta vida você se associa com vários modos da natureza material, e esta associação determinará que tipo de corpo você obterá na próxima vida. Isto está estritamente sob o controle das leis da natureza. Todos são controlados pelas leis da natureza – todos são completamente dependentes – mas por ignorância as pessoas pensam que são livres. Elas não são livres; estão apenas imaginando que são livres, visto que estão completamente sob o controle das leis da natureza. Portanto, seu próximo nascimento será determinado de acordo com suas atividades – pecaminosas ou piedosas, conforme o caso.
mike Robinson: Sua graça, o senhor poderia explicar isto de novo? O senhor disse que ninguém é livre. O senhor quer dizer que se vivemos uma vida virtuosa, determinamos de algum modo um bom futuro para nós mesmos?
Srila Prabhupada: Sim.
mike Robinson: Então temos liberdade para escolher o que cremos seja importante? A religião é importante, porque se acreditarmos em Deus e vivermos honestamente...
Srila Prabhupada: Não é uma questão de crença. Não levante esta questão de crença. Isto é lei. Considere, por exemplo, um governo. Você pode acreditar ou não, porém se você transgredir a lei, será punido pelo governo. Semelhantemente, existe um Deus, quer você creia, quer não. Se você não crê em Deus, e independentemente faz o que bem entende, então você será punido pelas leis da natureza.
mike Robinson: Compreendo. A Religião em que se crê faz alguma diferença? Faria alguma diferença se a pessoa fosse um devoto de Krishna?
Srila Prabhupada: Não é uma questão de religião. É uma questão de ciência. Embora você seja um ser espiritual, você está condicionado materialmente; por isso, você está sob o controle das leis da natureza material. Assim, pode ser que você creia na religião cristã e que eu creia na religião hindu, mas isso não quer dizer que você vai envelhecer e eu não. Referimo-nos à ciência do envelhecer. Esta é uma lei natural. Não é que pelo fato de ser cristão você está envelhecendo, ou que pelo fato de ser hindu eu não estou. Todos estão envelhecendo. Por conseguinte, de modo semelhante, todas as leis da natureza aplicam-se a todos. Quer você creia nesta religião, quer naquela, isto não faz diferença.
mike Robinson: Então, o senhor diz que só há um Deus controlando todos nós?
Srila Prabhupada: Há um Deus e uma lei da natureza, e estamos todos sob o controle desta lei da natureza. Somos controlados pelo Supremo. Portanto, se pensamos que estamos livres ou que podemos fazer o que quisermos, é tolice nossa.
mike Robinson: Compreendo. O senhor pode me explicar que diferença há em ser um membro do movimento Hare Krishna?
Srila Prabhupada: O movimento Hare Krishna destina-se àqueles que levam a sério a compreensão desta ciência. Nosso grupo não é de forma alguma sectário. Não. Qualquer pessoa pode tornar-se membro do movimento Hare Krishna. Os estudantes universitários, por exemplo, também podem ser aceitos como membros. Não importa que você seja um cristão, um hindu ou um muçulmano. O movimento para a consciência de Krishna admite qualquer pessoa que queira compreender a ciência de Deus.
mike Robinson: E que diferença faria para uma pessoa que aprendesse a ser uma pessoa Hare Krishna?
Srila Prabhupada: Sua educação verdadeira começaria. Antes de mais nada, devemos compreender que somos almas espirituais. E como somos almas espirituais, estamos mudando de corpo. Este é o bê-a-bá da compreensão espiritual. Portanto, quando o seu corpo está liquidado, aniquilado, você não está liquidado. Você obtém outro corpo, do mesmo modo como pode trocar de paletó ou de camisa. Se amanhã você vier me ver usando uma camisa e um paletó diferentes, acaso isso significa que você é uma pessoa diferente? Não. Semelhantemente, você muda de corpo cada vez que morre; mas você, a alma espiritual situada dentro do corpo, permanece o mesmo. É preciso compreender este ponto para que então se possa progredir mais na ciência da consciência de Krishna.
mike Robinson: Sim, acho que agora compreendi. Se pudermos prosseguir daí – o senhor dizia que o modo como vivemos faz uma diferença na nossa vida após a morte, que há leis naturais que determinam nossa próxima vida. Como funciona o processo de transmigração?
Srila Prabhupada: O processo é muito sutil. A alma espiritual é invisível aos nossos olhos materiais. Ela é atômica em tamanho. Depois da destruição do corpo grosseiro (que se constitui dos sentidos, de sangue, de ossos, de gordura e assim por diante), o corpo sutil, que consiste na mente, na inteligência e no ego, continua funcionando. Assim, no momento da morte este corpo sutil leva a pequena alma espiritual para outro corpo grosseiro. Este processo é semelhante ao processo do ar conduzindo a fragrância de uma rosa. Ninguém pode ver de onde vem esta fragrância, mas sabemos que ela está sendo levada pelo ar. Embora não se possa ver, isto acontece. De modo semelhante, o processo de transmigração da alma é muito sutil. De acordo com a condição da mente no momento da morte, a alma espiritual entra no ventre de uma determinada mãe através do sêmen de um pai, e daí a alma desenvolve um tipo de corpo particular dado pela mãe, que pode ser um corpo de ser humano, de gato, de cachorro ou qualquer coisa.
mike Robinson: O senhor quer dizer então que antes desta vida nós já fomos outra coisa?
Srila Prabhupada: Sim.
mike Robinson: Então nós continuamos voltando como outra coisa nas próximas vezes?
Srila Prabhupada: Sim, porque você é eterno. Você está simplesmente trocando de corpo de acordo com seu trabalho. Portanto, você precisa saber como parar com isso, como pode se manifestar em seu corpo espiritual original. Consciência de Krishna é isto.
mike Robinson: Compreendo. Portanto se eu me tornasse consciente de Krishna, não correria o risco de voltar como um cachorro?
Srila Prabhupada: Não. [Para um devoto:] Encontre este verso: janma karma ca me divyam...
Discípulo:
Janma karma ca me divyam
evam yo vetti tattvatah
tyaktva deham punar janma
naiti mam eti so ‘juna

“Ó Arjuna, aquele que conhece a natureza transcendental de Meu aparecimento e atividades, ao deixar o corpo, não nasce outra vez neste mundo material, mas alcança Minha morada eterna.” [Bg. 4.9]
Srila Prabhupada: Deus está dizendo: “Qualquer pessoa que Me compreenda está livre do nascimento e da morte.” Porém, não se pode compreender Deus por intermédio da especulação materialista. Isto não é possível. Em primeiro lugar, deve-se chegar à plataforma espiritual. Daí obtém-se a inteligência necessária para se compreender Deus. E quando compreendemos Deus, já não obtemos corpos materiais: voltamos ao lar, voltamos ao Supremo. Vivemos eternamente; já não precisamos mais trocar de corpo.
mike Robinson: Compreendo. Agora, outra coisa que eu gostaria de saber. O senhor já citou duas passagens de suas escrituras. De onde vêm essas escrituras? O senhor pode explicar isto brevemente?
Srila Prabhupada: Nossas escrituras vêm da literatura védica, que tem existido desde o começo da criação. Sempre que há alguma nova criação material – como, por exemplo, este microfone – há também uma literatura para explicar como lidar com ela. Não é assim?
mike Robinson: Sim, realmente.
Srila Prabhupada: E esta literatura aparece com a criação do microfone.
mike Robinson: É isso mesmo.
Srila Prabhupada: Assim, semelhantemente, a literatura védica aparece com a criação cósmica, para explicar como lidar com ela.
mike Robinson: Compreendo. Portanto, essas escrituras têm existido desde o começo da criação. Agora, eu gostaria de mudar o assunto para algo a respeito do quê, segundo creio, o senhor tem firmes convicções. Qual é a principal diferença entre a consciência de Krishna e as outras disciplinas orientais que ensinam no Ocidente?
Srila Prabhupada: A diferença é que nós seguimos a literatura original, ao passo que eles manufaturam sua própria literatura. Esta é a diferença. Quando se trata de assuntos espirituais, temos que consultar a literatura original, e não uma literatura qualquer, publicada por um falsificador.
mike Robinson: E Quanto ao cantar de Hare Krishna, Hare Krishna...?
Srila Prabhupada: Cantar Hare Krishna é o processo mais fácil para uma pessoa se purificar, especialmente nesta era, em que as pessoas são tão estúpidas que não são capazes de compreender o conhecimento espiritual com facilidade. Se uma pessoa canta Hare Krishna, sua inteligência se purifica, e então ela pode compreender as coisas do espírito.
mike Robinson: O senhor poderia me dizer como vocês se orientam no que fazem?
Srila Prabhupada: Nós nos orientamos pela literatura védica.
mike Robinson: Pelas escrituras que o senhor citou?
Srila Prabhupada: Sim, tudo está na literatura. Nós a estamos explicando em inglês e em outras línguas também. Mas não estamos manufaturando nada. Se tivéssemos que manufaturar conhecimento, então estaria tudo arruinado. A literatura védica é assim como a literatura que explica como instalar este microfone. Ela diz: “Faça assim: coloque alguns dos parafusos deste lado, em torno do metal.” Você não pode alterar nada porque senão estraga tudo. Semelhantemente, como não estamos manufaturando nada, é preciso simplesmente que se leia um de nossos livros para se receber o verdadeiro conhecimento espiritual.
mike Robinson: Como pode a filosofia da consciência de Krishna influir na maneira de viver das pessoas?
Srila Prabhupada: Ela pode aliviar o sofrimento das pessoas. As pessoas sofrem porque estão equivocadas pensando que são o corpo. Se você pensasse que é seu paletó e sua camisa e lavasse o paletó e a camisa com cuidado, mas se esquecesse de comer, você seria feliz?
mike Robinson: Não, não seria.
Srila Prabhupada: De modo semelhante, todos estão simplesmente lavando o “paletó e a camisa” do corpo e se esquecendo da alma que se encontra dentro do corpo. Eles não tem informação acerca do que há dentro do “paletó e a camisa” do corpo. Pergunte a qualquer pessoa o que ela é, e ela dirá: “eu sou inglês”, ou “eu sou indiano.” E se dissermos: “posso perceber que você possui um corpo inglês ou um corpo indiano, mas o que é você? – isso ela não será capaz de dizer.
mike Robinson: Compreendo.
Srila Prabhupada: Toda a civilização moderna funciona sob o equívoco de que o corpo é o eu (dehatma-buddhi). Esta é a mentalidade dos gatos e cachorros. Suponha que eu estou tentando entrar na Inglaterra e você me faz parar na fronteira: “eu sou inglês,” diz você, “mas você é um indiano. O que você veio fazer aqui?” E o cachorro por sua vez, late: “au au, o que você está fazendo aqui?” Portanto, qual é a diferença na mentalidade? O cachorro está pensando que é um cachorro e que eu sou um estranho, ao passo que você está pensando que é inglês e que eu sou um indiano. Na mentalidade não há diferença. Portanto, se você deixa que as pessoas fiquem na escuridão de uma mentalidade de cachorro e declara que está avançando na civilização, você está mal orientado.
mike Robinson: Agora, passando para outro assunto, deduzo que o movimento Hare Krishna mostra algum interesse nas áreas do mundo onde há sofrimento.
Srila Prabhupada: Sim, nós somos os únicos interessados. Outras pessoas estão simplesmente evitando os problemas principais: nascimento, velhice, doença e morte. Os outros não encontram soluções para estes problemas; estão simplesmente falando disparates de toda a espécie. Estão desencaminhando as pessoas. Elas mesmas estão se mantendo na escuridão. Mas nós devemos começar a dar-lhes alguma luz.
mike Robinson: Sim, mas além de dar iluminação espiritual, vocês também estão interessados no bem-estar físico das pessoas?
Srila Prabhupada: O bem-estar físico acompanha automaticamente o bem-estar espiritual.
mike Robinson: E como é que isso funciona?
Srila Prabhupada: Suponha que você possui um carro. Assim, você naturalmente cuida do carro como também de si mesmo. Mas você não se identifica com o carro. Você não diz: “eu sou este carro.” Isto é absurdo. Mas isto é o que as pessoas estão fazendo. Elas estão cuidando demasiadamente do “carro” corpóreo, pensando que o “carro” é o eu. Elas se esquecem de que são diferentes do “carro”, de que são almas espirituais e têm uma função diferente. Assim como ninguém pode ficar satisfeito bebendo gasolina, do mesmo modo ninguém pode ficar satisfeito com atividades corpóreas. É preciso descobrir o alimento adequado para a alma. Se uma pessoa pensa: “eu sou um carro e preciso beber esta gasolina”, ela é considerada insana. Semelhantemente, uma pessoa que julga ser este corpo e tenta ser feliz com prazeres corpóreos, também é insana.
mike Robinson: Há uma citação aqui a respeito da qual eu gostaria que o senhor comentasse. Alguém de seu movimento deu-me este folheto antes de nosso encontro, e uma das coisas que o senhor diz aqui é que: “A religião não passa de sentimentalismo se não tem base racional.” O senhor poderia me explicar isso?
Srila Prabhupada: A maioria das pessoas religiosas dizem: “Nós cremos...” Mas qual é o valor dessa crença? Pode ser que você creia em algo que não seja realmente correto. Alguns cristãos, por exemplo, dizem: “Nós cremos que os animais não têm alma.” Isto não é correto. Eles crêem que os animais não têm alma porque querem comer os animais, mas na realidade os animais têm alma.
mike Robinson: Como o senhor sabe que o animal tem uma alma?
Srila Prabhupada: Você também pode saber. Aqui está a prova científica: o animal come, você come; o animal dorme, você dorme; o animal faz sexo, você faz sexo; o animal se defende, você também se defende. Então qual é a diferença entre você e o animal? Como você pode dizer que tem uma alma e que o animal não tem?
mike Robinson: Posso compreender isso perfeitamente. Mas as escrituras cristãs dizem...
Srila Prabhupada: Não venha com escrituras; este é um tópico de senso comum. Tente compreender. O animal come, você come; o animal dorme, você dorme; o animal se defende, você se defende; o animal faz sexo, você faz sexo; os animais têm filhos, você tem filhos; eles têm um lugar para viver, você têm um lugar para viver. Quando o corpo do animal se fere, sai sangue. Assim, encontramos todas estas semelhanças. Agora, por que você só nega esta semelhança para a presença da alma? Isto não é lógico. Você já estudou lógica? Em lógica há uma coisa chamada analogia. Analogia significa tirar uma conclusão a partir da descoberta de muitos pontos em comum. Se há tantos pontos em comum entre os seres humanos e os animais, por que negar outra semelhança? Isto não é lógica. Isto não é ciência.
mike Robinson: Mas se o senhor prega este argumento e o usa de outro modo...
Srila Prabhupada: Não há outro modo. Se você não argumenta baseando-se na lógica, você não está sendo racional.
mike Robinson: Sim, está certo, mas vamos partir de uma outra hipótese. Suponhamos que a presunção de que o ser humano não tem alma...
Srila Prabhupada: Então você tem que explicar qual é a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Eu já expliquei isto no início. Logo que a força viva, a alma, vai-se embora do corpo, até mesmo o mais belo corpo perde seu valor. Ele é jogado fora e ninguém liga para ele. Mas se eu puxar seu cabelo agora, você vai querer brigar comigo. Esta é a distinção entre um corpo vivo e um corpo morto. No corpo vivo existe a alma, mas no corpo morto não. Logo que a alma deixa o corpo, o corpo perde seu valor, perde sua utilidade. È muito simples compreender isto, mas até mesmo os maiores dentre os assim chamados cientistas e filósofos são demasiado estúpidos para compreender isso. A sociedade moderna está numa situação muito abominável. Não há ninguém que seja realmente inteligente.
mike Robinson: O senhor está se referindo a todos os cientistas que não conseguem perceber a dimensão espiritual da vida?
Srila Prabhupada: Sim. Ciência verdadeira significa conhecimento de todas as coisas materiais e espirituais.
mike Robinson: Mas o senhor foi um químico na vida civil, não foi?
Srila Prabhupada: Sim, anteriormente fui um químico, mas não é preciso ter muita inteligência para se tornar um químico. Qualquer homem de bom senso pode fazê-lo.
mike Robinson: Mas presumivelmente o senhor acha que a ciência material também é importante, mesmo que os cientistas de hoje sejam estúpidos?
Srila Prabhupada: A ciência material só é importante até certo ponto. Não é sumamente importante.
mike Robinson: Compreendo. Permita-me voltar a uma pergunta que eu tinha feito antes. Quando estávamos discordando há alguns minutos atrás, o senhor dizia: “Não venha com escrituras; este é um tópico comum.” Mas que papel representam as escrituras em sua religião? Quão importantes são elas?
Srila Prabhupada: Nossa religião é uma ciência. Quando dizemos que uma criança cresce, transformando-se em adolescente, isso é ciência. Não é religião. Toda criança cresce, transformando-se em adolescente. Onde entra a questão da religião ai? Todo homem morre. Onde entra a questão da religião ai? E quando um homem morre, o corpo torna-se inútil. Onde entra a questão da religião aí? Isso é ciência. Quer você seja cristão, hindu ou muçulmano, quando você morre seu corpo torna-se inútil. Isto é ciência. Quando seu parente morrer, você não poderá dizer: “Nós somos cristãos; cremos que ele não morreu.” Não, ele morreu. Quer seja ele cristão, hindu ou muçulmano, ele morreu. Então quando falamos, falamos baseando-nos neste princípio: que o corpo só é importante enquanto a alma está no corpo. Quando a alma não está presente no corpo, este é inútil. Esta ciência é aplicável a todos, e nós estamos tentando educar as pessoas baseados nisto.
mike Robinson: Mas se eu o compreendo corretamente, parece que o senhor está educando as pessoas baseado em princípios puramente científicos. Onde entra a religião nisso tudo?
Srila Prabhupada: Religião também significa ciência. As pessoas erroneamente consideram que religião significa fé – “eu creio.” [voltando-se para um devoto:] Procure a palavra religião no dicionário.
Discípulo: Em religião o dicionário diz: “reconhecimento de controle ou poder sobre humano, e especialmente de um Deus pessoal que tem direito à obediência, e efetuando tal reconhecimento com a atitude mental correta.”
Srila Prabhupada: Sim. Religião significa aprender a como obedecer ao controlador supremo. Assim, você pode ser cristão e eu hindu; isso não importa. Tanto eu quanto você temos que aceitar que há um controlador supremo. Todos têm que aceitar isso; isto é religião verdadeira. E não isto: “Nós cremos que os animais não têm alma.” Isso não é religião. Isso é totalmente acientífico. Religião significa compreensão científica do controlador supremo: compreender o controlador supremo e obedecê-lO – isso é tudo. No estado, o bom cidadão é aquele que compreende o governo e obedece às leis do governo, e o mau cidadão é aquele que não liga para o governo. Então, se você se torna um mau cidadão por ignorar o governo de Deus, você é irreligioso. E se você é um bom cidadão, você é religioso.
mike Robinson: Compreendo. O senhor pode me dizer qual o senhor crê que seja o sentido da vida? Em primeiro lugar, por que existimos?
Srila Prabhupada: O sentido da vida é gozar. Porém, atualmente você está numa plataforma falsa de vida, e por isso está sofrendo ao invés de gozar. Em toda parte vemos a luta pela vida. Todos estão lutando, mas qual é o prazer deles no final de contas? Eles estão simplesmente sofrendo e morrendo. Por isso, embora vida signifique gozo, no momento atual você não está gozando a vida. Mas se alcançar a verdadeira plataforma espiritual da vida, então você gozará.
mike Robinson: Para finalizar, o senhor pode me explicar algumas das fases pelas quais se passa na vida espiritual? Quais são as fases espirituais pelas quais passa um devoto de Krishna?
Srila Prabhupada: Na primeira fase você é curioso. “Então,” diz você, “o que é este movimento da consciência de Krishna? Deixe-me estudá-lo.” Isto se chama sraddha, ou fé. Assim é o começo. Em seguida, se você é sério, você se associa com aqueles que estão cultivando este conhecimento. Você tenta compreender o que eles estão sentindo. Então você sentirá: ‘Por que não me tornar um deles?” E quando você se torna um deles, logo todos os seus receios desaparecem. Você se torna mais fiel, e então começa a apreciar realmente a consciência de Krishna. Por que estes rapazes não vão ao cinema? Por que não comem carne nem vão a boates? Por que o gosto deles mudou. Agora eles odeiam todas estas coisas. Dessa maneira, você faz progresso. Em primeiro lugar, fé; depois, associação com os devotos; depois, eliminação de todos os receios; depois, fé firme; depois, gosto; depois, realização de Deus; e depois a perfeição, o amor a Deus. Esta é a religião de primeira classe. Não uma simples cerimônia ritualística de “eu creio, você crê.” Isto não é uma religião. Isto é vigarice. Religião verdadeira significa desenvolver seu amor por Deus. Esta é a perfeição da religião.
mike Robinson: Muito obrigado por ter conversado comigo. Foi um prazer conversar com o senhor.
Srila Prabhupada: Hare Krishna.


Verdade e beleza


Srila Prabhupada publicou este ensaio primeiramente na Índia, na antiga versão em tablóide de sua revista quinzenal “De Volta ao Supremo” (20 de novembro de 1958). Ele contém a inesquecível história da “beleza líquida”, em que Srila Prabhupada dramaticamente expõe o princípio fundamental da sexualidade humana. Esta exposição esclarecedora da natureza da verdade e da beleza é intemporal e surpreendentemente relevante para aqueles que buscam o “eu interno”.


Pode ser, às vezes, que se argumente sobre se “verdade” e “beleza” são termos compatíveis. Alguém de bom grado concordaria em dizer a verdade, por assim dizer, mas uma vez que a verdade nem sempre é bela – de fato, ela é freqüentemente um tanto assustadora e desagradável – como poderia alguém expressar verdade e beleza ao mesmo tempo?
Em resposta, poderíamos informar a todos os interessados que “verdade” e “beleza” são compatíveis. De fato, podemos afirmar enfaticamente que a verdade real, que é absoluta, é sempre bela. A verdade é tão bela que atrai a todos, inclusive à própria verdade. A verdade é tão bela que muitos sábios, santos e devotos têm deixado tudo pela causa de verdade. Mahatma Gandhi, um ídolo do mundo moderno, dedicou sua vida a fazer experiências com a verdade, e todas as suas atividades objetivavam apenas a verdade.
Por que somente Mahatma Gandhi? Cada um de nós tem o desejo intenso de só buscar a verdade, pois a verdade é não somente bela, mas também todo-poderosa, plena de todos os recursos, todo famosa, todo-renunciada e plena de todo o conhecimento.
Infelizmente, às pessoas não tem informação da verdade real. De fato, 99,9 por cento dos homens em todas as esferas da vida andam apenas atrás da inverdade, em nome da verdade. Sentimo-nos realmente atraídos pela beleza da verdade, mas desde tempos imemoriais temos estado acostumados ao amor da inverdade que aparenta ser verdade. Portanto, para o mundano “verdade” e “beleza” são termos incompatíveis. A verdade e beleza mundanas podem ser explicadas da seguinte maneira.
Certa feita, um homem que era muito poderoso e de forte constituição física, mas cujo caráter era muito duvidoso, apaixonou-se por uma bela moça. A moça era não apenas bonita na aparência, como também santa no caráter, e, sendo assim, ela não gostou das abordagens do homem. O homem, entretanto, insistia por causa de seus desejos luxuriosos, e por isso a moça pediu-lhe que esperasse apenas sete dias, e ela determinou o dia em que ele poderia encontrar-se com ela novamente. O homem concordou, e, com grande expectativa, ficou esperando pelo dia marcado.
A santa moça, contudo, a fim de manifestar a verdadeira beleza da verdade absoluta, adotou um método muito instrutivo. Ela tomou doses muito fortes de laxativos e purgantes, e por sete dias seguidos teve diarréia e vomitou tudo que havia comido. Além disso, ela armazenou todas as fezes e o vômito em recipientes adequados. Como resultado dos purgantes, a dita bela moça tornou-se escurecida e seus belos olhos afundaram nas órbitas de seu crânio. Assim, na hora marcada, ela esperou ansiosamente para receber o ávido rapaz.
O homem apareceu em cena bem vestido e bem comportado, e perguntou à feia moça que o esperava ali a respeito da bela moça com a qual queria encontrar-se. Ele não pôde reconhecer naquela moça a mesma beldade que ele procurava; de fato, embora ela repetidamente afirmasse sua identidade, por causa de sua deplorável condição, ele não era capaz de reconhecê-la.
Por fim, a moça disse ao poderoso rapaz que ela havia reservado os ingredientes de sua beleza, armazenando-os em recipientes. Disse-lhe também que ele poderia desfrutar desses sucos de beleza. Quando o poético homem mundano pediu para ver esses sucos de beleza, ele foi posto na presença do depósito de fezes soltas e vômito líquido, que emanavam um odor insuportável. Assim toda a história da beleza líquida foi-lhe revelada. Finalmente, pela graça da santa moça, este homem de mau caráter pôde ter um vislumbre do que é a sombra e a substância, e desse modo soltou a si.
A posição desse rapaz é semelhante à posição de cada um de nós, que nos sentimos atraídos pela falsa beleza material. A moça acima mencionada tinha um corpo material belamente desenvolvido de acordo com os desejos de sua mente, mas, de fato, ela estava à parte desse corpo e mente materiais temporários. Na verdade, ela era uma centelha espiritual, e o amante que estava atraído por sua falsa pele também o era.
Os intelectuais e estetas mundanos, contudo, são iludidos pela beleza e atração externas da verdade relativa e não têm conhecimento da centelha espiritual, que é verdade e beleza ao mesmo tempo. A centelha espiritual é tão bela que, quando deixa o dito belo corpo, que de fato é cheio de fezes e vômito, ninguém quer tocar naquele corpo, mesmo que ele seja decorado com roupas caras.
Estamos todos buscando uma verdade falsa e relativa, que é incompatível com a verdade real. A verdade real, entretanto, é permanentemente bela, retendo o mesmo padrão de beleza por inumeráveis anos. Essa centelha espiritual é indestrutível. A beleza da pele externa pode ser destruída em uma questão de horas mediante uma dose de purgantes fortes, mas a beleza da verdade é indestrutível e sempre a mesma. Infelizmente, os artistas e intelectuais mundanos ignoram esta bela centelha do espírito. Eles também ignoram o fogo total que é a fonte dessas centelhas espirituais, e ignoram os relacionamentos entre as centelhas e o fogo, que assumem a forma de passatempos transcendentais. Quando esses passatempos são revelados aqui pela graça do Todo-poderoso, os tolos que não podem perceber além de seus sentidos confundem esses passatempos de verdade e beleza com as manifestações de fezes soltas e vômito acima descritas. Assim, em desespero, eles perguntam como é possível conciliar a verdade com a beleza.
Os mundanos não sabem que a entidade espiritual total é a pessoa bela que atrai tudo. Eles não sabem que Ele é a substância primordial, a fonte primordial e o manancial de tudo que existe. As infinitésimas centelhas espirituais, sendo partes integrantes desse espírito total, são qualitativamente iguais em beleza e eternidade. A única diferença é que o todo é eternamente o todo e as partes são eternamente as partes. Tanto o todo quanto as partes, entretanto, constituem a verdade última, a beleza última, o conhecimento último, a energia última, a renúncia última e a opulência última.
Embora escrita pelo maior dos poetas ou intelectuais mundanos, qualquer literatura que não descreva a verdade e beleza últimas é apenas um estoque de fezes e vômitos da verdade relativa. Verdadeira literatura é aquela que descreve a verdade e beleza últimas do Absoluto